Segunda-feira, 23 de Maio de 2011

Economia Global, Capitalismo de Estado e Neoliberalismo - 2

Júlio Marques Mota

 

Introdução

 

Hon Hai Precision Industry Company, mais conhecida pelo seu nome comercial de Foxconn (Fushikang), foi criada em Taipei em 1974 (2). A Foxconn é actualmente a maior fabricante do mundo em produtos electrónicos a trabalhar em regime de contratos, o que significa que faz a maioria do seu volume de negócios como fabricante em regime de subcontratação com terceiros e não pela venda de produtos de marca própria. A empresa está em condições de garantir a produção de mais de 50 por cento do valor global em produtos electrónicos para a indústria de serviços em 2011. (3) Sob a liderança do seu fundador e actual presidente, Terry Gou, a Foxconn considera-se "o parceiro mais fiável e preferido em todos os aspectos de outsourcing global em material electrónico para ajudar os clientes nos seus negócios."(4) Tragicamente, nos primeiros cinco meses deste ano até 27 de Maio de 2010, lamentável e inesperadamente, 13 jovens trabalhadores suicidaram-se ou tentaram fazê-lo nas duas instalações de produção da Foxconn em Shenzhen, uma cidade no sudeste da China, abrindo uma crise de relações públicas e uma crise ao nível da responsabilidade das empresas quanto à imagem e à consciência moral de praticamente todos os clientes da Foxconn, incluindo a Apple, HP, Dell, IBM, Samsung, Nokia, Hitachi e outros gigantes da electrónica. Dez trabalhadores migrantes chineses morreram e três sobreviveram aos ferimentos. Todos tinham entre os 17 e os 25 anos, estavam pois no auge da sua juventude. A sua morte deve levar a sociedade tanto a chinesa como a internacional a tomar consciência e a reflectir sobre os custos de um modelo de desenvolvimento que sacrifica a dignidade em nome do crescimento económico.

 

 

O sucesso da Foxconn testemunha o dinamismo no modelo de crescimento assente nas exportações da Zona Económica Especial de Shenzhen, no âmbito da política de abertura da China, conhecido como modelo export-led growth. Nos seus mais de 20 anos desde o seu investimento inicial em 1988, a Foxconn tem crescido de tal modo que é o maior exportador da China. O fabricante de material electrónico tem uma força de trabalho de 900.000 pessoas no país, 85 por cento das quais são jovens vindos das áreas rurais.(5) Podemos mesmo dizer que a Foxconn é um microcosmos da vida dos trabalhadores migrantes chineses. Quando a revista Time escolheu os trabalhadores da China como candidatos a «Personalidades do Ano» de 2009, o chefe de redacção dessa revista referiu que os trabalhadores chineses tinham contribuído para tornar mais brilhante o futuro da humanidade ao «encabeçarem a marcha do mundo pela via da recuperação económica»."(6) A nova geração de trabalhadores migrantes chineses (xinshengdai nongmingong), porém, parece tomar consciência de que está ela própria a perder o seu futuro. A tragédia na Foxconn tem sido considerada como um "suicídio em série" pelos media chineses.(7)

 

Podemos interpretar que os empregados da Foxconn se tenham suicidado em protesto contra um regime de trabalho global em que a China fornece a parte mais violenta e mais dura. No âmbito da política de reforma e de portas abertas, a economia chinesa está orientada para a exportação e mostra assim que é capaz de garantir o seu crescimento económico. As empresas investiram na Ásia e os fabricantes nacionais na China Continental cresceram rapidamente para se tornar fornecedores e subcontratados das empresas multinacionais ocidentais, com base na exploração dos baixos salários dos trabalhadores migrantes. Nas fábricas, o stress no trabalho associado com a concorrência desenfreada e os métodos de gestão da produção just-in-time, o modo de gestão na produção, é imenso. O suicídio é, sobretudo, a manifestação extrema do que sentem as suas centenas de milhões de trabalhadores nas suas vidas. Alguns suicídios podem ter sido provocados por problemas pessoais, como a direcção da Foxconn gostaria que aceitássemos. Mas há um contexto social mais amplo partilhado pelos seus trabalhadores e por muitos outros mais que está subjacente nas acções individuais desesperadas.

 

Este artigo revê e analisa a questão dos recentes suicídios na Foxconn como um meio para investigar as condições de trabalho e de vida da nova geração de trabalhadores migrantes chineses. Partilhamos a visão dos investigadores chineses e internacionais, que assinaram uma carta sem precedentes mostrando a sua preocupação para com as vítimas da Foxconn, em Junho de 2010, para chamar a atenção para a necessidade de aplicar as normas sobre o trabalho na Foxconn e em muitos outros locais de trabalho global.(8) Entrevistámos vários trabalhadores da Foxconn no decorrer da nossa investigação fora das instalações da Foxconn na China meridional e oriental, que iniciámos em Maio de 2010, a fim de saber quais as suas condições de trabalho. Obtivemos também informações a partir de fontes quer da indústria, quer do governo, sobre as características e as mudanças de pontos de vista dos trabalhadores mais jovens sobre os trabalhadores mais velhos. Ao proporcionar-nos um olhar para o interior do regime de trabalho global na China, através de estudo empírico do sistema de trabalho na Foxconn, o nosso estudo levou-nos a sublinhar a necessidade urgente de reformas progressistas. Os jovens trabalhadores migrantes, que foram colocados na “melhor” área dos dormitórios da fábrica Foxconn, (9) pareciam apenas mostrar maior ansiedade, e viam menos alternativas do que os seus colegas. Os esforços para remediar a situação devem assentar fundamentalmente na participação dos trabalhadores directamente envolvidos nas situações e nas decisões que lhes digam respeito, no trabalho e para além dele.

 

A seguir, analisamos as condições do aparecimento do regime de trabalho global na China desde 1980. Os empregados da Foxconn são uma muita boa representação da nova geração de trabalhadores migrantes chineses. Eles querem mudar a sua dagong(10), a sua identidade de género e de classe que surgiu depois de Mao e que é a de trabalho fabril para a pessoa que tem o estatuto de patrão na cidade, mas nisso enfrentam dificuldades intransponíveis. A empresa Foxconn é uma forma extrema dessa situação de trabalho, como mostraremos a seguir, quando falarmos sobre o que está na origem da Foxconn se tornar "a fábrica de produtos electrónicos do mundo." A partir daí, propomos um triplo quadro explicativo das causas estruturais dos suicídios na Foxconn. Primeiro, as principais marcas internacionais têm adoptado práticas de compra de produtos aí fabricados que não são eticamente aceitáveis, resultando daí condições precárias nas suas cadeias de abastecimento. Em segundo lugar, a direcção da Foxconn utilizou métodos abusivos para aumentar a eficiência do trabalhador, gerando queixas generalizadas e muitas resistências. Em terceiro lugar, as autoridades chinesas locais foram coniventes com empresas como a Foxconn para privar os trabalhadores dos direitos legítimos e do seu bem-estar, do que resultou um aprofundamento das situações de pobreza e em que aumentou a desigualdade social. Para muitos jovens trabalhadores afigura-se impossível lutar pela melhoria da vida quotidiana em que vivem e, eventualmente, consideram impossível realizar os sonhos que têm para o futuro.

 

A partir daí, concluímos que a tragédia humana na Foxconn levanta questões profundas sobre a sustentabilidade do modelo de desenvolvimento da China e da produção global. O centro do maior problema, sugerimos, é que os trabalhadores na China não têm estruturas sindicais que façam ouvir a sua voz. Ao nível mais baixo da cadeia de fornecimento internacional de mercadorias, as commodities, milhões de trabalhadores migrantes chineses estão permanentemente a serem privados quer de salários quer de benefícios sociais decentes. Os trabalhadores jovens com origens rurais (hukou, é o registo interno oficial, com passaporte interno igualmente), tal como os seus pais, são cidadãos marginalizados. Estes, os jovens, agora com melhor nível de escolaridade, anseiam por uma vida em sintonia com os tempos e a cidade é o local onde tudo está a acontecer. Quanto maiores as suas aspirações de um futuro melhor, mais óbvio se torna o contraste com a sua dura realidade. Através de várias formas de protesto, de que o suicídio é a expressão mais desesperada, os jovens estão a

tentar recuperar os seus direitos e a sua dignidade.

publicado por siuljeronimo às 20:00

editado por Luis Moreira às 14:56
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