Domingo, 5 de Junho de 2011
Eleições - a opinião de Pedro Godinho

 

Não me digas que não me compreendes

Quando os dias se tornam azedos

Não me digas que nunca sentiste

Uma força a crescer-te nos dedos

E uma raiva a nascer-te nos dentes

Não me digas que não me compreendes

    (Sérgio Godinho, Que força é essa)

 

 

Tanto entusiasmo, tanta energia, tanta entrega, tanta participação. A procurar soluções para os problemas, de forma subsidiária – acção local – e solidária – a comunidade e os indivíduos em consonância. Assim éramos nós, portugueses, após o 25 de Abril de 1974.


E as eleições, também, foram um exercício de liberdade e democracia. Os programas eram lidos e discutidos, os partidos e candidatos apresentavam as suas ideias, perspectivas e soluções, que eram sujeitas a animado debate. As palavras tinham um sentido e cada um dizia ao que vinha. Até os revolucionários insurreccionistas, contrários às eleições burguesas, se empenharam em prol da abstenção ou voto nulo.


Nas Contituintes de 1975 votaram 92% dos eleitores inscritos. Nas legislativas de 1976 votaram 84% dos eleitores. Nas legislativas de 2009 votaram 60% dos eleitores. Nas eleições de hoje os números indicam um equivalente nível elevado de abstenção (Sem que isso incomode os partidos que continuam a garantir a sua eleição).


Porque nos desiludimos? O que afastou as pessoas comuns da vontade de serem parte da política e, portanto, da determinação do destino – seu e da sua comunidade?


Os partidos. Não por serem partidos, mas por terem sido tomados por aqueles para quem vale tudo para subirem na vida e tornarem privado o que é comum. E transformaram os partidos em nós duma rede de gestão de clientelas, de alto a baixo, suportados numa lógica de troca de favores e influências de modo a beneficiar os que, em contrapartida, os sustentem, independentemente do que digam ou façam – com o mesmo sectarismo dos clubes de futebol.


Por isso é tão importante para os acólitos que ganhem os “nossos”, para tomarem o lugar dos “outros”. Por isso, para os não-alinhados são todos os mesmos e deles queremos é distância sanitária. E a diferença entre um Sócrates e um Passos (confortavelmente, podiam trocar de partido e discurso sem que isso os afectasse, porque só lhes interessa ser o manageiro) está apenas em qual dos clubes tem poder para aceder ao pote e partilhá-lo com associados, amigos e correlegionários.


E assim nos distanciamos e deixamos de acreditar que a coisa tem solução. Uma das personagens de Saint-Exupéry, em Voo Nocturno, diz que: “na vida nunca há soluções. Há forças em movimento: o que é preciso é criá-las e as soluções aparecem.” As actuais forças em movimento são são positivas, pelo que as soluções também não o podem ser.


Há que criar outras. O actual quadro político-parlamentar terá de implodir para se regenerar. São necessários mecanismos constitucionais e institucionais de contra-peso e que impeçam o monopólio da decisão por directórios acoitados em partidos. A democracia tem de criar espaços para que seja o povo quem mais ordena.


E para não ficarmos à espera de Godot, entre o que há e a Revolução tem de poder existir algo, diferente mas democrático.

 

Que força é essa

que força é essa

que trazes nos braços

Que só te serve para obedecer

que só te manda obedecer

Que força é essa, amigo

que força é essa, amigo

Que te põe de bem com os outros

e de mal contigo

Que força é essa, amigo

que força é essa, amigo

    (Sérgio Godinho, Que força é essa)

 

 



publicado por Pedro Godinho às 23:00
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9 comentários:
De CRomualdo a 5 de Junho de 2011 às 23:05
Ainda não ouvi falar nisso esta noite, mas até ao momento foram apurados cerca de 147.000 votos em branco e 74.600 votos nulos - mais de 221 mil votos de eleitores que não se abstiveram e quiseram, cada um a seu modo, enviar uma mensagem à classe política.


De Pedro Godinho a 5 de Junho de 2011 às 23:17
Aí está uma das medidas anti-monopolistas que deveria ser exigida: os lugares correspondentes aos votos em branco (não incluo os nulos pois incluem erros de preenchimento) deviam ficar vazios (em branco).
Se se calcular a percentagem de votos dos partidos face ao número de eleitores, e não apenas dos votantes, vê-se que afinal a sua representatividade está muito abaixo do que aparentam.


De Augusta Clara a 5 de Junho de 2011 às 23:41
Isto é muito importante. Se ficam representados no parlamento ou não, quanto a mim nem é o mais importante - também já disse que não gostaria de ser representada por fantasmas -, mas a verdade é que são cidadãos eleitores que tomaram uma posição e, numa época em que à quantificação é dada muito mais importância do que à qualificação, parece que ninguém dá por estes números, bem elevados.


De Luis Moreira a 5 de Junho de 2011 às 23:38
Nem mais.


De Carlos Loures a 5 de Junho de 2011 às 23:55
A implosão do quadro político actual é uma possibilidade. Mas bem sabemos como as forças políticas do actual «bloco central» são apoiadas pelos grandes grupos financeiros. Uma implosão será seguida de um reordenamento que permita aos grupos económicos que controlam a vida nacional manter esse controlo. A não ser que forças exógenas intervenham e a lógica do actual sistema possa ser contrariada ou mesmo invertida.


De Júlio Marques Mota a 5 de Junho de 2011 às 23:59
O Pedro Godinho afirma: "E para não ficarmos à espera de Godot, entre o que há e a Revolução tem de poder existir algo, diferente mas democrático."

As eleições mostram isso mesmo que há um grande trabalho político a fazer, entre o que há e a Revolução que um dia se há-de fazer. Veja-se o tratamento pobre que da crise foi feita para isso percebermos. Mas uma coisa para já mudou, não se alterou o governo, irão mudar apenas as pessoas lamento dizê-lo, mas caiu um grande obstáculo à reflexão política em democracia, caiu Sócrates e isso por si só, já é um grande ganho. Saibamos todos nós aproveitá-lo.
Júlio Marques Mota


De Luis Moreira a 6 de Junho de 2011 às 00:07
Dizem-me que não vale a pena personalizar as questões. Quase sempre é verdade mas não com Sócrates. Asfixiou o debate democrático, criou um clima de medo, não vacilou em destruir princípios de economia e finanças, tudo aos pés da sua insuportável arrogância.


De Pedro Godinho a 6 de Junho de 2011 às 00:21
Querer fazer o menino Pedro passar por cordeiro porque o Sócrates era intragável é esquecer o que foi preciso ele fazer, a quem se juntar e o que oferecer, para chegar onde chegou. A Manuela e o Pacheco lá devem saber.

"Pode alguém ser quem não é?
Pode alguém ser quem não é?
Pode alguém ser quem não é?"
(Sérgio Godinho)


De Luis Moreira a 6 de Junho de 2011 às 00:27
Não creio que cometa erros crassos, óbvios, "orientados" como fez Sócrates, mas quem chega a estes lugares não chega lá sozinho, lá nisso tens tu toda a razão.


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