Sábado, 11 de Junho de 2011

Um Novo Coração 19 - Sílvio Castro

Sílvio Castro  Um Novo Coração

 

 

Capítulo 19

 

 

 

Depois da operação todos os esforços, não somente os meus, mas também os dos médicos, dos enfermeiros e enfermeiras, os de Anna Rosa, se dirigem a uma imediata, visível recuperação da minha normalidade. Normalidade significa conviver com a maior consciência possível das coisas, recuperar os gestos quotidianos, reentrar nos lugares da frequentação constante, restabelecer o diálogo sempre existido com a gente, os amigos e os simples conhecidos, rever os meus dois gatos, Mino e Billi, conversar com eles como sempre fazemos, acariciá-los, procurando olhar o mundo com a mesma imensidade do olhar que eles empregam para ver o invisível. Normalidade é tudo isso e mais conquistar um bem-estar físico, superar a dor. A dor é aquela sombra que inebria o sentimento da vida, muitas vezes a engana. Sutilmente muda de estação a estação, de quadra a quadra, nas intermitentes intensidades de suas agressões. Depois da absurda passagem em que consegue quase sempre encobrir a própria realidade para projetar com prepotência um espaço todo seu, reentra em si mesma, se faz quase doce em comparação com a ação precedente, procura o engano na difusa sensação do restabelecimento da normalidade que em verdade é ainda dor. A dor falseia a normalidade, mesmo quando se apresenta como se fosse ausente, mas quem a vive sabe que ela está por detrás das sutís aparências.

 

A dor do corpo é vária nas diversas formas de sua fisicidade; ainda mais dor quando se transforma numa centopéia lenta e voraz que assalta o pensamento da existência agredida.

 

A vontade se opõe à dor, mas é preciso estar atento para que a força dessa vontade não se sacie na simples oposição. Estou para saciar-me; mas, de repente, recobro vigor e volto a lutar contra qualquer forma de sonolência que não atinja a verdade absoluta do sono vigilante, no qual sonho. Sonho principalmente o que desejo sonhar, não o que me impõe a dor.

 

Sonho

 

uma vez, num grande castelo circundado por fossos profundos, no qual vivia um Senhor com sua Senhora, ele passou a demonstrar uma tristeza que não era sua. Não mais dava atenção, como sempre fizera, às necessidades e bem-estar de seus castelões, nem procurava os belíssimos três filhos para os jogos de todos os dias, até mesmo mudara de comportamento com a sua Senhora. Esta lhe disse então: já não me amas? O Senhor não sabia como responder-lhe, porque até ele mesmo não sabia dizer o que se passava no mais profundo de seus sentimentos.

 

O Senhor entristecido passava os dias a contemplar do alto da mais alta torre de seu castelo o infinito da planície descortinado por seu olhar perdido. Nada via além do horizonte e continuava a procurá-lo, esse indistinto desejo que lhe parecia no profundo de seu coração uma certeza.

 

Não mais suportando a incerteza em que vivia, num amanhecer indefinido o Senhor deixou  solitário o seu castelo e partiu para a procura daquilo que ele desejava, mas que não sabia o que fosse. Muito caminhou e por muito tempo, passando por castelos, campos e cidades. Era tanto o seu caminhar e a sua incerteza insatisfeita que ele já quase não reconhecia aquela imagem dele refletida quando se debruçava nas águas das fontes para abeberar-se e refrescar-se das longas caminhadas.

 

Um dia, entrando numa cidade de muitas belezas, foi atraído por um feira festiva, colorida, cheia de gente e de coisas. Sentia-se bem naquela feira, caminhava por ela contemplando e admirando tudo quanto ali era exposto. Foi quando viu, em meio à gente, uma jovem de esplendorosa beleza. Foi para ela e lhe falou de seu amor repentino, da certeza que procurava desde há muito. Ela o escutava e ia sempre adiante. Ele lhe falava e ela o escutava e ia sempre adiante. Assim foi por muito tempo e o homem já não sabia se aquela certeza era sua ou se lhe escapava sempre e para adiante e para longe. Foi então que tudo se consumou quando seus olhos não mais viram a jovem da beleza esplendorosa.

 

Mais que infeliz, entristecido nos dias e nas noites, o homem retomou a sua estrada. Caminhou muito de volta, passando por cidades, campos e castelos a ele invisíveis, até que num certo entardecer de cores lúcidas seus olhos surpreendidos descortinaram no horizonte as altas torres de seu antigo castelo.

publicado por Augusta Clara às 22:00
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