Sábado, 4 de Junho de 2011

LIÇÕES DE ETNOPSICOLOGIA DA INFÂNCIA - II, por Raúl Iturra

  (continuação)

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Caim mata a Abel, diz a Bíblia Cristã

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

http://www.youtube.com/watch?v=TtxVOdQuRoo

Hector Berlioz Te Deum Op 22

 

 

 

  

II

 

 

Segunda Lição

 

O REAL DOS PAIS: CAIM E ABEL

 

 

 

 

Durante anos tenho escrito textos sobre a infância. Em todos eles, como ao proferir conferências, costumo dizer que toda a sociedade tem duas culturas, a do adulto e a da criança e que ambas as culturas estão entrelaçadas e que para entender uma, é preciso entender a outra no seu comportamento e na sua epistemologia. Ao escrever este livro as minhas dúvidas fizeram-me pensar outra vez e hoje eu diria que toda sociedade tem adultos e crianças, hierarquizados pela forma de materializar os seus sentimentos em emoções diferentes, como acontece em diferentes culturas em todo o mundo. Por outras palavras, há comportamentos emotivos diferentes nas diferentes cronologias que cruzam um ser humano, há formas de exprimir sentimentos com variações, como uma sonata: allegro, jocosso, minuet, bourrée, dança, contradança, ou serenidade, divertimento, alegria, tristeza, fugir, ser punido, punir, explicar, entender, calcular, pedir, depender. Mas, principalmente, depender: o mais novo, dos cuidados, alimentação, agasalho, vigilância, correcção, carinho, amor, raiva, engano, ensino, formas de se estar juntos enquanto um facto muito importante acontece: a mudança do tempo entre todos os seres humanos: os mais novos crescem, é dizer, aprendem o cálculo das contas da vida, lucro e mais-valia, a ganhar autoridade e independência, autonomia, enquanto os mais velhos começam a perder a lembrança, a agilidade das mudanças culturais, até passarem a depender também, do antigo subordinado. É uma dança com duas pontas: a subordinação do mais novo durante um tempo, a subordinação do mais velho, em tempos posteriores, ao seu descendente e antigo subordinado. Há, porém, ascendentes e descendentes ao longo da vida que, ou estão em cantos extremamente diferenciados, com uma supremacia e autoridade absoluta do mais velho, passando pela paridade de actividades, ao ser o mais novo adulto independente e com a sua própria família, até ao dia de velhice da antiga autoridade.                                                                                                                                                                

 

Factos que observamos e nos parecem evidentes, factos aos quais nos habituamos. Desenvolve-se em cada cultura um processo de lidar com as diferenças, que muda na História, na genealogia, no contexto económico da cultura, com as descobertas científicas, novas maneiras de tratar o corpo e de saber procurar uma alta auto estima pessoal, a nossa própria mais-valia, o nosso próprio objecto do desejo ou de aceitar as infelicidades desenvolvendo o nosso entendimento[1].

 

 

Mas, nem todas as culturas ou comportamentos de interacção nas sociedades do mundo regulamentam essa conduta de forma semelhante. Há toda a análise de grupos não europeus ou europeizados mais tarde, tratados como etnias e não como Nação ou Estado, que a Antropologia estuda[2]. A Psicologia é parte desta análise de comportamento e entendimento do comportamento cultural e a Etnopsicologia é uma parte desta ciência, um método para entender uma mente cultural, suas ideias, ritos, mitos, organização social, estrutura de parentesco, processo de interacção social e as suas abstracções em representações simbólicas e semióticas.

 

Cada grupo social tem uma ideia diferente da serenidade e de paz na interacção entre adultos e crianças, assim como cada grupo social define o que é a vida adulta e a vida da criança, de forma diferente e heterogénea, com uma cronologia de idade que varia conforme os costumes e a lei. Grupo social que recebe no seu seio pessoas que analisam a realidade cultural e o seu comportamento a partir da sua própria teoria – como tem analisado no texto – experimentando retirar das formas normativas dos povos analisados, conceitos que condigam com a teoria europeia, psicanalítica ou comportamental[3]. Em síntese, pode-se dizer que a heterogeneidade de sentimentos e emoções que existem dentro de uma sociedade, são vividas de forma diferente entre os indivíduos de diferentes idades e hierarquias e entre as diferentes culturas. Há os grupos que definem a idade a partir da iminente maturação do indivíduo que entra na época pré-púbere, com a menstruação nas raparigas e o começo de sinais de pêlo púbico nos rapazes, que anuncia a sua necessidade de começar a receber sémen dentro do seu corpo, da maneira analisada por Maurice Godelier[4] para os Baruya da Nova Guiné.

 

A análise de Godelier não apenas refere a fellatio como forma de adquirir sémen transferido de um corpo novo já com esperma que ejacula, sem ter tido intimidade com mulheres, dando a beber do seu pénis esse sémen à criança a irmã de quem dá, será a mãe dos seus filhos, muito embora a vida deles continue na casa dos homens apenas com a obrigação de penetrar a mulher de tempo em tempo. Existe o mito da vagina dentada, mito que define o perigo do pénis ser cortado se ficar muito tempo dentro da mulher, ou se a mulher for a própria vagina dentada vestida de mulher. Pensou-se que era ideia de selvagens, até o Antropólogo Robertson Smith[5], ter descoberto que o mito existe também no Continente Europeu, o que justifica que no Velho Continente os coitos sejam rápidos e curtos, sem interessar o orgasmo da mulher que pode procurar o seu erotismo com outros homens ou mulheres, ou pensar que é assim e a sua missão é apenas ter filhos e amamentar[6]. Fora da Europa, é obrigação das mães tratar das crianças até estas serem transferidas para a casa dos homens por um padrinho escolhido pelo pai entre os membros do clã; no Capítulo 4 refiro e lembro que em 1905 e 1913, Freud denominou aberração sexual esta actividade que ficou classificada como neurose de comportamento até aos dias de hoje. A questão é: se uma cultura orienta a sexualidade à maneira da análise de Freud e seus discípulos, como é que a lógica da História, ou Religião, permite no catecismo não apenas a fellatio, bem como a masturbação – primeira forma de entrar na vida erótica da maior parte dos povos – e a homossexualidade? Talvez seja preciso distinguir o que Malinowski faz no seu texto de 1929 ao denominar “punição às aberrações sexuais” referindo os comportamentos sexuais não heterossexuais – zoofilia – com animais e pessoas do mesmo sexo, que denomina homossexualidade. No entanto, não adscreve nem analisa doença nenhuma a estes comportamentos, porque os Massim não apenas praticam sexualidade “aberrante”, os pais permitem essa realidade e é o dever das mães ensinar sedução às filhas e dos pais formas de penetração aos filhos. Apesar de não serem sempre bem sucedidos, não há punição nem para os ascendentes nem descendentes. O nome do homossexual entre eles é Albino e entende-se que é um comportamento devido a falta de pigmentação quer no corpo, quer nos genitais.[7].

 

A análise de Freud, incluída na mesma nota de rodapé (5), é mais estrita. A sua teoria sobre a sexualidade está orientada para definir o que é um verdadeiro processo reprodutivo. Bem entendido, estas ideias não apenas são retiradas do seu saber religioso e da ideologia da classe de classe, a que pertencia – alta burguesia - baseiam-se também na teoria que separa entre o que parece ser o que mais orienta o comportamento, a vida erótica do ser humano dentro da sua cultura, as lembranças esquecidas do armazenado no Id. Partem do subconsciente que parece orientar as pessoas para um comportamento definido por essas normas. O ascetismo freudiano reage contra a descoberta da procura de prazer entre os seres humanos: sabem que vão morrer e, antes de falecer, o erotismo como a alimentação devem ser os mais importantes comportamentos entre todos. Pode-se comparar a sua teoria de 1905, acrescentada pela experiência acumulada até 1920, bem como a sua análise estática de 1913- estática ao analisar pessoas, denominadas selvagens no seu tempo. Separa os seres humanos entre civilizados e selvagens que não têm outra orientação para além do seu instinto – o que leva a pensar que não conhecia, apesar das fontes, as normas de vida dos não europeus. A sua teoria da sexualidade de 1905, é uma defesa das formas de vida calmas, serenas, normativas, pacíficas, especialmente ao analisar o comportamento sexual das crianças que podem ser vítimas de atropelos de adultos, sem entender o que é uma emoção libidinosa. A sua teoria de 1913, é a análise de adultos que têm comportamentos de crianças na sua vida sexual, é dizer, não distinguem entre opções, que continuam com a espécie de opções infantis que levam a acudir permanentemente ao totem – ao patrão do clã – para desculpar a excessiva vida erótica, com sacrifícios, jejuns e oferendas. Para Freud o acto mais temido pelos povos australianos é o incesto, conceito que ele deriva da teoria evolutiva que marcava o pensamento desde Darwin. O comportamento sexual de hoje, seria um escândalo permanente para o autor, especialmente pelas mudanças das denominadas aberrações a comportamentos legais e lícitos, permitidos, excepto em povos dentro dos quais os textos sagrados são cumpridos com rigidez e podem causar psicoses entre os que se separam dessa maneira de ser, definida pelos Muçulmanos, Cristãos Romanos e Israelitas. O livro está destinado a salientar um Pater Famílias interiorizado, incutido, subsumido no consciente e inconsciente de todo indivíduo e que comanda no super ego de toda criança e, mais tarde, do adulto. A teoria Romana das Doze Tábuas, como analiso no Capítulo 2, o Código de Justiniano, os Éditos de Constantino, O Direito Canónico e a Catequese, são a base da análise, apesar de ser apenas Bion a reconhecer a base religiosa do comportamento psíquico, consciente ou inconsciente. Este é o interesse de entendermos a teoria psicológica e a compararmos com o nosso próprio comportamento activo e público ou de interacção, como gosto denominar. A autonomia existe até um certo ponto, quer para este autor, quer para Malinowski: a interacção é regulamentada pela procura de felicidade na vida. Felicidade associada a emoções, sentimentos e fornicação ou amor com orgasmo, ou simplesmente, carinho e respeito que, por não serem naturais, passam a ser parte de um sistema que denominamos cultura. Esta é a base da análise de todos os autores que tratam de crianças e adultos das suas emoções e formas de as materializar, no curto espaço de tempo que medeia entre o nascimento e a morte, e a ideia central de toda a teoria cultural.

(Continua)

[1] Estes conceitos são analisados, o primeiro, por Sigmund Freud ao desenvolver em 1885 as ideias de Eros e Thanatos, enquanto o segundo é um derivado dos conceitos de Melanie Klein nas palavras do seu discípulo Wilfred Bion, citações tratadas nos capítulos seguintes.

 

[2] Bronislaw Malinowski para o Arquipélago Kiriwina na Melanésia, Maurice Godelier para os Baruya da mesma área, Raymond Firth para a Nova Zelândia, Jorge Dias para os Maconde de Moçambique, Luís Silva Pererira para os Mapuche Rauco do Chile, Sónia Ferreira para os familiares de detidos desaparecidos do mesmo país, e eu próprio, entre outros autores, para os Picunche da Cordillera de los Andes na América Latina. Analisa grupos de Java na Indonésia e outros na Índia, Wilhem Kraepelin no Século XVIII para XIX, com o objectivo de procurar semelhança na causa das doenças denominadas depressivas. Émile Durkheim, discípulo do psicólogo Alemão Wilhelm Wundt, entre XIX e XX estuda Australianos, tal e qual Sigmund Freud, discípulo de Jean Charcot durante esse tempo, e outros consignados no texto, como o Antropólogo Marcel Mauss e a sua análise de vária etnias do mundo e o seu comportamento mítico, legal e económico, o seu discípulo Georges Devereux para os Mohave Norte americanos, aos mediados do Século XX, o Húngaro Gézha Róheim sobre Austrália e o Sul-Africano Britânico Meyer Forte, sobre os Ashante da Antiga Costa de Ouro, hoje Ghana, de descendência uni linear – matrimónio entre cruzado entre filhos de irmãos: o primo com a prima; e Margaret Mead em Samoa, especialmente sobre o povo Arapesh, cujas mães procuram mulher para os seus filhos. Website http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Meyer+Fortes+Ashanti&spell=1 Pais todos cuja realidade heterogénea é procurar a reprodução da linhagem dentro das normas culturais. Se uma prima Tallensi da Antiga Costa de Ouro - hoje Ghana - tem o dobro da idade do primo filho de irmã, o matrimónio, combinado por linhas de parentesco por mandato da cultura, realiza-se  e o adultério passa a ser  proibido para proteger a mulher mais velha, apesar de acontecer com certa cumplicidade parental masculina.

 

[3] Referido no Capítulo I e parte do II.

 

[4] Godelier, Maurice, 1981 : La production des Grandes Hommes, Fayard, II Parte, paginas119 a 253.

 

[5] Robertson Smith, William, 1929, The religion of the semites, entre outros. Website  http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=William+Robertson-Smith+The+religion+of+the+Semites&btnG=Pesquisar&meta=

 

[6] Wojtila, Catecismo da Igreja Católica, 1992, artigos 2197 e seguintes: O [§4]quarto mandamento encabeça a segunda tábua. Indica ordem da caridade. Deus quis que, depois dele mesmo, honrássemos nossos pais, a quem devemos a vida e que nos transmitiram o conhecimento de Deus. Devemos honrar e respeitar todos aqueles que Deus, para o nosso bem, revestiu de sua autoridade. Web site  http://angelgireh.tripod.com/tp07.html

  

[7] Malinowski, Bronislaw, obra referida, volume II, páginas 123 e seguintes, analise que inclui o incesto como aberração web site e texto http://www..uqac.uquebec.ca/zone30/Classiques_des_sciences_sociales/classiques/malinowski/vie_sexuelle_2.doc . O autor afirma que a relação homossexual é platónica, a denomina pulsão e autorizada pelo costume. A única aberração sexual punida com separação, evitar encontros e pronunciar o nome, é para relações incestuosas e quem deve tratar do assunto é a mãe que, eventualmente, pode receber a filha de volta em casa. O homem não tem punição, excepto a reprimenda do chefe da tribo e ser banido da área onde o facto aconteceu. Apesar de analisar estes factos no Capítulo 3, não podia deixar de insistir na realidade dos pais, neste caso, da mãe e do seu irmão. A regra que orienta o comportamento é: “un caverne, une ligne, un sous-clan”, página 140, # 4 do texto Net. Bem como existe uma outra prova do incesto: larvas no corpo da pessoa defunta, facto que os ascendentes e descendentes não podem ocultar. Donde, a exogamia ser um tabu absoluto. No entanto, as denominadas Aberrações são apenas comportamentos fora da regra cultural, reprimidos pelos ancestrais e os mais velhos, mas sem maior punição nem associados a doenças psicopatas, como analisa Freud em 1905 http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Freud+The+sexual+

aberrations&btnG=Pesquisar&meta= A sua explicação é que o ser humano tem a tendência a procurar o prazer da sua libido nas formas “invertidas” de agir, na bissexualidade, no incesto, masturbação e outras actividades libidinosas eróticas, que ele denomina como sexualidade não amadurecida, ideias retiradas do Tora, a sua Bíblia. Estas ideias levaram Freud a acrescentar uma nota em 1910, para condenar de vez as ditas aberrações, quer na Europa como sítio, quer no ser humano: “Deviation in Respect of the Sexual Aim” que define como “the normal sexual aim is regarded as being the union of the genitals in the act known as copulation...a satisfaction analogous to the sating of hunger” e a nota a este parágrafo de 1910: The most striking distinction between the erotic life of antiquity and our own no doubt lies in the fact that the ancient laid the stress upon the instinct itself , whereas we emphasize the object...we despise the instinctual activity in itself, and find excuses for it only in the merits of the object”, retuirado da versão inglesa original, página 61, Penguin, Londres. Website  flash.lakeheadu.ca/~engl4904/freud.htm   

 

publicado por João Machado às 14:00
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