Terça-feira, 3 de Maio de 2011

Suicídios entre os trabalhadores - É sempre outra coisa por Luis Louzã

Luís Louzã é nosso leitor e a propósito do texto do nosso companheiro Júlio Marques Mota, sobre os suicídios entre os trabalhadores da France Télécom, enviou-nos o excelente texto que publicamos em seguida:

 

Licenciado em Sociologia pela Faculdade de economia da Universidade de Coimbra em 1998,

 

Técnico de intervenção Local  nos bairros Municipais de Lisboa, Gebalis, Gestão dos Bairros de Lisboa

autor do capítulo III,  Comportamentos suicidários e modelos Sociais, - alguns pressupostos teóricos in “ Comportamentos Suicidários em Portugal ed. SPS, Lisboa,2006.

 

Aluno do curso de Mestrado, ISCTE, 2010; 2011

 

 

Autor: Luís Louzã

Liboa, 3 de Maio de 2011

Ao ler o texto  do Prof. Júlio Mota acerca das comemoração do dia do Trabalhador, 1 de Maio num actual contexto nebuloso várias reflexões me suscitou e a necessidade de reconceptualizar um tema tantas vezes obscuro, ignorado e negligenciado como o do suicídio nas sociedades modernas e desenvolvidas, o suicídio no mundo do trabalho. O tema não é novo. A História repete-se, tem os seus ciclos e com ela também os fenómenos sociais.

 

Durkheim, já em 1897 se debruçara sobre as causas deste facto num ambiente de rápida industrialização europeia e em particular da francesa. Para este autor, muito sucintamente, tal era estreitamente ligado ao estudo da divisão do Trabalho e Durkheim detectava  uma crise moral e um vazio de regras que se traduzia numa divisão forçada do trabalho.                                                                                                                            

 

Ao tipificar os vários tipos de suicídio ( egoísta, altruísta, anómico) dava enfoque a um conceito que definiu como Anomia ou seja, ausência ou desintegração social de normas, regras ou leis. A anomia, considerava, é uma das consequências patológicas da divisão do trabalho que se traduz numa carência temporária de qualquer regulação social apta a assegurar a cooperação entre funções especializadas.                                   

 

Afirmava que a sociedade está sob muitos pontos de vista em estado anómico, patológico. Havia uma desregulação moral, numa moral colectiva na sociedade europeia em particular na francesa,  afirmava .Actual esta análise? Veremos que sim:

 

Sobre o fenómeno do desemprego, estudos médicos  de meados do séc. XX nomeadamente a partir das décadas de cinquenta e sessenta demonstraram ser este um factor de risco na propensão ao acto suicida  nas camadas mais baixas da população. Origina alterações psíquicas em indivíduos mais expostos ao ciclo de desemprego.                                                                                                                                   

 

Leva muitas vezes a outros factores de risco como a miséria e o alcoolismo. O risco aumenta consideravelmente com o desemprego de longa duração no sexo masculino.                                                                                         

 

Começam também a definir os vários tipos de  comportamentos suicidários sendo que suicídio é entendido na concepção “ Durkheiminiana “ como sendo todo o caso de morte que resulta directa ou indirectamente de um acto positivo ou negativo praticado pela própria vítima, acto que a vítima sabia dever produzir este resultado; Tentativa de Suicídio, entendida como o acto levado a cabo por um indivíduo e que visa a sua morte, mas que por razões diversas não é alcançada, e por último uma inovadora conceptualização: Para-suicídio entendido este como  acto não fatal.                     

 

O indivíduo protagoniza um comportamento invulgar, sem intervenção de outrem, causando lesões a si próprio ou ingerindo uma substância em excesso com vista a conseguir modificações imediatas com o seu comportamento ou a partir de eventuais lesões físicas consequentes.                                                                                                 

 

Desta redefinição surgem na literatura psiquiátrica estudos muito interessantes que remetem para uma análise das condições sócias e económicas das populações. De 1968 e 1982, a Escola de Edimburgo verificou haver dez vezes mais incidência do desemprego nos para-suicidas do sexo masculino do que no do grupo de controle. (Platt & Kreitman). Num Estudo de Oxford, essa mesma incidência subiria de 12 a 15 vezes mais. (Hawton & Rose;1986).
 

Correlacionados também estão outros factores que os podem desencadear, como sejam, alcoolismo, consumo de drogas, lares desfeitos, saída de casa na adolescência ou psicopatologias. Estas também recaem em indivíduos que têm êxito, por ex. empresários. Stengel refere, já nos finais da década de sessenta que as taxas mais elevadas de suicídio também se situavam nas profissões liberais e nas posições dirigentes, seguidos de empresários e gestores.

 

Outra realidade que começou a ser detectada, principalmente nos países nórdicos e anglo saxónicos foi o aumento na faixa etária do 15-24 anos principalmente em indivíduos do sexo masculino. São várias as razões apontadas: Maior competição, académica e  laboral, dificuldades de manter postos de trabalho e fontes de auto estima  alternativas.                                                                                                                             

 

O estudo de Kessel, em Edimburgo  verificou em relação ao Para- suicídio, haver uma predominância de indivíduos, principalmente do sexo feminino em idade jovem ou jovens adultos oriundos de zonas de periferia das cidades, zonas degradadas e onde predominavam casas superlotadas ou de pequena dimensão. Todas estas realidades apontam para uma só causa:                                                                                                      

 

As Profundas alterações e reestruturações  sofridas no mundo da produção e do mercado de trabalho por um processo de globalização.  Consequentemente aumentou a exclusão nas classes baixas  e o afastamento de quadros técnicos em idade activa.

 

E nos dias de Hoje em relação ao Emprego e às políticas de Emprego?

 

A estratégia está muito bem montada por parte dos grandes grupos financeiros e económicos e por parte do poder político. Interessa dividir classes sociais, gerações de trabalhadores, sectores, em nome da forte rentabilidade descartam-se os recursos humanos. Aos Jovens que chegam agora ao mercado de trabalho diz-se que o estado social não comporta tantas reformas e o envelhecimento e da população. À população no activo afirma-se a oposição a jovens e  idosos.                                                                                                                                                                   

 

Aos trabalhadores do sector privado afirma-se que os da Função publica são ociosos. Aos trabalhadores dos vários sectores produtivos afirma-se a ociosidade dos sector terciário. O desmantelamento das classes médias é já um sintoma de que estas também já fazem parte de uma certa forma de “Lumpen”. Caminham a passos largos para uma vida sem esperança num presente ou num futuro.                                                              

 

São já aquilo que em Inglaterra se designa por  “hopeless”- são estes que vivem em bairros degradados, que começam a viver em bairros degradados. São estes que morrem.

 

O caso “France Telecom” é já um referencial no estudo da epidemiologia do Suicídio. Um paradigma. Mas não o único. Ignoram-se e são escamoteadas as estatísticas de Suicídio das profissões de risco ou que lidam com o risco, no limiar da vida e da morte: da classe médica, não é noticiado, dos professores, dos militares, dos agentes da polícia e muitos outros.                                                                                         

 

Em muitos destes casos estas mortes são consideradas como acidentes de trabalho ou noticiadas como tal num processo algo obscuro, nebuloso.                                                                               

 

Referência apenas para estudos americanos que apontam para uma série de suicídios em militares das tropas americanas em exercício no Iraque e no Afeganistão. Mortes que muitas das vezes são referenciadas como em combate ou tendo origem em atentados. Nada mais falso. Já há estudos sobre isso.                                                                                                                                                                                            

 

Em Portugal, tem havido, nos últimos anos um acréscimo de Suicídios entre os agentes da Polícia de Segurança Pública o que levou o Gabinete de Apoio psicológico da PSP a estabelecer um protocolo de linha de Intervenção preventiva com a SPS( Sociedade Portuguesa de Suicidologia ( ver site: www.spsuicidologia.pt)
     

No Fundo da névoa como na frase de um Poema de Herberto Helder: “ É Sempre outra coisa, uma só coisa coberta de nomes”(…) porque afinal tudo isto é um sintoma de uma Sociedade anómica.
    



publicado por Luis Moreira às 23:00
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