Domingo, 8 de Maio de 2011
E VAI UM...Tradição e Irracionalidade - Manuel Simões

 

Manuel Simões  Tradição e Irracionalidade

 

(ilustração de José Magalhães)

 

 

 

 

 

Recentemente, para justificar aspectos controversos das festas de Monsaraz, e à semelhança do caso de Barrancos, falou-se de novo das tradições populares e do seu peso na cultura e na identidade. A questão da tradição foi invocada evidentemente pelos defensores das cerimónias sangrentas, o que, desde logo, introduz o choque entre as ideias e os costumes tradicionais, em contraposição com os modos de vida introduzidos numa dada sociedade e que entram em conflito com a chamada tradição.

 

De facto, como todos sabemos, as sociedades que existem no mundo de hoje diferem todas dos tipos tradicionais de ordem social que dominaram o mundo, o que distingue as sociedades modernas das sociedades pré-modernas. Daí que, em meu entender, a defesa intransigente da tradição ancestral para reivindicar um acto que, à partida, escapa ao que se considera racional, conduz inevitavelmente a uma visão estática, inerte, da cultura, por oposição às culturas progressivas, até porque, quer se queira quer não, a mudança social influi sempre no desenvolvimento cultural humano.

 

Deste modo, e embora pareça um paradoxo, a tradição faz-se fazendo, o que significa que os actos acumulados pela sedimentação se tornam irrepetíveis, são sempre novos porque outros, por mais que se pretenda institucionalizar a tradição. Esta avança com a evolução das mentalidades, das técnicas, da formação do gosto. Por exemplo, o banho do dia de S. Bartolomeu, praticado em algumas comunidades com a convicção de que previne a gaguez e o medo, baseia-se nessa convicção para justificar um acto de violência associado a uma boa dose de atitude folclórica. O que acontece é que, quanto mais circunscrita e fechada for a tradição, menos possibilidade tem de evoluir ou de se renovar, apoiando-se por vezes, com orgulho e obstinação acríticos, na mentalidade de um país (ou de uma região) que ainda não deu o salto para a frente e que continua a ter no passado os seus pontos de referência (labirintos da saudade e quejandos).

 

A esta visão do mundo anda associada a mania, cada vez mais generalizada, da recuperação dita histórica da época medieval, inventando gastronomia, cortejos, modelos monárquicos, tudo em nome da tradição, esquecendo-se que os objectos e os actos sociais “se criam” para satisfazer as necessidades de uma determinada organização da sociedade e que a esta ficam irremediavelmente ligados. Repropor hoje, em nome do turismo de massas, um arremedo das ceias medievais ou a exaltação anacrónica e obsoleta do fausto monárquico não me parece uma boa maneira de produzir cultura, sobretudo porque não se inscreve nestas acções o contexto em que se produziam, único modo de oferecer uma possibilidade de análise e de interpretação críticas de tais representações que, ainda por cima, agravam os orçamentos depauperados das autarquias.

 

E, já agora, dito aqui entre parênteses,  quando deixaremos de ter os contos infantis ligados às figuras “tradicionais” dos reis, das princesas, dos duendes, das fadas, etc.? É uma prática quanto a mim perversa, na medida em que se constrói um imaginário infantil que a criança terá mais tarde que remover.Mas voltemos à tradição.

 

Em termos sociológicos, é evidente que se deve evitar o etnocentrismo, isto é, a tendência para julgar as outras culturas segundo os parâmetros do sistema de referência que utilizamos. Mas as sociedades humanas nunca se encontram isoladas e, como já defendeu uma autoridade como Lévi-Strauss, a noção de diversidade cultural não deve ser concebida de maneira estática ou estacionária no tempo, como se cada cultura ou cada sociedade se tivesse desenvolvido no isolamento de todas as outras. É por isso que certa antropologia e sociologia portuguesas se manifestam numa perspectiva que me parece arqueológica, até porque, como tudo na vida, os actos humanos se produzem progredindo, inovando, sem ficarem agarrados à estratificação dos fósseis, o que significa que, deste modo, têm mais possibilidade de fugir à eventual irracionalidade.

 

 

 

 



publicado por Augusta Clara às 17:00
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1 comentário:
De Luis Moreira a 8 de Maio de 2011 às 17:30
O Manuel Simões apresenta aqui um texto cheio de razão. No Passo, em tempo de Páscoa, o padre percorre a freguesia com o Cristo para ser beijado pelos crentes. Ora, aquela era uma maneira muito eficaz de transmitir doenças.Todos beijavam o Cristo, incluindo crianças. Em casa da minha irmã Laura não deixei que as crianças beijassem a estatueta. Uma borrasca de todo o tamanho, foi isto há 30 anos. Explicada a razão o sr. Padre saiu lá de casa com algodão e alcool com que desinfectava os pés de Cristo. Parece que já se fazia noutras freguesias e agora é comum, e a tradição pode continuar sem transmitir a tuberculose...


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