Sábado, 7 de Maio de 2011

O trabalho e o trabalhador na economia financeirizada: uma viagem ao inferno organizado no mundo do trabalho em France Télécom 2ª Parte

 continuação daqui

 

 

A actividade profissional como descriminante

 

A diferença no ressentimento no trabalho é muito variável segundo o tipo de actividade exercida. É a variável mais significativa para o trabalho sob tensão.

 

As condições de trabalho difíceis atingem as categorias   não-quadros  e as de controlo nas lojas de distribuição e de serviço a clientes ( centros de chamadas)  e não-quadros na intervenção a clientes e nas unidades de gestão a clientes.

 

O desajustamento profissional (inadequação ao posto de trabalho e impacto negativo da mobilidade atinge  sobretudo as categorias controlo e não quadros, em particular os funcionários  para a gestão cliente, o serviço cliente para o telefone e as funções de apoio.

 

As relações sociais degradadas atingem sobretudo os funcionários não quadros para as intervenções cliente, não quadros e controlo para a distribuição e serviços clientes para o telefone.  

 

Resulta da análise feita por Technologia deste questionário que as populações fragilizadas são em particular aquelas que tendo sido sujeitas a mobilidades, afectadas pelos empregos orientados ao serviço cliente. Relembremos que é o plano  ACT que está na origem destas  mobilidades.

Em conclusão desta análise  dos questionários, Technologia indica as linhas sobre as quais   se deve trabalhar:
- a exigência de trabalho ligada à complexidade dos produtos  
-o ambiente de trabalho e de  instrumentos que lhe estão associados.
-as modalidades de acompanhamento da mobilidade funcional.
-a atenção a dar à mobilidade geográfica.
-o sistema de gestão de recursos humanos  de que se ressentem até os próprios    gestores de recursos humanos .
-o ambiente de trabalho que é tenso, por vezes violento, mesmo.

 

C) A analise de documentos

 

Os 45 relatórios de peritagem CHSCT ventilam-se em três grandes temáticas: a supressão de postos e  as mobilidades, as mudanças de horário, as mudanças de actividades. De tudo isto, 96% dos relatórios  têm  sobretudo a ver com projectos relacionados com os tipos de actividades, 62% deles colocam em evidência problemáticas importantes de saúde no trabalho (stress, depressão) e a existência de riscos psicossociais. Todos os tipos de estabelecimentos  têm a ver com as problemáticas de saúde.
a saúde no trabalho em France Télécom através dos relatórios dos peritos

 

Depois de se proceder a uma análise de cada um dos relatórios dos peritos,  Technologia estabeleceu uma síntese dos problemas de saúde no trabalho evidenciados nestes relatórios, e em especial, os seguintes:
-aparecimento de sofrimentos  no trabalho recorrentes e importantes ligados à degradação das condições de trabalho.  
-construções cognitivas novas e pesadas a colocar  em prática  devidas a evoluções  de   restritivas  muito rápidas e mal preparadas para novas actividades.
-sofrimento dos trabalhadores ligado à perda de identidade devidas às mobilidades profissionais e à mudança permanente do colectivo de trabalho.
-uma desestabilização  dos trabalhadores que face às mudanças repetidas e não controláveis têm o sentimento de não poderem efectuar  um serviço de qualidade.
-uma fragilização dos trabalhadores mais velhos que face aos projectos impostos e não antecipados duvidam da sua capacidade a investirem numa nova actividade.
-uma perda de referência que afecta a identidade dos trabalhadores e os coloca em situação de sofrimento pelo facto de se negar a cultura anterior.
-uma perda de confiança na empresa pelo facto da ausência de uma visão a médio termo nas reorganizações.

Relativamente ao acompanhamento destas peritagens, o estudo sublinha em especial que um terço delas foi contestado  no tribunal de grande instância. Esta quantidade não negligenciável de contestações testemunha a vontade de France Télécom  de não querer abrir o debate sobre a questão dos riscos psicossociais no seio dos CHSCT.

 

O estudo  concluiu-se sobre o facto  de que estes numerosos relatórios de peritagem constituem em si tantos alertas e as suas recomendações eram uma oportunidade para melhorar as condições de trabalho e de saúde dos seus assalariados. O estudo acrescenta que estas peritagens produzem efeitos locais muito limitados  e não contribuem para um verdadeiro reforço do diálogo social nem à aplicação de uma política de prevenção eficiente.

 

Em conclusão do estado das coisas  o relatório Technologia indica ter identificado uma “ não conduta” de mudança ligada a uma organização dos recursos humana desfasada o que contribuiu fortemente para o falhanço do sistema de prevenção.

 

Uma gestão de recursos degradada

 

 

O estudo Technologia juntou os elementos dos relatórios de peritagens incidindo sobre a gestão de recursos. Daí resulta uma imagem sombria e degradada da gestão de recursos assim:

 

Os objectivos atribuídos, o modo de remuneração dos vendedores baseados no volume de  negócios realizado, a comparação dos resultados individuais e colectivos com publicação nas lojas geravam inquietação.
- a manutenção individual que mistura objectivos de avaliação dos resultados e abordagem do projecto profissional  no quadro ACT   é sentida como desleal;
- os instrumentos de controlo dos télé-conselheiros  são múltiplos e julgados excessivos e não apropriados ao pessoal ao qual são aplicados;
- os gestores estão na base da redução dos   efectivos. Aliás, eles foram formados para isso. Eles são responsáveis pela via micrométrica  praticada.

 

Eles devem determinar as tarefas a continuar, detectar as pessoas que se devem inscrever  na mobilidade, dar a prioridade às actividades de venda e aos lugares estratégicos.  Ora, os gestores não parecem suficientemente conscientes das consequências humanas  que induzem as reorganizações. O que sobressai  dos relatórios de peritagem  é aliás confirmado  pela formação dada aos   gestores. O impacto sobre a vida quotidiana dos trabalhadores dos processos de reorganização  e das mobilidades  não é de modo nenhum abordado.
- o défice de prevenção dos riscos psicossociais gerado pelas mobilidades e pelas reorganizações   aparece como gritante.  A lógica de prevenção  não é posta em prática a montante.
- o enquadramento é sentido como sendo autoritário.
- o enquadramento tem as suas próprias  dúvidas  quanto   à sua parte de autonomia, ao seu papel em matéria de redução de efectivos e tem as suas inquietações  quanto ao seu próprio futuro profissional neste contexto.

 

As causas principais de degradação da saúde no trabalho e dos seus efeitos sobre a saúde  

 

Technologia produziu através da sua análise de documentos quatro causas principais  de degradação de saúde  no trabalho:
As mudanças sucessivas, mobilidades forçadas associadas às mudanças de actividade  elas mesmas não escolhidas são reconhecidas como factores importantes  de riscos psicossociais.

 

Isto traduz-se por múltiplas manifestações  de perturbações de saúde que podem afectar de forma desigual os agentes referidos em função das trajectórias profissionais, da vida pessoal e da sua relação para com o trabalho.

 

A subestimação da actividade real pedida devido à ausência de participação dos trabalhadores na análise das necessidades específicas  que deveriam acompanhar os projectos de transformação do trabalho e da sua organização. Este não levar em conta   dos novos constrangimentos ligados à mudança contribui para a degradação das condições de trabalho.

 

O gestor é mais hierárquico que  mediador. Este não constitui um apoio  hierárquico na procura de soluções  mais perto do terreno mas sim um elo na cadeia  ao serviço da aplicação de decisões estratégicas  da empresa e do controlo do respeito das prescrições e do alcançar dos objectivos estabelecidos.
A pressão do modo de avaliação e de resultados não leva em conta as singularidades das situações  na relação com o cliente; a carga de trabalho mostra  ela  um dilema entre os objectivos atribuídos que aumentam a pressão e uma actividade  real muito variável e diversificada que é sentida pelo trabalhador.

 

O relatório sublinha que a lógica de prevenção aplicada no seio da empresa  implica essencialmente a prevenção secundária privilegiando a formação à gestão da  dificuldade   ou mesmo da prevenção terciária pelo recurso à células de escuta para as pessoas em   dificuldade. O relatório lembra a necessidade de pôr  em pratica uma via de erradicação do carácter patogénico das situações de trabalho.

 

O relatório alerta igualmente para a existência de uma violência que se interioriza e que pode levar para a passagem aos actos. Esta violência é devida à fragmentação das equipas    o que por seu lado é devido ás mobilidades, esta violência é devida também á pressão dos objectivos que conduzem ao isolamento e à perda de identidade profissional. O stress no trabalho que se transformou num elemento permanente  da actividade profissional acentua os riscos de comportamentos desviantes. Estes comportamentos são conhecidos pela hierarquia uma vez que as pessoas frágeis foram identificadas.

 

A declinação sobre o território nacional da política de reorganização e de gestão

 

De 2006 a 2009, os acontecimentos produziram-se  no seio dos estabelecimentos France Télécom, repartidos por todo o território nacional, demonstrando-se assim o carácter patogénico da política de reorganização e de gestão posta em funcionamento  por France Télécom. Estes acontecimentos vão do suicídio à tentativa de suicídio passando pelos sentimento de mal-estar ou pela depressão.

 

Através do exame dos casos de suicídios, tentativas de suicídios e situações de mal-estar no trabalho, nós evidenciaremos o carácter patogénico da organização do trabalho decidida  ao nível da unidade económica e social (UES)  France Télécom  e declinada ao nível das suas  direcções territoriais  e das direcções de actividades (métiers). Nós analisaremos as medidas postas em prática peleo empregador para prevenir os efeitos nefastos da organização do trabalho  sobre os trabalhadores de France Télécom. Nós demonstraremos que a direcção de France Télécom  tinha sido alertada não somente pelos CHSCT, pelos médicos  da medicina no trabalho, como também , em certos casos, pela inspecção do trabalho.

        Excertos de Relatório enviado a sua Ex.ª o Procureur de la Republique pela Inpesctrice du travail de la section 15.A, a 4 de Fevereiro de 2010.
    

 
  

           
publicado por Luis Moreira às 20:00
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