Segunda-feira, 9 de Maio de 2011

Deixem os finlandeses em paz – por Carlos Loures

 

O professor pergunta na aula: - «meninos, a quem é que devemos a plantação do Pinhal de Leiria, no século XIV?» - voz de um aluno: «ó setôr, não me diga que ainda estamos a dever essa merda!».

 

Ainda há relativamente pouco tempo, a Finlândia era um país com níveis de desenvolvimento muito abaixo da  média europeia – taxa de analfabetismo elevada e índice de pobreza dos maiores da Europa. No duro Inverno finlandês, na falta de calçado adequado, os camponeses envolviam os pés em papéis. A comida escasseava… Em suma, um dos países mais pobres do mundo. Essencialmente agrária, a Finlândia teve um atraso relativo no seu processo de industrialização, permanecendo como país economicamente deprimido até 1950. A partir de então, o desenvolvimento foi rápido e atingiu no início dos anos70 um dos mais elevados níveis de rendimento per capita do mundo, sendo hoje um modelo de bem-estar social. É a prova de que os povos não estão condenados a ser miseráveis, nem a riqueza dos mais abastados está garantida. As coisas mudam.

 

Passando muito resumidamente um olhar pela história da Finlândia, lembro que até 1809 esteve integrada no reino sueco, constituindo depois um grão-ducado do império russo. Em 1917 proclamou a independência, seguindo-se uma cruenta guerra contra a União Soviética e depois contra a Alemanha de Hitler. Em 1955 o país foi admitido na ONU, em 1969 entrou na OCDE; em 1995 aderiu à União Europeia. O povo finlandês, há que dizê-lo, trabalhou, estudou, evoluiu. Passados pouco mais de cinquenta anos, a Finlândia é um país-modelo, classificado como o segundo mais estável do mundo e no primeiro lugar do Índice de Prosperidade Legatum de 2009,  baseado no desempenho económico e na qualidade de vida. Após uma grave depressão no início de 1990, os sucessivos governos reformaram o sistema económico através, sobretudo,  de privatizações e cortes nos impostos. É elevada a produção de alta tecnologia, os indicadores de saúde e desenvolvimento humano.

 

Os textos, apelando à memória e à gratidão, são inúteis. O maldito pragmatismo que uma cultura capitalista disseminou, prevalece. Querem bem saber os finlandeses da ajuda que os portugueses lhes deram há décadas! Sem sair de Portugal, temos provas desse pragmatismo – jovens a opinar que trabalham para pagar as pensões dos velhos e que mais valia deixar de as pagar, pois os velhos não produzem. Já ouvi qualquer coisa parecida a um putativo secretário de Estado ou ministro do ex-futuro governo – o corte nas pensões como parte da solução, esses idiotas – Esquecem-se de que muitos pensionistas tiveram longas carreiras contributivas e que teriam preferido que os descontos que lhes foram feitos ao longo de décadas de trabalho tivessem sido aplicados em produtos bancários. Mas voltemos à Finlândia.

 

Não podemos exigir aos finlandeses que para além dos problemas que têm de enfrentar paguem dívidas morais de várias gerações atrás. Devíamos exigir aos nossos políticos que fossem sérios. Muitos dos que desperdiçaram dinheiro dos fundos comunitários de apoio, quando vinham tranches substanciais, andam por aí e pertencem principalmente aos dois partidos que se alternam no poder. Muitos, com sorrisos amaricados de suposta ironia e de inteligência acumulada, criticam e esquecem-se de que esbanjaram, comeram do bolo e distribuíram pelos amigos. Há, como todos sabemos, casos de polícia… Dentro da lógica instalada, os finlandeses nada nos devem. Ajudámo-los? E então? Também mandámos cobertores e géneros alimentícios para o Haiti. Não me digam que a primeira vez que os haitianos discordarem de nós, lhes lançamos em rosto os cobertores e os pacotes de arroz. Quando do Terramoto de 1755, chegou ajuda do estrangeiro. Ainda estamos em dívida para quem de França ou de Inglaterra nos enviou ajuda? Irra! E o Pinhal de Leiria?

 

Um amigo que faleceu há pouco, esteve numa ex-colónia como cooperante. Farto de ouvir dizer que todos os males do país se deviam aos portugueses, um dia não aguentou e perguntou-lhes por quantas dezenas de anos é que iriam continuar a culpar os portugueses do seu atraso? Com um território cheio de recursos naturais, o mar bem abastecido de peixe, por que não trabalhavam mais e, sobretudo, por que suportavam políticos corruptos que vieram na sequência dos que conduziram a luta de libertação? Acrescente-se que no Brasil, ainda há quem continue a lamentar que a colonização tivesse sido feita por Portugueses e não por Holandeses – como se a Indonésia lhes pudesse servir de modelo! Na verdade, e felizmente!, não temos o monopólio dos estúpidos – há-os em abundância por todo o mundo.

 

Prefiro quando me lembro da Finlândia recordar a vista da janela do hotel de Tallin,  o Golfo da Finlândia e para lá, a mancha urbana de Helsínquia. Como, na viagem de Sampetesburgo para a Estónia,  passando perto da fronteira, pude admirar a beleza calma das florestas de vidoeiros ou de bétulas; prefiro recordar a bela e solene Finlândia, de Sibelius  e  os poemas de Eeva Kilpi.

 

Leiam este poema, ouçam a bela sinfonia de Sibelius e, sobretudo, deixem os finlandeses em paz.

 

QUANDO JÁ NÃO SE TEM FORÇAS

 

quando já não se tem forças para escrever,

há que recordar.

quando já não se tem forças para fotografar,

há que ver com os olhos da alma.

quando já não se tem forças para ler,

tem que se estar pleno de narrações.

quando já não se tem forças para falar,

há que ressonar.

 

quando já não se tem forças para andar,

há que voar.

 

e quando chegar a hora,

alguém tem de se ver livre das recordações,

dos olhos da alma, deixar de sonhar,

calar-se e dobrar as asas.

 

mas aconteça o que acontecer,

segue a narração, segue.

 

Eeva Kilpi (1928)

(tradução de Pedro Calouste)

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publicado por Carlos Loures às 12:00
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