Domingo, 8 de Maio de 2011
E VAI UM... 500 Anos da Loucura de Erasmo, e Damião de Góis - Sílvio Castro

 

Sílvio Castro  500 ANOS  DA  LOUCURA  DE  ERASMO,  E  DAMIÃO  DE  GÓIS

 

(ilustração de José Magalhães)

 

 

 

 

Neste abril de 2011 trascorre o V Centenário da publicação do Elogio da Loucura, de Erasmo de Roterdão 1467-1536), um dos grandes clássicos do Renascimento europeu.

 

Na abertura da cena, assim falou a Loucura, não como um orador qualquer, mas recoberta de vestes femininas, feéricas, ainda mais no alto daquela pequena tribuna que domina o público lá embaixo:

 

“Apesar de toda e qualquer coisa que digam os homens de mim habitualmente (sei muito bem de fato como seja ruím a fama da loucura até mesmo entre os loucos), o tema que estou por expor basta suficientemente para demonstrar que sou eu quem está aqui presente. Eu aqui presente, digo, e nenhum outro, a alegrar homens e deuses com a minha potência divina. Eis a prova: não apenas me apresentei a falar nesta reunião plena de expectadores, todos os rostos improvisamente se iluminaram de uma nova e incomum alegria; haveis alçado a fronte, me haveis aplaudido com um riso amável e pleno de benevolência“.

 

A mulher multicolorida não fala como um pregador e não usa a sua pequenatribuna como um púlpito. Mas, recita palavras e conceitos aparentemente absurdos, mas que cedo tomam em mãos todo o público, homens e mulheres felizes, alegres, raptadas pela mensagem insólita – “A inteira vida dos mortais, no final das contas, o que é senão uma comédia na qual diversos atores se adiantam com máscaras diversas e recitam cada um deles a sua parte, até que o diretor não os faz deixar a cena? Muitas vezes depois faz com que se adiante a mesma pessoa maquilada diversamente, de maneira tal que aquele que antes recitara como um rei vestido de púrpura agora represente o servoem trapos. Tudofalso, certamente, mas não de outra forma se entra em cena.“

 

Assim, desconcertante, se apresentava naquele 1511 pelos tipos de uma pequena editora parisiense, a Jehan Petit, um apólogo paradoxal, Moria encomium, Erasmus declamatio. A partir de então o Renascimento europeu apresentava uma sua nova face, não mais carregada de dúvidas e ambiguidades, mas aberta a todas as invenções que a existência humana pode conhecer, desde que disponível à partipação com a Loucura.

 

O Elogio da Loucura, de Erasmo, logo se faz um clássico e passa a indicar caminhos.

 

O jovem Erasmo deseja aperfeiçoar seus estudos humanísticos na Itália. Assim, em 1506, encontra-se em Turim, onde obtém o doutorado em Teologia. Noperíodo 1505-1508 se fixa em Veneza, hóspede do grande editor Aldo Manuzio. Na Sereníssima República, Erasmo aperfeiçoa o seu grego e publica, com o amigo editor, a segunda edição das famosas Adagia, recolha e comentários de provérbios antigos, mais de três mil, alguns dos quais mais tarde desenvolvidos em tratados. Deixando Veneza, parte para Roma (1508-1509) e, em seguida, para a Inglaterra, onde se fixa mais longamente (1509-1514). Na sua demorada temporada londrina, conhece as peripécias iniciais em que cai o reinado de Henrique VIII, bem como convive em grande amizade intelectual com o humanista inglês, Thomas More. O Elogio da Loucura e a Utopia,  de More, serão os dois marcos que conduzirão os homens a um renovado espírito renascimental. De passagem, convém relembrar que o postoem que Thomas More coloca a sua utopia se localiza na costa brasileira, um pouco mais ao sul da atual Rio de Janeiro.

 

Damião de Góis, um dos máximos humanistas portugueses, soube desde logo deixar-se acativar pela Loucura. Tomado de admiração pela obra de Erasmo – além do Elogio da Loucura, igualmente, ainda que em outra direção, pelo erasmiano Ciceronianus, de 1528 – o jovem cavaleiro português, em serviços de seu Rei pelo Norte da Europa, toma os primeiros contatos com o sábio holandês em abril de 1533, com o pedido de um primeiro encontro pessoal.  Erasmo acolhe muito bem os desejos expressos por Damião de Góis. O encontro estava fixado, porém um evento exepcional impede o jovem estudioso português de imediatamente ir de encontro ao seu escolhido Mestre: tendo sido designado por D. João III, por indicação de seu amigo João de Barros para seu substituto no posto de Tesoureiro do Reino, encargo que o Cronista-Mór então deixava, Damião de Góis não pode senão regressar de imediato a Lisboa. Porém, o seu desejo de encontrar Erasmo e deixar-se guiar por ele nos seus estudos humanísticos não se arrefece. Poucos meses depois o jovem estudioso conseguiria recuperar a  meta anteriormente desejada. Antes do findar de 1533, alcança a benevolência do Rei para não continuar no honroso cargo. Podia, desta maneira, retomar a sua peregrinação cultural. (Sobre este tema, cf. S. Castro, “A Pádua de Damião de Góis e a cridse dos estudos filosóficos na Universidade patavina depois da primeira edição do Mundus Novus, de Vespucci, em 15003“, in AA.VV. Actas do “Congresso Internacional Damião de Góis na Europa do Renascimento“, Braga, 2003; igualmente, in ESSED, Rivista telematica dei Storia delle Esplorazioni e delle Scoperte Geografiche, 1 (2003), n° 1).

 

Damião de Góis soube escutar os ditos da Loucura, e assim renunciava ao poder e aos benefícios materiais, em favor dos ideiais que sempre cultivara.

 

Pelos conselhos-guias de Erasmo ele parte para Pádua e ali conquista definitivamente aqueles valores que fazem dele uma das vozes maiores do Renascimento português.

 

 

 



publicado por Augusta Clara às 21:00
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