Sábado, 4 de Junho de 2011

A eterna questão do livro – 12 - por Carlos Loures

 

 

 

 

 

(Continuação)

 

Quando aqui falei dos editores, referi-me sobretudo aos pequenos editores que se guiam pelo seu instinto, e não têm meios de testar o feeling  pelo

 

qual orientam a produção. Hoje volto aos editores, mas dando a palavra a um grande editor internacional – Peter Mayer, presidente da Overlook Press e ex-presidente da Penguin. Entrevistado por Juan Cruz, do El País, fez, entre muitas outras, uma afirmação desconcertante: «Editar é uma questão de instinto». Na Penguin, onde esteve entre 1978 e 1996, foi a alma desta editora.

 

Prestes a atingir os 75 anos, está agora à frente da Overlook, uma pequena empresa que foi de seu pai e que ele transformou numa editora altamente competitiva. Não vou transcrever a entrevista, mas apenas referir algumas das curiosas opiniões  de Peter Mayer.*

 

Sobre o futuro da edição, opina que não se deu suficiente atenção a pessoas como Marshall McLuhan. Pensámos todos que ao dizer que o meio é a mensagem, fora apenas engenhoso. As transformações da nossa época, nomeadamente a evolução tecnológica, produziu mudanças na cultura em geral o que afecta o universo do livro. O mundo está interligado de forma inimaginável.

 

Porém, esta ligação faz-se mais à informação do que à imaginação e isso entristece-o.  Mergulhados num espesso caldo de informação estamos menos concentrados. O trabalho do editor, embora a função seja a mesma, está a mudar. O público depende menos do editor, tem tanto acesso á informação como ele. A intermediação do editor está a ser democraticamente eliminada. A tecnologia avança a uma tal velocidade que impossibilita a edição de alguns livros. Quando o livro chega ao mercado a informação já está obsoleta. Os jovens de hoje se querem saber o que se passou no Egipto não consultam os jornais, mas a Internet. A ficção e o teatro acabam por ser os géneros menos afectado. A Guerra e paz tem hoje a mesma relevância que tinha há um século.

 

A cultura da livraria terá que mudar – a tendência á para que haja menos livrarias e esta diminuição afectará os centros de  cultura nas nossas cidades.  Cadeias de livrarias como Barnes & Noble, o que mais vendem agora são máquinas para ler livros electrónicos. Os custos de impressão e de publicação aumentaram e o preço terá que subir. Como os livros serão mais caros, as pessoas serão levadas a optar pelos e-books.

 

Sobre os escritores, Mayer opina que enquanto houver livros tal como os conhecemos, os escritores famosos continuarão a vender livros impressos e e-books. A maioria dos escritores, sobretudo os ficcionistas, continuará a escrever, aconteça o que acontecer na indústria editorial. São escritores. Precisam de escrever. Talvez se torne mais difícil ainda viver da escrita. Herman Meville, continuou a escrever apesar de os seus livros não se venderem. E criou  Moby Dick e Billy Budd porque tinha de escrever. Do ponto de vista de um escritor sério, a literatura continuará viva. No entanto, actualmente o editor corre riscos excessivos protegendo e apoiando o escritor. Daí o crescimento da auto-edição.

 

Sobre o papel dos blogues no marketing editorial, diz «Não creio que os blogues tenham muita  credibilidade, acredito mais no boca a boca, e isso cada vez terá mais importância. As redes sociais multiplicar-se-ão e este será o tipo de marketing que se fará».  Continuamos amanhã com Peter Mayer.

 

(Continuação)

 

*Lembram-se da iniciativa lançada pelo Sílvio Castro que levou alguns da nós a dizer quais os dez livros que mais nos impressionaram ao longo da vida?. Peter Mayer deu-nos a sua lista. foram-lhe pedidos dez, mas ele fez uma lista de quinze: O Castelo, de Franz Kafka,  A  Montanha Mágica, de Thomas Mann, Don Quijote de la Mancha, de Miguel Cervantes, Call It Sleep, de Henry Roth, Middlemarch, de George Eliot; O Grande Gatsby de Fitzgerald; Cem Anos de Solidão, de García Márquez; Os quatro romances de Thomas Wolfe; : É isso um homem? de Primo Levi; O Som e a Fúria, de William Faulkner; Em Busca do Tempo Perdido de Proust; Huckleberry Finn de Mark Twain; Guerra e Paz de Tolstoi; Os Irmãos Karamazov, de Dostoievski, e Herzog, de Saul Bellow. Sei que é uma lista longa e que é tudo ficção. Quando pensei nos livros que tiveram algum significado para mim, recordei um ou dois romances e a partir daí só me veio à cabeça ficção. Fui sobretudo um leitor de ficção até ter feito 35 anos. E as memórias da juventude são as mais poderosas do que as que se produzem na meia idade e na minha actual maturidade”.


 

publicado por Carlos Loures às 21:00

editado por João Machado em 03/06/2011 às 23:14
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1 comentário:
De Eva Cruz a 4 de Junho de 2011
Partilho da mesma escolha e da opinião de que as memórias da juventude são as mais poderosas

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