Terça-feira, 31 de Maio de 2011

A eterna questão do livro – 8 - por Carlos Loures

 

 

 

 

 

(continuação)

 

 

 

Ao passar em revista, da forma atrabiliária a que (espero) já estejam habituados, os problemas que afectam o sector livreiro, não podia deixar de me referir aos problemas da tradução. No mundo mágico da criação literária, onde acontecem prodígios como a «Eneida», o «D. Quixote de la Mancha», o «Hamlet» ou a «Guerra e Paz», movem-se, como invisíveis duendes, os tradutores que, «à force de reins et de sueur», como disse Gustave Flaubert, conseguiram que muitos milhares de milhões de leitores fossem ao longo das gerações conhecendo a Ilíada, Dante, Cervantes, Tolstoi, Kafka, o que não é proeza pequena, se nos lembrarmos que é cometida por gnomos invisíveis, pois tal como acontece com os árbitros de futebol, o melhor que pode
acontecer a um tradutor é passar despercebido. Quanto melhor tiver feito o seu trabalho, menos dará o leitor pela sua intervenção. A tradução ideal seria como um vidro transparente e limpo, através do qual se pudesse ler o original, mas na língua de chegada. Um vidro que não distorcesse as imagens. Que não se visse.


Porém, há distorções com consequências de uma grande importância.

 

Segundo diz Roger Martin du Gard, em O Drama de Jean Barois, a virgindade de Maria teve origem no erro de um tradutor, um obscuro monge, ao traduzir o Novo Testamento do grego para o latim, confundiu a palavra jovem com virgem. E aí temos um dos maiores imbróglios da liturgia católica, o culto mariano…O monge errou, mas soadas as Completas terá ido comer o seu caldo, o seu naco de pão, deixando a Roma o trabalho de explicar como «se pode conceber sem pecado». O que não deve ter sido fácil.

 

O tradutor é um dos mais apagados intervenientes no processo de construção de um livro, mas da qualidade do seu trabalho, depende a qualidade do livro. Na maioria dos casos, a tradução empobrece o texto original. Há casos, porém, como na tradução que Blaise Cendrars fez de «A Selva», de Ferreira de Castro, ou a que Jorge Luis Borges fez de «The Wild Palms», de William Faulkner. Que são exemplos em que o vidro que se interpõe entre a língua de partida e a de chegada não está limpo nem sujo, mas sim esmerilado pelo estilo genial dos tradutores. No caso da tradução de «A Selva», com a sua ironia cáustica, Almada Negreiros, aludindo ao estilo rude e primário dos primeiros livros de Ferreira de Castro, dizia que o ideal teria sido pegar na tradução em francês, feita por Cendrars, arranjar um bom tradutor e verter então a obra para português. Gabriel García Márquez foi ao ponto de declarar que a versão inglesa de «Cien años de soledad», feita por Gregory Rabassa, ultrapassa a sua obra em qualidade literária. Tradutor, traidor, como diz o famoso aforismo italiano: estaremos nestes casos, como o de Cendrars ou o de Rabassa, perante boas obras literárias, mas más traduções, ou apenas em face de excelentes traições?

 

Sou um leitor compulsivo e tenho sido, ao longo da minha vida profissional, tradutor compulso – isto é, numa certa fase da minha vida, compelido pela necessidade de ganhar a vida, e noutra compulsado pelas circunstâncias – as mais de as vezes por ser necessário executar o trabalho com urgência e não haver ninguém à mão capaz de o fazer dentro do prazo exigido. Como leitor sofro muito com as más traduções, com as trapaças, com a falta de brio profissional; como tradutor, sofro com a perpétua e justificada desconfiança do meu saber. Mesmo quando se trata de um vocábulo estrangeiro milhares de vezes por mim usado, vou sempre verificar se não haverá qualquer acepção menos vulgar que me tenha escapado.

 

Continuarei a falar de tradução no próximo artigo.

 

(Continua)

publicado por Carlos Loures às 21:00
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