Quarta-feira, 18 de Maio de 2011

A mulher que amanha o peixe - Adão Cruz

 

Adão Cruz  A mulher que amanha o peixe

 

(ilustração de Adão Cruz)

 

 

 

Sempre que a vejo no supermercado onde vou reconheço que não é por acaso.

 

Muito bonita a mulher que amanha o peixe (não sei se amanha se amanhece!).

 

Rosto combatido dorido olhar sofrido e manso não sei o que faz desta mulher um poema se os olhos negros e fundos se o desenho rasgado da face se um gesto brusco da natureza revoltada de cansaço.

 

Um vale profundo entre o cá e o lá banca de peixe mar imenso mar morto do outro lado um peixe vivo no céu tocando o mar estripando com mãos invisíveis entre lágrimas e sangues as entranhas da vida nas elegâncias difíceis dos plásticos cobertos de escamas.

 

Passos molhados encharcados pesados cheirando a algas ondas de tempestade no lindo rosto marcadas pela ânsia de voar.

 

Com tantos apetrechos de borracha botas altas luvas e avental não sou capaz de adivinhar o corpo que tem por baixo nem quero que tal aconteça.

 

A mulher é segredo a mulher é sonho de si mesma no olhar dos outros sonho de ventre liso crescente de imensidão fonte de pão e de leite eternidade e sorriso dança de movimento para além das formas e da imaginação.

 

Trepadeira de vida e de morte olhos que se abrem no céu e repousam no mar mãos de todas as direcções ainda que vestidas de plástico amanhando o peixe.

 

Não sei se é casada ou mãe se é tudo ou nada no reduto escasso do dia-a-dia nem me interessa.

 

Bastam-me os olhos infinitos a boca seca de beijos a dor-desenho dos lábios a doçura-criança que não cresceu por falta de uso tempo e espaço.

 

O corpo desta mulher está na face oculta e sedenta na ânsia fervente do impulso na mais íntima agitação do mundo e da dimensão que pode caber numa banca de peixe.

 

Difícil acertar ideias e olhares quando só olhares fazem ideias...enfeita-se a beleza desta forma estranha criando beleza no amanhar do peixe.

 

Cruel seria descobri-la a dançar pesadamente etérea e volátil nos salões de púrpura da mulher vulgar entre rendas e espumas que não são espuma do mar.

 

Como sempre tenho de dizer até amanhã sou forçado a serenar as ondas a desnavegar meu barco.

 

Muito obrigado.

 

Não tem de quê.

 

Você é das mulheres mais lindas que já vi.

 

Muito amável um exagero...faça o senhor o resto das compras e depois passe por cá.

 

Buscar o peixe...ou voltar a vê-la?

 

Sei lá! 

publicado por Augusta Clara às 19:00
link | favorito
4 comentários:
De Augusta Clara a 18 de Maio de 2011
Ainda bem que voltaste às crónicas do quotidiano porque te saem estas pequenas pérolas.
De ethel feldman a 18 de Maio de 2011
voltar sempre. Voltar, Adão.
De Maria Inês Aguiar a 19 de Maio de 2011
Já estava com saudades de te ler, Adão. Lindíssima a mulher que amanha o peixe, gostei muito. Beijo
De adao cruz a 19 de Maio de 2011
Três beijinhos, um para cada uma.

Comentar post

.Páginas

Página inicial
Editorial

.Carta aberta de Júlio Marques Mota aos líderes parlamentares

Carta aberta

.Dia de Lisboa - 24 horas inteiramente dedicadas à cidade de Lisboa

Dia de Lisboa

.Contacte-nos

estrolabio(at)gmail.com

.últ. comentários

Transcrevi este artigo n'A Viagem dos Argonautas, ...
Sou natural duma aldeia muito perto de sta Maria d...
tudo treta...nem cristovao,nem europeu nenhum desc...
Boa tarde Marcos CruzQuantos números foram editado...
Conheci hackers profissionais além da imaginação h...
Conheci hackers profissionais além da imaginação h...
Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
Eles são um conjunto sofisticado e irrestrito de h...
Esse grupo de gurus cibernéticos ajudou minha famí...

.Livros


sugestão: revista arqa #84/85

.arquivos

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

.links