Quarta-feira, 1 de Junho de 2011

LIÇÕES DE ETNOPSICOLOGIA DA INFÂNCIA - prelecção e agradecimentos, por Raúl Iturra

Por lapso, cuja responsabilidade cabe totalmente ao responsável pela secção VerbArte, ontem publicámos a primeira lição do Prof. Doutor Raúl Iturra, quando devia ter sido antecedida da prelecção e da introdução. Hoje publicamos a prelecção, e continuaremos na ordem devida. Ao Prof. Raúl Iturra, aos nossos colaboradores e leitores, apresento o meu pedido de desculpas.

 

 

Para a minha neta May Malen,

filha de Felix e Camila Isley (nascida Iturra-González )

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

May Malen, Natal 2010, veste Kilt escocês, oferta Grand Pa, ou o Avô em Português, Abuelo en Castelhano, donde diz-me Lelo em inglês.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

http://www.youtube.com/watch?v=_mVW8tgGY_w

 

Beethoven Für Elise Bagatela em lá menor

 

PRELECÇÃO E AGRADECIMENTOS

 

Longe de mim imaginar que as crianças procuravam ou viviam uma intensa libido erótica entre os quatro meses de concepção e quatro anos, quatro anos e meio de idade, como define Wilfred Bion no seu texto de 1966, citado mais à frente. Ainda mais longe das minhas ideias e sentimentos, que esse ser fosse criança até essa idade, em que adquire a capacidade de desenvolver o entendimento do real: começa a desenvolver esse entendimento. Orientado pelas ideias da cultura social, pensava que o bebé no ventre da mãe mexia por ser parte da sua fisiologia.

 

A mãe da minha descendência costumava dizer: “anda cá, apalpa, está a mexer...” e, cheio de orgulho e felicidade, beijava a barriga e, evidentemente, com paixão e desejo e com esse profundo carinho que até ao dia de hoje sobrevive no amor e cuidado que dedicamos aos nossos netos, comia com beijos e abraços a minha mulher. Como dizem os Terapeutas não Antropólogos: o bebé nasce no olhar de dois namorados, frase citada e contextualizada no presente texto. Andava como os putos babados, a contar esta linda história aos que me suportavam quer as palavras, quer o nunca parar de dizer o mesmo. Adulto já para tanta brincadeira, a minha próxima paternidade era a minha delícia, a da minha mulher eram as caixas de rosas vermelhas e chocolates com leite. Os beijos para a minha mulher até a hostilizavam: “deixe-me em paz....” E eu, pretenso bom pai, não a queria provocar e largava-a. Escrevia extensos textos, preparava imensas aulas, tratava de todos os casos do meu Gabinete de Advogado desses tempos...com uma imensa distracção porque, a criança que estava no ventre da minha mulher, estava a invadir a minha cabeça a e preencher toda a minha aprendizagem sócio cultural de macho. Adorava quando íamos à rua passear apenas os dois, eu a abraçar, a segurar e a exibir a barriga da minha mulher, que eu tinha ajudado a encher e, tanto quanto possível acariciar em frente de todo o grupo social, o querido volume da feminilidade da minha paixão, essa mulher que me tinha cativado e levado a não parar até fazermos esse, para mim de certeza, filho.

 

 

Proibido tricotar cor-de-rosa, proibido pensar em nomes de rapariga, não tolerava mencionar nomes femininos para esse nosso primeiro descendente, feito no meio de um terrível ataque de paixão.

 

Grande déspota, este pai. Muito direito, muita culturas de outras sociedades, muito trabalho de campo…, na mais absoluta ignorância de que os saltos dentro do ventre eram a resposta zangada do meu sonhado rapaz, que defendia o que eu não sabia: a sua paz, a calma, a tranquilidade dentro da mãe, o alimento amniótico, alimento umbilical, a zangar-se com uma outra química que lhe tirava a comida quando eu entrava na mãe, a tentar por todos os meios possuir por completo a base da sua vida: o quente, flutuante, calmo e silencioso ninho no qual morava, nesse curto espaço de tempo. Grande déspota a mãe, ao defender a criança de qualquer perigo externo e, por vezes por, o marido, ainda não pai, de parte, pela dificuldade de ser grávida e conjugue.

 

E...no entanto, nem ela, nem eu, nem os avós pensávamos estar a travar-se uma batalha entre as ilusões do amor progenitor e a falta de afectividade do futuro adulto. Ou a afectividade dividida mais tarde entre o homem de casa se fosse rapaz, ou a mulher, se fosse rapariga: os ciúmes nasceram com o primeiro pranto de respiração no dia do parto.

 

Tinha que ser este médico de Viena de Áustria-Hungria, a advertir-nos, em 1905, do Eros e Thanatos, a existirem na mais pequena das moléculas humanas do nosso grupo. Os calafrios que causara entre os australianos, e no resto do mundo da época, entre os entendidos e mais ainda entre os não entendidos e até aos dias de hoje. Que a criança procura satisfazer o seu erotismo ao brincar com os seus genitais ou ao procurar o dos seus adultos? Que ser amamentado é parte do comer e da libido com orgasmo? Que o pénis erecto do pai passa a ser o brinquedo a seguir ao abandono das mamas? Que, se não é evitada, a pedofilia sem ritual acontece, como a pedofilia ritual de outras etnias não europeias?

 

Que a criança brinca com a sexualidade própria e dos outros ao ser comandado pela fisiologia, que imensas vezes as pessoas adultas berram e punem porque o pequeno agarra o seu corpo e, mal pode, os genitais dos seus adultos? O que é tanto beijo e a emotividade sã, querida, normal, dentro da libido que esse futuro adulto traz consigo ao nascer, tal como amígdalas, apêndice, emotividade e profundos sentimentos de se colar ao pé dos seus íntimos? Não é para ser defendido de qualquer espécie de perigo, é porque essa emotividade é a que divide o mundo entre os meus e os outros, os que me amam sem dúvida nenhuma porque, eu os desejo, e os que não conheço e não sei se serão interessantes. Nos seus textos escritos em húngaro, denominados Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, Freud relata, analisa, prova, pela primeira vez, o processo de desenvolvimento do instinto sexual do ser humano desde a infância até a vida adulta. Texto que, até ao dia de hoje é a base do entendimento da nossa interacção e da nossa empatia simpática ou antipática. Texto, que foi desenvolvido nos por ele denominados “textos profanos” – para contrariar a ideia de que toda doença psicológica, nervosa, ou dos sentimentos era resultado de castigo divino. É a sua análise de 1913: Totem and taboo. Resemblances between the Psychic Lives of Savages and Neurotics, a forma de observar num livro as análises feitas no terreno sobre as psiques de Java (Kraepelin, em finais de 1700, Johan Jakob Bachofen na sua análises do denominado Direito Materno em 1863, James George Frazer e o seu estudo sobre mito, tabu, rito e religião na actividade mental em 1890, Ernest Jones e a sua disputa ou debate com Bronislaw Malinowski sobre exogamia e Édipo, orientam as analises de Freud para o temor ao incesto que tem existido entre os grupos sociais não europeus e as proibições religiosas e civis na Europa, que conduzem à análise e organização com Jean Charcot do denominado Complexo de Édipo em 1885. No entanto, o seu ensaio de 1914 sobre Narcisismo, o de 1915 sobre as vicissitudes do instinto, conseguem desenvolver e colocar lentamente o erotismo infantil, dentro de formas analíticas psicológicas, que ele próprio emprega numa criança denominada sempre Fritz – o seu filho Hans morto aos 4 anos – e Melanie Klein durante dois anos de psicanálise de Richard entre os três e 5 anos de idade. Todos estes ensaios – e não há outros, porque Françoise Dolto analisa o resultado das ideias religiosas no comportamento das crianças e Alice Miller foge de modelos e usa teoria e factos históricos, não o inconsciente nem a História Religiosa Universal (Freud o primeiro, Bion o segundo) ao explicar as condutas perversas de Hitler, Mussolini, ou o ultrapassar de depressões problemáticas em Pablo Picasso, Buster Keaton. Estes e o primeiro ensaio de 1905 de Freud, estão, hoje na ribalta, por causa de um jornalismo pobre que possuímos e que orienta a sua pesquisa para o que mais dói aos europeus: o comércio de crianças ou a sua prostituição, como tenho referido por extenso em livros e textos. No entanto, entre os comportamentos que no Século XIX se denominavam “aberrações sexuais”, existem alguns que têm passado a ser considerados comportamentos íntimos permitidos, poucos punidos e rejeitados como crimes entre nós, enquanto são ritos de iniciação à sexualidade entre não europeus, como o ritual pedófilo Baruya da Nova Guiné analisado por Maurice Godelier, 1981, Fayard, Paris; ou estudado por Malinowski entre os Masim do arquipélago da Kiriwina,: Sex and repression in savage society, 1927, Routledge and Kegan Paul, Londres;  por David Herdt entre os Sambia da Oceânia: The Sambia. Ritual and gender in New Guinea, 1987, Holt, Rinehart and Wiston, Nova Iorque;  e o clã Picunche que fazem parte do meu estudo entre os Mapuche  da Cordilheira  dlos Andes. Freud baseia as suas análises nas etnografias e estudos etnológicos e semióticos de James Frazer e Johann Bachofen especialmente as ideias existentes sobre o denominado Mito de Édipo e o de Electra. A Pedofilia, a Homossexualidade masculina e feminina – hoje admitida como uma nova forma matrimonial, a Masturbação retirada da lista das aberrações e dos denominados pecados pelos grupos religiosos e das ideias de fraqueza mental de muitos membros de população europeia, enquanto é um rito de inseminação, público e colectivo, em grupos sociais estudados pelos Antropólogos. Até que em 1927 e 1930, defende em dois textos: Psicanálise e medicina de 1927 e O Mal-estar na Civilização de 1930, traduzido ao português pela editora Relógio d’Agua, 2008 possibilidade de pessoas eruditas que saibam, entendam emoções, aprendam a ouvir, poderem actuar como clínicos da mente, sem necessidade de serem médicos. Muitos discípulos de Freud e Klein agiram assim. Bion era médico, mas estudou o contexto do ser humano, para entender as partes psicopatas que todos temos e as partes de inteligência É o que acontece com Georges Devereux, húngaro-franco-norteamericano, discípulo de outro húngaro, Gezra Röheim e do revolucionário francês Marcel Mauss, o próprio Marcel Mauss, Robert Hertz, Émile Durkheim, todos eles a contribuir juntamente com a teoria de Wundt, Tönnies e Marx, para a mudança no tratamento das crianças. É o que temos denominado Etnopsicologia e me orgulho de praticar, com duas colaboradoras que menciono no fim destas páginas. O próprio Freud usa o contexto para explicar a mente que sofre, a origem do seu sofrimento e, se for possível, mudar. Num texto de 1925, consagrado à educação, Freud propõe acabar com o método repressivo, normalmente utilizado para “civilizar” os “pequenos homens”. O que procura é o método de ensinar comportamento conforme os tempos e grupo social, no entanto fica um problema: o que fazer com as pulsões anti-sociais que todo ser humano tem? Reprimir ou sublimar? Ou se age de forma violenta para acabar com elas, ou orientar – as pulsões anti-sociais – para formas valorizadas e acolhidas pela vida social. É esta segunda parte que interessa a Freud que desenvolve toda uma teoria de orientar comportamentos infantis através do ensinar aos adultos a doçura e paciência que se deve ter para orientar o comportamento infantil para pulsões sociais aceitáveis. O problema está em quais são aceitáveis, qual o grupo social, qual o século, o ano ou o tempo do qual falamos. De facto, não há nem tempo nem espaço para falar da teoria da educação de Freud, que devo tratar no meu próximo livro. Mas, pelo menos –  desculpe o leitor -  uma síntese do que pensava sobre as pulsões, travar e dinamizar: «Une violente répression d'instincts puissants exercée de l'extérieur n'apporte jamais pour résultat l'extinction ou la domination de ceux-ci, mais occasionne un refoulement qui installe la propension à entrer ultérieurement dans la névrose. La psychanalyse a souvent eu l'occasion d'apprendre à quel point la sévérité indubitablement sans discernement de l'éducation participe à la production de la maladie nerveuse, ou au prix de quel préjudice de la capacité d'agir et de la capacité de jouir la normalité exigée est acquise. Elle peut aussi enseigner quelle précieuse contribution à la formation du caractère fournissent ces instincts asociaux et pervers de l'enfant, s'ils ne sont pas soumis au refoulement, mais sont écartés par le processus dénommé sublimation de leurs buts primitifs vers des buts plus précieux. Nos meilleures vertus sont nées comme formations réactionnelles et sublimations sur l'humus de nos plus mauvaises dispositions. L'éducation devrait se garder soigneusement de combler ces sources de forces fécondes et se borner à favoriser les processus par lesquels ces énergies sont conduites vers le bon chemin. "Qui n'a jamais subi les brimades parentales s’exprimant sous la forme d’un catégorique "ne fais pas ça" accompagné, pour tout justificatif, d’un laconique " ce n'est pas bien " ? Cette conduite, parfaitement compréhensible - les parents veulent protéger leurs enfants - est loin, cependant, de recevoir l’approbation de Sigmund Freud, qui doute que la répression de toute pulsion infantile soit bénéfique aux futurs adultes qu’elle est pourtant sensée aider à se construire »[1] 


Esta seria a síntese das lições sobre a educação de crianças, no caminho de Freud e dos seus discípulos. Do que trata esta teoria, elo central de toda teoria analítica na nossa sociedade, é da necessidade de combinar as chamadas de atenção sobre o comportamento e as permissividades, desde que os adultos saibam agir ao pé da emotividade coordenada pela razão e não apenas pelas suas conveniências, ou por causa delas. O que os adultos querem é manter uma certa paz quer para que eles entendam, ou para que a criança se torne num adulto sóbrio, calmo e conhecedor, no seu dia de autonomia. Nada mais digo neste parágrafo, deve passar a ser outro livro, de Durkheim a Cyrulnik...

 

É desta temática, não organizada nas salas de clínica, que falo neste livro, fruto de uma longa conversa com a minha orientada e amiga Angélica Espada nos Seminários de Doutoramento no nosso Departamento de Antropologia do ISCTE, em debate com todo o Seminário, e com a imensa, incrível, até sacrificada colaboração da minha discente do ano anterior 2003-2004, Idalina Alves Lopes, futura membro do meu Seminário de Doutoramento em Etnopsicologia da Infância. Idalina aprendeu teoria e factos, fixou o meu português e corrigiu várias das ideias defendidas por mim, defendidas de forma ou pouco claras ou enganadas. Sem elas, este livro não estaria escrito. Três anos de trabalho meu, 20 anos de trabalho de campo, textos sobre a matéria citados no livro e três meses de revisão de todo o texto por Idalina Alves Lopes. Devo a Idalina, praticamente, a feitura do livro, a Angélica as ideias e ao meu discípulo, amigo e orientado para o doutoramento, José Manuel Filipe, uma profunda revisão das ideias. Ele queria mais, mas há limites.

 

A minha observação desta temática é muito complexa e delicada. Como digo no livro do O Saber Sexual das crianças, tenho tido que me comportar como uma árvore que vê, ouve, cala e responde apenas quando perguntado. E manipular a minha própria ética para não intervir na proibição de factos que, na minha própria cultura, são delitos. Usar os poucos Antropólogos que estudaram a sexualidade das crianças, invocados no livro, e “agarrar-me” a Freud, Charcot, Bion, Melanie Klein, Françoise Dolto e, especialmente à minha interlocutora, Alice Miller. Daniel Sampaio tem sido um excelente crítico ao escrever na Net o que pensa daquilo que eu estudo e Idalina, a mais feroz censora para me dar a entender estas lides. Os membros do meu Seminário de Etnopsicologia da Infância na Licenciatura do ISCTE, ou têm apoiado, os mais novos; ou proporcionado ajuda e ideias com os seus sentimentos do que é escândalo, os mais perto da minha geração.

 

Como diz Victor Hugo, o livro não é meu, é do povo. Assinei, com Jean Marie Tremblay da Universidade de Quebec, a acta que retira os direitos de autor. O meu amigo, editor e grande animador para esta temática, o Analista João Cabral Fernandes, deve saber o que fazer...

 

Quanto a mim, com Idalina e Angélica, as minha colaboradoras...vamos continuar como companheiros de rota dentro desta temática da qual apenas a prensa fala, com grande escândalo...e sem soluções.

 

Obrigado a todos pelo empurrão à análise destas ideias, especialmente a pioneira Angélica Espada e a agora, profunda conhecedora, Idalina Alves Lopes que, enquanto fixava o meu livro, lia, aprendia mais do que eu tinha ensinado, incrementou o meu saber e soube corrigir os enganos de entendimento teórico. Devo-lhes uma parte imensa do texto...especialmente o ânimo e espírito para não travar a escrita e a pesquisa que o apoia.

 

Raúl Iturra

Natal de 2004

Reeditado Maio 16-2011



 

publicado por João Machado às 14:00

editado por Luis Moreira às 14:18
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