Sílvio Castro Um Novo Coração
Capítulo 8
Caminhando com constância pelos corredores da Cardiologia eu desejava antes de tudo manter-me em forma, com as minhas pernas nas melhores condições possíveis. Para elas sempre desejei a preservação das forças musculares conquistadas nas partidas de futebol que quase viram nascer um craque, como muitos afirmaram em tantas e diversas circunstâncias, começando quando o garoto tinha apenas nove anos e jogava nos gramados livres de Laranjeiras, era um garotinho magro, grandes olhos sempre espantados como os da mãe, pernas curtas, mas muito corajosas. Depois, essas pernas se fizeram fonte de dezenas, centenas de gols, segura ele, não deixa ele virar! mas ele, incontrolável, virava como um pião colorido e alegre, e era gol. Mais tarde, as pernas reforçadas, o rapazinho que ganhava algum corpo, o tronco alargado e os pés que funcionavam ambidestros como mãos-martelos de toque forte, metia medo quando cobrava faus, mesmo de longe 20, 30 metros.
Quando eu caminhava pelos corredores não rememorava as inconclusas glórias futebolísticas, mas vivia o meu estar naquele mundo quase novo para mim e dele queria participar como uma nova forma de meu conhecimento íntimo. Caminhando, via os meus companheiros de internação e muitas vezes me descobria em facetas novas, comparando-me inadivertidamente com eles em vista de seus estados. Então me surpreendia em reconhecer uma egoística satisfação pelo meu poder de caminhar, satisfação que me subia do peito aos olhos, vendo quem estava sempre imobilizado na própria cama e me olhava incrédulo a cada minha volta pela sua porta. Depois me envergonhava de meu sentimento que mais que um sentir profundo era um divagar diante do mistério de um estado que até então não fora meu. Quase como um ato de compensação, logo depois eu redobrava a minha atenção pedida pela velha e sempre cansada senhora do quarto nº 6 que não sabia acender a televisão da sala-de-estar, o “soggiorno”. Ela sabia que eu manobrava bem a televisão, pois muitas vezes se sentara ao meu lado para assistir aos programas que eu escolhia sem que ela dissesse nada. Mas a velha senhora não percebera ainda depois de tanto tempo que o aparelho estava muito gasto e não funcionava bem. Ela insistia em usar o controle-remoto e nada. O senhor pode acender a televisão para mim? Claro que posso, mas o controle-remoto não funciona, precisa acender diretamente e sintonizar os canais manualmente. A velha senhora não tinha forças nem mesmo para me agradecer, enquanto silenciosa sentava-se de lado, um pouco distante de mim. A senhora quer ver algum programa especial? Não, não importa, importante é que a televisão esteja acesa; eu vejo o que o senhor escolher. Certamente eu me sentia menos egoista tendo preparado a televisão para a velha senhora, sempre calada diante das imagens que muitas vezes passavam das cores já quase perdidas para o branco-e-preto. Menos egoista, mas quando a voz estrindente de Giorgetto vinda do corredor anunciava o jantar, passando com a carrocinha dos manjares que deveriam reequilibrar os meus recônditos sentimentos, eu me levantava e saía da sala-de-estar sem nada dizer à velha senhora; olá, Giorgetto, o que é que temos hoje?
(continua)

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