Sábado, 31 de Julho de 2010

A liquidez do sistema financeiro internacional depende da droga

Carlos Loures

Há dias, falando com amigos, um deles disse uma coisa que me deixou a pensar - «Já repararam que quase não se fala de droga?» É verdade. A droga passou a ser falada apenas quando são apreendidas grandes quantidades. A droga que se consome deixou, aparentemente, de ser um problema – entrou na “normalidade”. Talvez este clima de normalidade em torno de algo de tão anormal, queira dizer mais do que parece. E não é preciso enveredar pela teoria da conspiração.

Há meses, em entrevista ao diário britânico «Observer», do italiano Antonio Maria Costa, máximo responsável na ONU pelo combate ao crime e ao tráfico de droga, garantiu que o sistema financeiro internacional se salvou do colapso total devido a dinheiro proveniente do tráfico de droga - «Os empréstimos interbancários foram financiados por dinheiro vindo do tráfico de droga e de outras actividades ilegais» (…)«Em muitos casos, o dinheiro da droga era a única liquidez disponível. Na segunda metade de 2008, a falta de liquidez era o maior problema do sistema bancário. Ter liquidez em capital, tornou-se num importantíssimo factor».

Segundo os cálculos deste alto responsável da ONU, o mundo do crime disponibilizou 240 mil milhões de euros para repor a liquidez do sistema financeiro internacional. «Há alguns sinais de que alguns bancos foram salvos desta maneira». Acrescentou que este dinheiro de proveniência criminosa faz agora parte do sistema, «pois já foi lavado». Os mercados do Reino Unido, Suíça, Itália e Estados Unidos, foram segundo o dirigente internacional da luta contra o tráfico, os mais utilizados na lavagem deste dinheiro proveniente do tráfico.

Em Outubro do ano passado Antonio Maria Costa alertara já para o efeito devastador do ópio afegão nas sociedades ocidentais. 92% da heroína traficada pelas máfias mundiais é produzida pela papoila daquele país. 100 mil pessoas (jovens na sua maioria), morrem por ano devido ao consumo dessa droga, mais do que qualquer outra, e muito mais do que as baixas sofridas na guerra. Este tráfico movimenta cerca de 45 mil milhões de euros por ano, sendo a maior fonte de financiamento do terrorismo internacional. «O catálogo dos horrores produzidos pelos narcóticos afegãos é grotesco», diz Costa, que afirmou que, só nos países membros da OTAN que intervêm no Afeganistão, morrem 10 mil pessoas por ano, cinco vezes mais do que a soma das baixas militares em oito anos de guerra.

O ópio afegão é utilizado como moeda de troca para obter armas que as milícias utilizam contra as tropas instaladas no país - «A implicação directa dos talibãs no tráfico de ópio, permite-lhes financiar uma máquina de guerra cada vez mais ampla e sofisticada», explicou este alto funcionário da ONU. Calcula-se que os talibãs obtenham com o ópio cerca de 106 milhões de euros.

A fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão é actualmente «a maior zona de comércio livre do mundo da droga, armas, dinheiro sujo e seres humanos», concluiu. A ONU afirma que só consegue interceptar 20% do ópio afegão, sendo a maior parte apreendida no Irão. Menos de 2% é confiscado antes de sair do país.

Um negócio e tanto.

Talvez à luz destas realidades, se compreenda mehor por que razão a droga quase deixou de ser notícia. É uma coisa tão normal, não acham?
publicado por Carlos Loures às 23:30
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2 comentários:
De Luis Moreira a 31 de Julho de 2010
E assim vão destruindo a civilização ocidental que tanto odeiam, ao mesmo tempo que se enchem de dinheiro.O livre comércio, derrube das fronteiras, livre circulação de pessoas e bens, tudo políticas muito generosas mas que se voltam contra nós.Há quem não queira ver. Até as nossas fábricas nos estão a ser roubadas.
De maria monteiro a 1 de Agosto de 2010
as drogas rendem mais do que o petróleo. Servem de moeda de troca para muitos países. Como é um dos produtos mais lucrativos a nível mundial é necessário que cada vez mais jovens a consumam.... A luta contra a droga é uma actividade que vai contra os interesses de muitos grupos económicos e não só.

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