Quinta-feira, 5 de Maio de 2011
Vencidos, quem? - Augusta Clara

(em diálogo com a Carla a propósito do artigo dela sobre a morte de Bin Laden)

 

A minha primeira sensação de perplexidade perante o texto da Carla deu-ma o título – “Vencidos”. De imediato se formou na minha cabeça a interrogação: “Vencidos, quem? A quem se referirá ela?” O título não me deu a entender uma sensação de glória vencedora – nem isso dela esperaria, um apoio à vanglória de matar dos EUA, sempre em nome da libertação duma suposta ou verdadeira tirania, mesmo quando esse direito de ingerência não é coisa que se defenda.  Mas, também, nele não intuí qualquer espécie de compungimento perante a vítima, Bin Laden, neste caso.

 

Por isso, antes dos meus olhos terem começado a descer pela página, a minha perplexidade manteve-se, conhecendo eu como conheço as suas posições políticas, a sua inteligência e o modo agudo como consegue apreender aquilo que é mais humano dentro de nós e que tão bem sabe passar ao papel.

 

Depois, li-a a falar da Ilíada sobre a honra no campo de batalha, o respeito pelo adversário, pelo vencido. E, aí, percebi. Percebi o que queria dizer e não posso estar mais de acordo com ela: seja qual for o vencido, há que dar-lhe a dignidade final que ele, muitas vezes, não deu a outros que, por sua vez derrotou.

 

Mas essa digna postura dos adversários na Guerra de Tróia terá existido mesmo ou só estava na cabeça de Homero? Bom, mesmo que tudo assim se tenha passado, nas de hoje certamente que não se passa

 

Os seres humanos evoluíram muito cientificamente. Criaram toda a parafernália de equipamentos de morte, a maior parte dos quais não lhes permite sequer verem-se para se destruírem mutuamente, julgando, assim, terem evoluído para um estadio superior… Só isto daria todo um outro debate sobre a ciência e a responsabilidade dos cientistas que ficará para outra altura.

 

Mas, voltando ao texto da Carla, a palavra “vencidos” continuava às voltas na minha cabeça. Quem são os vencidos? Claro está que a questão que não conseguia resolver não se referia a seres humanos enquanto indivíduos. Esses são vencidos em cada hora, em cada minuto, em cada segundo, por todo o mundo e com uma crueldade em nada diferente da que este acto militar usou.

 

Por isso, a minha atormentada pergunta só podia ter a ver com vencidos políticos.

 

Porque não é preciso ser-se de esquerda para se sentir uma tremenda revolta ao assistir a actos de guerra desta natureza sem a menor preocupação com os que vivem junto do alvo visado, crianças ou não. É só preciso ser-se sensível, o que já não vai sendo pouco nos tempos que correm. E, infelizmente, a nossa sensibilidade, pouco conta para a erradicação do mal humano. Temos que nos socorrer daquilo a que se convencionou chamar política. É, pois, aqui que ser de direita ou de esquerda tem que fazer a diferença.

 

Mas o problema destes vencidos, os vencidos políticos, é mais complicado e por isso a palavra da Carla deu tantas voltas na minha cabeça.

 

Esqueçamos, agora, os EUA, porque todos nós, os que somos de esquerda, mesmo com as nossas divergências, temos, quanto à ambição de expansão imperial que continuam a manifestar, e quanto às configurações que ela assume, uma convergência de opiniões. Eu, pelo menos, acredito nisso.

 

A questão dos vencidos, suscitada pelo assassinato de Bin Laden, refere-se, no meu espírito, à questão do mundo muçulmano porque essa é uma das grandes, das maiores reflexões que temos que fazer se queremos entender o mundo onde vivemos e se tivermos vontade de actuar sobre ele. E a maior parte do mundo muçulmano, mesmo considerando as suas eventuais ideias de expansão, não tem nada a ver com as formas de actuar da AlQaeda.

Os povos muçulmanos não se sentem vencidos. Atacados sim, revoltados, muito, mas acabámos de ver como continuam combativos perante os poderes que os oprimem nos vários países. A sua História não parou. Sofre, apenas, os avanços e recuos da História de todos os povos e de todos os tempos.

 

Mas aqui não incluo os fanatismos que só têm a ver com os recuos, nunca com os avanços.

 

Humanamente, a não ser em quantidade, tanto me aflige ver os tais “efeitos colaterais” dos bombardeamentos das grandes potências, como convencer jovens a fazerem explodir-se ou mulheres a serem desfiguradas com ácido, etc., etc.

 

Claro que Bin Laden e a família foram vencidos humanamente. Claro que me horroriza ver crianças aos bocados. É evidente que a guerra do Iraque, o enforcamento de Sadam Hossein, a Guerra de Gaza, tudo isso me horroriza, como me horrorizou ver vídeos em que pessoas foram decapitadas como carneiros no matadouro, por muito malvados, muito agentes da CIA que fossem. Humanamente é tudo, igualmente, horrível.

 

Ninguém que seja capaz de praticar actos desta natureza, dum lado ou do outro, pode aspirar a ser construtor duma sociedade nova, livre da canga do mal que tem assolado a humanidade.

 

Por isso mantive o silêncio. Porque ou falamos e denunciamos, todos os dias, todas as mortes e atrocidades de que temos conhecimento, ou não vale a pena só falar nas que foram praticadas com mais espectacularidade.

 

E, como isso é impraticável, em termos de saúde mental, só nos resta a luta política.

 

Daí o meu silêncio. Daí aquela palavra – vencidos – ter andado às voltas na minha cabeça. E, ainda, andar.     

 

 

 

                                         



publicado por Augusta Clara às 16:00
editado por Luis Moreira às 19:21
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7 comentários:
De adão cruz a 5 de Maio de 2011 às 22:15
Augusta, já falámos sobre isto ao telefone, antes de eu ler o teu texto. O teu texto é excelente. No entanto, a despeito de eu concordar contigo em tudo o que dizes, há pormenores que podem funcionar como detergentes na nódoa universal que são, hoje em dia, as perversas coligações assassinas e terroristas dos ditos aliados contra o terrorismo e que mais não são do que salteadores de países soberanos com o único fim de lhes roubar as suas riquezas.
Os "efeitos colaterais" dos bombardeamentos das grandes potências, a dilaceração de milhares de inocentes, o arrasamento de cidades inteiras não podem ser colocados lado a lado com o fenómeno dos que se fazem explodir por vingança, ainda que alimentada de sangue fanático. São fenómenos política, social e filosoficamente muito diferentes.
As miseráveis cenas em que os civilizadíssimos EU aparecem em todos os lados como matadores especiais e cirúrgicos ou matadores colectivos por mandato divino não podem pôr-se lado a lado com os cruéis e desumanos apedrejamentos e decapitações das primitivas leis muçulmanas. Sendo altamente reprováveis, são fenómenos completamente diferentes na sua origem, na sua brutalidade social e na sua filosofia. O terrível massacre religioso do Holocausto da Croácia com apoio do Vaticano ultrapassa todos os fanáticos assassínios de que temos conhecimento no mundo muçulmano. Todavia ninguém fala nele porque ele e a igreja fazem parte do sistema imperialista que esmaga os povos de todo o mundo com armas, mentiras, invasões e credos absurdos.
Estou convencido de que se os países ricos ditos civilizados o fossem de verdade, isto é, deixassem de ser os ladrões e parasitas do mundo, espalhassem pelo planeta a solidariedade, a doutrina de Cristo, a fraternidade, o respeito pelas soberanias e culturas dos povos, e dessem mostras, acima de todas as coisas, de empenhamento na cultura, no desnvolvimento da humanidade, na preservação deste condenado planeta, o terrorismo não existia e os "malvados" muçulmanos seriam muito diferentes.


De Augusta Clara a 5 de Maio de 2011 às 22:37
Obrigada pelo teu comentário, Adão. De facto já falámos muito sobre isto ao telefone e, no essencial, nada nos distingue.


De Carlos Loures a 6 de Maio de 2011 às 10:58
O texto da Carla, que motivou o teu, inscreve-se no campo semântico abrangido pela famosa locução latina vae victis !». Como disse, achei-o literariamente muito belo, mas politicamente demasiado contido. Este teu post permite avançar um pouco mais neste debate tão interessante e que, em boa hora, a Carla lançou. O teu texto põe em dúvida (e muito bem) se os islâmicos se consideram vencidos e se os Estados Unidos têm o direito de, pela força, impor a sua razão. Quando, há tempos, defendi aqui o direito de os muçulmanos se regerem por normas diferentes, nomeadamente quanto ao papel da mulher na sociedade islâmica, bem como aos constrangimentos sociais a que está sujeita, ninguém concordou. Eu insisto - somos capazes de nos aperceber do absurdo que representa o fanatismo islâmico, mas não nos apercebemos de que a nossa «certeza» de que o nosso modelo civilizacional lhes deve ser imposto, é igualmente absurdo. A nossa razão só é válida para nós. O teu artigo, bem como o da Carla, são excelentes e lançam uma discussão que, espero, não fique por aqui.


De Augusta Clara a 6 de Maio de 2011 às 11:40
E eu, também, Carlos. Obrigada pelo teu comentário e por lançares os repto.


De CRomualdo a 6 de Maio de 2011 às 15:30
Excelente, Augusta.
A minha proposta não era mais do que uma tentativa de exercício sobre o que significa o triunfalismo dos vencedores num contexto, onde, como tu bem lembravas, não há inocentes.
Evidentemente, a proposta poderia ser muito mais provocatória, e questionar, por exemplo, qual o papel desse fantoche do Bin Laden na enorme farsa que os EUA montaram no "9/11". Melhor deixarmos isso para outro dia...
Mas tu aprofundaste o que eu aflorava e ampliaste os caminhos que o texto inicial poderia apontar. Obrigada e um beijinho


De Augusta Clara a 6 de Maio de 2011 às 15:46
Um beijinho, Carla, obrigada. Gostava que não deixássemos (todos) morrer a discussão. Candidatos, precisam-se.


De Luis Moreira a 6 de Maio de 2011 às 15:43
Ví vídeos onde se demonstrava que a queda das torres se devia a "implosão" prgramada. Vi vídeos em que se perguntava onde estavam os restos do avião que chocou com o Pentagono. Um dos aviões foi desviado ou impedido de chegar ao seu destino?

Uma coisa não consigo esquecer, as pessoas a lançarem-se do alto das torres. Pessoas inocentes, note-se. Se matassem o Bin Laden e o Busch nem um minuto eu perdia com esta discussão.O problema é que um deles está a gozar a reforma no seu rancho. Talvez um cavalo o abata...


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