Quinta-feira, 12 de Maio de 2011

Boat people de hoje -por Daniel Rondeau, embaixador de França em Malta

Boat people de hoje

 

Daniel Rondeau

 

Nomeado embaixador de França em Malta em 2008, Daniel Rondeau viu-se rapidamente confrontado com o afluxo dos imigrantes que chegam aos milhares a esta ilha, porta da Europa. O diplomata sobrevoa as suas embarcações de acaso, informa-se sobre as razões e as condições da sua viagem. É o escritor que nos dá aqui esta “crónica quase diária do sofrimento e do exílio”.

 

Figurinos com a dimensão humana foram instalados em meados de Novembro em face do monumento às mortes de La Valette. Estas estátuas representam os Reis Magos e anunciam o Advento. O negro, com o turbante é Baltazar. A primeira vez que o vi, imediatamente pensei que este Baltazar maltês devia às vezes sentir-se um pouco sozinho. Há poucos africanos nas ruas de Malta, mesmo se me acontece cruzar uma ou duas vezes, à noite, na alta da vila de Floriana, com fantasmas em jeans ou fatos coloridos, escondendo a sua miséria sob risos e com grandes passos.

 

No entanto, durante a bela estação, várias vezes por semana, os diários malteses relatam em primeira página a chegada de embarcações de imigrantes. O dia em que assumi as minhas funções em La Valette, numa Quarta-feira, 23 de Julho de 2008, o Malta Today contava que um barco carregado com 28 homens e 2 mulheres tinha sido interceptado a 6 milhas náuticas da costa de Marsaxlokk e escoltado até um cais próximo do Freeport e que os imigrantes ilegais tinham sido entregues às autoridades policiais.

 

 

Alguns dias depois, o Malta Independant trazia como notícia principal “uma grande fotografia de um barco que transportava 95 passageiros (80 homens e 15 mulheres), localizado pelas forças maltesas a duas milhas náuticas da costa, e escoltado por duas patrulhas, a P-24 e o Melita-1, até Birzebbuga. No mesmo dia, 28 imigrantes (dos quais 2 mulheres) tinham chegado num barco de “fortuna” até aos penhascos de Ghar Lapsi, onde famílias maltesas tentavam escapar ao aperto do calor enfiando-se em piscinas naturais escavadas nas rochas e protegidas do sol por uma caverna aberta num braço de penhasco. Um último exemplo, encontrado no Times de 10 de Setembro de 2008. Uma embarcação de imigrantes tinha-se virado a 72 milhas de Malta.

 

Um helicóptero das forças maltesas tinha colocado salvadores para recuperar em pleno mar sobreviventes e nomeadamente duas crianças já queimadas pelo sal, que foram transportadas urgentemente para o hospital. A embarcação completamente perdida tinha sido assinalada às autoridades maltesas pelos observadores de um Falcon francês que supervisiona a zona no âmbito da operação Frontex. Os salvadores chegaram demasiado tarde para salvar uma mulher, sem dúvida a mãe das crianças, que já tinha perdido a consciência. Morreu antes da chegada de um outro helicóptero. Esta crónica quase diária do sofrimento e do exílio perturba apenas os turistas e os alunos de liceu vindos de toda a Europa para melhorar o seu inglês na ilha de Calypso.

 

O Verão em Malta é colocado sob o signo da luz, dos fogos de artifício e da festa. Um sol impassível, as terras de um pálido seco entre sebes nas rochas, um mar sempre sorridente e ao crepúsculo o regresso da frescura. As noites de Paceville escrevem cada dia um novo capítulo desta “movida” mediterrânica, que celebra, de Barcelona a Djerba, a alegria de existir. Por toda a parte nas praias ou nos clubes nocturnos, os mesmos DJ fazem com que se agitem ao ritmo as mesmas multidões dionisíacas com danças muçulmanas, que partilham uma mesma sede de prazer e de esquecimento, a igual distância entre o passado e o futuro.

 

E é pensando no passado (das ilusões destruídas) e no futuro (das esperanças improváveis) dos boat people africanos que, um mês depois da minha chegada, tomei contacto com a tripulação do Falcon 50 que, com base em Malta, patrulhava acima do mar no âmbito da operação Frontex. A agência europeia Frontex coordena, desde 2004, os responsáveis civis e militares encarregados de reunir informações sobre as redes de imigração e de organizar os meios náuticos e aéreos que supervisionam as fronteiras externas europeias.

 

O tenente Carré propôs-me imediatamente que passasse um dia em voo com a sua tripulação da marinha nacional.

 

Eram cinco, das quais uma mulher, Marie-Odile, o piloto, um co-piloto, dois observadores colocados na frente de uma grande vigia rectangular e um operador de radar, instalado na frente do seu ecrã ao fundo da cabina. Todos vestiam conjuntos kaki e verdes, com um colete de salvamento, e correspondiam entre si por rádio interna. Era a sua sétima missão, tinham assinalado embarcações de imigrantes todos os dias e não estavam descontentes por saber que dois lactentes, alguns dias antes, tinham sido arrancados à morte graças à sua intervenção. “Tem-se a impressão de se ser útil”, tinha-me dito o homem do radar, passando a sua mão pelos seus cabelos brancos. Fiz-lhe notar a ambiguidade da sua missão. Um antigo ministro francês dos Negócios Estrangeiros, muito conhecido pela sua clareza de análise e pelo seu humor frio, não me tinha dito, quando o informei de que ia participar num voo Frontex:

 

“Dir-me-á quantos levou a saltarem dos barcos?” A tripulação do Falcon estava lá para supervisionar as fronteiras europeias, impedir a entrada de imigrantes ilegais ou para os salvar? A resposta do mestre foi imediata: “Somos marinheiros, respeitamos a lei do mar”, diz-me, mostrando-me o seu escudo Maritime Rescue Control Center.

 

“Ordena-nos que se dê assistência a qualquer barco em perigo”.

 

Aquando da descolagem, Malta estava ainda banhada de uma ligeira bruma azul. O tenente Carré assinalou-me por rádio as telas das tendas do campo aberto que acolhe uma parte dos imigrantes clandestinos que alcançaram a margem maltesa, seguidamente e de forma rápida tomámos um pouco de altitude. O mestre mostrou-me no radar a zona que o Falcon iria sobrevoar, fazendo voos sistemáticos de vai e vem entre Malta e os confins das águas territoriais da Líbia. “Vigiamos bandas paralelas. Quando o mar está liso como hoje, nada nos escapa. Uma pequena bóia de pescador, um cardume de peixes à superfície, ou mesmo um saco de plástico, qualquer coisa que flutue deixa um eco sobre o ecrã”.

 

Cada vez que um eco aparecia, o homem do radar assinalava a posição ao posto de pilotagem e descíamos imediatamente a 200 pés acima da água para identificar a sua origem. Durante as primeiras horas, o mar pareceu-me desesperadamente vazio. Nem cargueiros, nem veleiros. Nada de pescadores, também. “As embarcações evitam aproximar-se das águas territoriais líbias, é por isso que há pouco tráfego nesta zona” . Muitos alertas, no entanto.

 

Sacos de plástico, barris vazios que flutuavam à deriva, restos diversos. No radar, eu podia ver as plataformas petrolíferas libanesas, a costa da Tunísia, as de Malta e de Gozo. Pela vigia, a luz alterava-se em cada momento. O espelho do mar passava por todas as gamas de azul. Azul de cerâmica ou céu terno, azul safira, de ardósia, quase malva às vezes, com matizes de verde e amarelo quando nos aproximamos das costas africanas. E no céu, sempre, nem uma nuvem. O piloto anunciou por rádio que bem gostaria de comer uma banana e de beber um chocolate. Era a hora de pausa para café.

 

Acabávamos de virar e começar a nossa segunda faixa de vigilância. Embarcações! Eram apenas pescadores tunisinos, a alguns milhas de Lampedusa. Um deles tinha colocado um pára-sol amarelo no seu barco para se proteger do sol.

 

Passamos ainda entre duas outras embarcações de pesca, seguidamente o mar animou-se. Acabávamos de entrar na zona das tartarugas. Vêem-se algumas à esquerda do aparelho. As suas carapaças captam a luz das ondas. Um tubarão nada à superfície. Não se demora e desaparece entre duas águas sob as asas do avião. Pássaros amedrontados pelo barulho dos reactores partem em estrela a rasar a água. Um pouco mais longe, uma grande lula deriva com um ar de preguiçosa. O mar já não é um deserto.

 

De repente, o avião inicia uma viragem e o piloto grita pelo rádio: “Embarcação afundada à direita”. Marie-Odile fotografa o barco naufragado que parece prisioneiro do mar. Era um barco de imigrantes que se tinha afundado uns dias antes. Alguns tinham podido ser salvos. Mas os outros? O que é que lhes aconteceu? No caso do naufrágio, nunca se sabe com precisão qual o número de desaparecidos. O mar já não era um deserto, mas sim um cemitério. A alguns milhas do barco naufragado passava um veleiro holandês. O piloto entra imediatamente em contacto com o capitão, por rádio. Era bom ouvir uma voz. Cinco minutos ainda, um grito nos nossos capacetes. Thomas, o co-piloto, anuncia uma baleia sobre a esquerda. Demasiado tarde, esta já tinha mergulhado.

 

O operador de radar assinalou um novo eco, e o avião desviou-se ligeiramente para se deslocar sobre a zona. Alguns minutos foram suficientes. Todos os membros da tripulação gritaram ao mesmo tempo apercebendo-se da embarcação: um grande barco de pesca, com uma cabina de madeira pintada de fresco em branco no meio da ponte, que dissimula o acesso ao porão. A embarcação navegava em direcção a Lampedusa. Não tinha matrícula. Sobre a ponte amontoavam-se uns cinquenta africanos, numa incrível desordem, apertados uns contra os outros, frequentemente com a cabeça entre as mãos, alguns caídos sobre a ponte do navio, alguns pendurados sobre o tecto da cabina ao lado de barris azuis, reservas de água ou de combustível. “Devem ser tão numerosos no porão, diz uma voz no meu capacete. Vêm da Líbia e já têm pelo menos trinta horas de mar atrás eles”.

 

A embarcação destacava-se sobre o fundo azul sombrio do mar e avançava sob a abertura das vagas de espuma sob um céu límpido. O céu era tão claro, o mar tão sereno mas não o era naturalmente para esta nuvem de homens matraqueados pelo sol de Setembro, para eles era apenas uma sucessão de abismos. Uma trovoada, uma avaria, e o seu navio insensato, uma antiga embarcação de pesca no limite da sua vida física útil podia tornar-se o seu túmulo.

 

Anteriormente, estas embarcações eram reparadas durante o Inverno e repostas como novas. Hoje, estes barcos frequentemente mal arranjados, susceptíveis de múltiplas avarias, são vendidos a preços de ouro e permitem aos passadores substanciais lucros. Mais passageiros que os barcos pequenos permitem, mais segurança, mais facilidade de reparar entre duas viagens, peças de substituição abundantes em todo o Magrebe, era o necessário. Dito isto, nenhum pescador embarcaria alguma vez num barco em tão mau estado. Giramos à sua volta, a baixa altitude, Marie-Odile tira fotografias que envia imediatamente indicando a posição do navio ao Centro de Controlo e de Investigação em Roma. A maior parte dos passageiros não nos olha. Adormecidos, atingidos pelo calor, doentes talvez. E os que nos olham, não manifestam nada.

 

A maioria dos imigrantes vem hoje da Somália, Eritreia, em menor escala do Mali, da Costa de Marfim, do Níger ou da Nigéria. Todos estão prontos a morrer para viver na Europa. Cada época teve as suas viagens infernais. O século XX não inventou nem o ódio nem a indiferença, mas precipitou dezenas de milhões de homens e de mulheres para a morte ou para a deportação. Cada um sabe como as políticas criminais que devastam a África, mortalmente doente de SIDA, lançam agora populações inteiras no exílio. Este exílio não é no entanto o único sofrimento destes homens desenraizados, condenados a progredir para o Mar Mediterrâneo por estradas sem leis.

 

A esperança é um muito longo caminho, que pode durar meses ou mesmo anos. Eles só encontram na estrada das suas vidas o desprezo do estrangeiro. Obrigados a trabalhar para pagarem a sua viagem, sempre roubados, frequentemente abusados, às vezes abandonados a uma morte certa em pleno deserto do Sahara e sujeitos em cada etapa a aberrantes direitos de passagem, todos eles sujeitos à chantagem de toda a gente, polícias, agentes de alfândega, comerciantes, transformados em escravos ou prostituídos, raptados, sequestrados, submetidos às piores abjecções, os homens assim como as mulheres, e as crianças também, são homens moralmente exangues que conseguem alcançar as praias líbias (Tripoli, Zuwarah ou Al-Khums, Misratah ou Zlitan) onde poderão, talvez, depois das humilhações finais e depois de ter pago 1 000 dólares, por fim, embarcarem (eles frequentemente já terão gasto entre 1 000 e 1 500 dólares para a sua viagem terrestre).

 

Todos sabem as engrenagens destas organizações mafiosas, os nomes de certos responsáveis são conhecidos (na Nigéria, em Cartum e noutros lugares) e numerosas reuniões de peritos europeus, e nomeadamente os responsáveis de Frontex, confirmam que a rota dos clandestinos, descrita pelo jornalista italiano Fabrizio Gatti em 2007, continua a estar sempre pavimentada pelos mesmos horrores. Mas a verdade continua sempre por construir, como dizia Camus, como o está o amor, como o está a inteligência.

 

Cada um a bordo do Falcon imaginava a sua viagem. Voávamos em círculos curtos e repetidos acima das suas cabeças. Para quê, demorarmo-nos? Todas as informações relativas à posição da embarcação, a sua velocidade e a sua rota presumida tinham sido transmitidas. Em princípio, os passageiros estavam agora em segurança. O avião retomou a direcção de Malta. Ninguém mais falava, mas a observação continuava. Um pescador à esquerda, que faz rota para o Norte! Duas embarcações de casco verde! Esta construção muito branca, à direita, é um draga-minas tunisino! Depois de seis horas de voo a rasar as ondas, diversos sonhos enchiam o nosso cérebro, preenchiam os nossos pensamentos. A maior parte das crianças das embarcações da imigração africana tinham nascido da prostituição forçada. As suas mães frequentemente estavam infectadas pelo vírus da SIDA. Interrogava-me, sem estar a ousar falar, se as duas lactentes recentemente arrancadas ao mar não estariam elas já doentes, elas também, quando o piloto assinalou um pequeno barco preto, voltado e vazio, que derivava sobre a nossa direita.

 

Este tipo de embarcação ligeira, frequentemente de má qualidade, é o barco mais frequentemente utilizado pelos passadores, que se servem também de barcos de fibra de vidro, de qualidade frequentemente fragilizada por uma construção apressada, uns e outros equipados de motores fora de borda de 40 cavalos. Estes barcos partem das margens com a sua sobrecarga de passageiros, jerricãs de gasolina, reservas de água e de alimentos.

 

Os passageiros, cujos papéis de identidade terão, na sua maior parte do tempo, sido roubados, entregues a si mesmos (os passadores ficam nas margens), têm como única instrução colocarem o leme. Às vezes estão equipados de compassos, de GPS ou de telefones satélites (Turaya SO-2520). O material utilizado continua a ser sempre o mesmo, sinais da existência de redes estruturadas e estáveis.

 

O preto da pequena embarcação fazia uma mancha preta sobre o mar. Estes pequenos barcos assim como os barcos de fibra de vidro, sempre no limite de flutuação, são frágeis, ligeiros, indefesos perante uma qualquer rabanada de vento, e mesmo de uma má vaga. O Verão é também a estação de tempestades tão rápidas quanto brutais. Nunca são longas, mas mostram-se impiedosas para os frágeis barcos da imigração. Os marinheiros franceses do Arago sabem disso alguma coisa, eles que, em vão, assinalaram ao responsável da Frontex (nesse dia um oficial alemão) uma embarcação a algumas horas de uma rabanada de vento já previsto. Decidir não lhes levar assistência, era condenar os 30 passageiros a uma morte certa. Nenhum sobreviveu. Todos os candidatos à partida conhecem os perigos, mas é demasiado tarde para eles voltarem para trás. E voltar para ir para onde? Para o deserto? Sem dinheiro? A sua travessia dura em geral dois a três dias. Em casos de avaria ou erro de direcção, pode durar dez dias.

 

O seu destino prioritário é a ilha de Lampedusa, mais raramente a Sicília. Malta é, diz-se, apenas frequentemente um destino por defeito (mas em 2008, 2 522 imigrantes ilegais mesmo assim alcançaram o solo maltês, ou seja, um pequeno milhar a mais do que em 2006 e que em 2007).

 

Conhecemos o número dos que chegam, mas nunca o dos desaparecidos. Como é que este pequeno barco que andava à deriva, vazio, debaixo das nossas asas não levava passageiros? Morreram quando estavam quase a alcançar o fim pelo qual tinham aceitado tantos sofrimentos e privações. Nunca as suas famílias saberão no que eles se tornaram.

 

Mortos, sem sepultura, sem epitáfio, sem nome, solitários e mudos na morte como se assim tivessem estado durante os últimos meses da sua vida. Uma hora depois, apercebíamo-nos da frente ensolarada das falésias de Dingli e sobrevoámos numerosas reentrâncias da costa. Entre Gozo e Comino, as explorações de criação de atuns desenhavam círculos na água. Dois dias depois, soubemos que o barco grande sobrecarregado que sobrevoámos durante muito tempo e que com pesar tínhamos deixado nunca chegou a lado nenhum. Os sobreviventes destas modernas odisseias são colocados, à chegada, em Malta num campo de detenção esperando ser interrogados e fixado o seu estatuto. Os estrangeiros não reconduzíveis são devolvidos à liberdade, depois de dezoito meses de detenção (é um máximo; a média é de um ano). A maior parte refugia-se nos campos abertos, como o campo de lona de Hal Far. Saem de manhã do seu abrigo para procurarem trabalho para o lado de Marsa.

 

Tinha chovido toda a noite quando fui a Marsa, numa manhã de Dezembro; como sempre em Malta, quando chove com abundância, certas ruas ficam transformadas em rio. A chuva tinha cessado à minha chegada perto do porto. Às 5 horas da manhã, as ruas deste baixo bairro em metade abandonado ainda estão desertas. Seguidamente, a igreja abriu as suas portas, ao mesmo tempo que dois ou três cafés, e os primeiros fiéis atravessaram a praça. Foi nesse momento que começaram a chegar, como sombras que deslizam nas últimas cortinas da noite. Sozinhos, ou em pequenos grupos, duas ou três bicicletas, bem vestidos e com a cabeça enfiada no capuz da sua parca para se protegerem do vento matinal. Agruparam-se em diversos lugares à beira da estrada, nomeadamente em redor de uma rotunda. É aí que têm o hábito de esperar uma eventual contratação. Automóveis passam, param, o motorista negoceia o preço do trabalho para o dia ou para a semana.

 

No início do mês de Dezembro de 2008, Brice Hortefeux, ministro da Imigração, da Integração, da Identidade nacional e do Desenvolvimento Solidário, anunciou que a França acolheria, em 2009, 80 imigrantes vindos de Malta. Encontro neste momento Tonio Borg, o simpático ministro maltês dos Negócios Estrangeiros, por ocasião de uma recepção dada na casa de campo Arrigo. Falamos das tradições de Natal em Malta, dos infantários animados, da Córsega, de Bonaparte (o escritório de Tonio Borg no ministério tinha sido, em Junho de 1798, e durante alguns dias, o escritório e o quarto de dormir do general francês), depois perguntei-lhe sobre o que pensa da decisão francesa. “Excelente!

 

Isto mostra que a Europa não é apenas a afirmação comum dos nossos egoísmos. Sabe, quando falei desta eventualidade a um ministro francês há alguns anos, uma mulher, disse-me: ‘Peçam tudo o que quiserem, excepto isso!’ Progredimos.” A notícia é muito recente. Muitas perguntas permanecem ainda, quanto aos procedimentos a fazer.

 

No dia seguinte, tomo contacto com o Padre Joseph Cassar, jesuíta que anima a secção maltesa Jesuit Refugees Services, uma organização internacional criada nos anos 80 aquando do drama dos boat people. Alto e magro, bonito rosto enquadrado por uma barba curta e branca, de óculos leves, de olhos sombrios, transbordante de uma bondade voluntária, de calma também, o Padre recebe-me no escritório da WS Aloysius's Gonzaga College, sob uma fotografia do Pai Arrupe tirada no Japão. Em redor do jesuíta, alguns membros da sua equipa, um outro padre da sua companhia, dois eritreus, e três mulheres, das quais uma jovem francesa, Céline. “Existimos em Malta desde 1993”, diz o padre Cassar. “Era necessário então responder ao número crescente de iraquianos imigrados, na sua maior parte cristãos, seguidamente bósnios que procuram refúgio em Malta depois de uma passagem pela Líbia. Desde 2002, ocupamo-nos dos imigrantes africanos chegados por barco. São os boat people de hoje. É a mesma tragédia que aquela que se desenrolou ontem no mar da China, e que Bernard Kouchner conhece bem”. A única diferença, certamente, é que agora, é aqui, na nossa Europa, no Mediterrâneo.

 

Quando o interrogo sobre se é possível avaliar o número de desaparecidos, responde após um silêncio. “É impossível sabê-lo com precisão. Mas tentamos fazer avaliações. Todos os candidatos à viagem são organizados por famílias, por fratrias ou por aldeias, e comunicam por telemóvel. Quando um barco está em dificuldade, ou estão sem notícias, acontece que as famílias nos contactam. Chegamos assim a fazer algumas avaliações. Pensamos que, em cada ano, entre 600 e 1 200 imigrantes morrem no Mediterrâneo”. Mais de um terço dos que partem não chegariam a terra firme?

 

As primeiras tempestades de Outono desencorajam a aventura da travessia. Em meados de Novembro, um moderno paquete de cruzeiro não teve um grande azar ao entrar no porto de Palermo? Mas durante alguns meses ainda, corpos levados pelas correntes encalhavam na margem do Sul da Sicília; os pescadores de Malta e outros continuam a apanhar restos de homem nas suas redes. Acontece, no entanto, que alguns audaciosos, aproveitando o período de bom tempo, tentam ainda a travessia. O padre diz-me que, no fim de Novembro, um cargueiro russo socorreu várias dezenas de naufragados. “Isto pelo menos prova que nem todas as embarcações desviam a sua rota quando se apercebem de um barco em dificuldade. Certamente”, responde-me o padre. “A solidariedade das pessoas que navegam no mar não morreu, ainda que todos tenhamos conhecimento de dramáticas entorses às regras de assistência e de salvamento”. Quando deixo o seu escritório, o padre Cassar mostra-me um fresco pintado por congoleses. É uma pintura naif, muito figurada, que representa a sua terrível viagem e se assemelha a uma dança macabra, apesar das cores vivas, dos vermelhos e dos amarelos.

 

Os povos em torno do Mediterrâneo procuraram sempre as eternas promessas da vida. Esta procura deu frequentemente aos homens boas razões para abandonar as suas aldeias, as suas cidades e de se irem embora. Gregos, fenícios, cartagineses, deixaram anteriormente as suas margens para seguirem a rota de Ulisses. Mais perto de nós, em pleno século XIX, numerosos franceses, artesões nas cidades, trabalhadores na casa dos quarenta e mais anos, embarcados no fundo de porão de batelões, seguidamente sobre fragatas, atravessaram o Mediterrâneo para irem fundar colónias, explorações agrícolas e aldeias, em regiões pantanosas ou zonas de arbustos bravios. E no século XX, quantas travessias no outro sentido! Camponeses do Rif, do Chouf ou de Kabylie vindo trabalhar nas minas e nas fábricas francesas. Franceses da Argélia retornando a França apenas com a sua mala como património.

 

Tudo isso não se pode ter passado sem dor.

 

A História continua apaixonante e terrífica. Mas hoje, a única promessa cumprida, e demasiado frequentemente, é o túmulo. Ulisses é negro e morre no mar, no silêncio das ondas, depois de meses de espera, de aflição.

 

 

Nunca encontrará o rei mago Baltazar. O Mediterrâneo, onde procuramos infatigavelmente o rosto da sabedoria e da beleza, não deve tornar-se num cemitério.

 

Daniel Rondeau, “Boat people d’aujourd’hui”, Le Monde, 26 de Março de 2009.

 

 

           
   
publicado por Luis Moreira às 20:00
link | favorito

.Páginas

Página inicial
Editorial

.Carta aberta de Júlio Marques Mota aos líderes parlamentares

Carta aberta

.Dia de Lisboa - 24 horas inteiramente dedicadas à cidade de Lisboa

Dia de Lisboa

.Contacte-nos

estrolabio(at)gmail.com

.últ. comentários

Transcrevi este artigo n'A Viagem dos Argonautas, ...
Sou natural duma aldeia muito perto de sta Maria d...
tudo treta...nem cristovao,nem europeu nenhum desc...
Boa tarde Marcos CruzQuantos números foram editado...
Conheci hackers profissionais além da imaginação h...
Conheci hackers profissionais além da imaginação h...
Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
Eles são um conjunto sofisticado e irrestrito de h...
Esse grupo de gurus cibernéticos ajudou minha famí...

.Livros


sugestão: revista arqa #84/85

.arquivos

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

.links