Sexta-feira, 6 de Maio de 2011

Lappin e Lapinova - Virginia Woolf

 

Virginia Woolf  Lappin e Lapinova

 

Tinham casado. Rebentara no ar a marcha nupcial. Os pombos esvoaçavam. Alguns rapazes com o uniforme de Eton atiraram-lhes arroz; um fox-terrier corria de um lado para o outro: e Ernest Thorburn conduziu a sua noiva até ao carro através da pequena multidão curiosa de pessoas completamente desconhecidas que se junta sempre nas ruas de Londres para desfrutar da felicidade ou da desgraça dos outros. Sem dúvida, tratava-se de um noivo elegante, e ela tinha um ar intimidado. O arroz foi atirado uma vez mais e o carro partiu.

 

Fora na terça-feira. Era agora sábado. Rosalind precisava ainda de se habituar ao facto de ser agora Mrs. Ernest Thor­burn. Talvez nunca lhe fosse possível, porém, habituar-se ao facto de ser Mrs. Ernest Qualquer Coisa, pensou ela, enquanto se sentava junto da janela larga do hotel, contemplando o lago e as montanhas, e esperava que o marido descesse para o pequeno-almoço. Era difícil uma pessoa habituar-se ao nome de Ernest. Não era de maneira nenhuma o nome que ela teria es­colhido. Teria preferido Timothy, Antony, ou Peter. O nome dele evocava coisas como o Albert Memorial, armários de mog­no, gravuras metálicas do Príncipe Consorte em família — ou, em suma, a sala de jantar da sogra em Porchester Terrace.

 

Mas ali estava ele. Graças a Deus não tinha cara de Ernest — nada mesmo. Mas teria ar de quê? Relanceou-o obliquamente por várias vezes. Bom, enquanto estava a comer aquela torra­da parecia um coelho. Não que qualquer outra pessoa fosse ca­paz de descobrir a mínima semelhança com um animal tão pe­queno e tímido naquele jovem aprumado e com bons músculos, nariz direito, olhos azuis, boca de traço firme. Mas era ainda mais engraçado por causa disso. O nariz dele franziu-se leve­mente ao trincar a torrada. Era assim que o coelho de estima­ção dela também costumava fazer noutro tempo. Ficou a olhar aquele nariz que se franzia; e depois teve de explicar, quando ele a surpreendeu a observá-lo, porque é que estava a rir.

 

«É que tu és como um coelho, Ernest», disse ela. «Como um coelho bravo», acrescentou, olhando-o de novo. «Um coelho de caça; um Rei Coelho; um coelho que faz a lei dos outros coelhos.»

 

Ernest não tinha qualquer objecção a ser um coelho de tal espécie, e como a divertia vê-lo franzir o nariz — embora ele nunca tivesse dado por que fazia semelhante coisa —, franziu-o de propósito. Ela riu uma e outra vez e ele ria também, de tal modo que as duas senhoras solteironas e o pescador e o criado suíço com o seu lustroso casaco preto, todos eles adivinharam certo: ele e ela eram muito felizes. Mas quanto tempo dura uma felicidade assim? — perguntaram-se as pessoas para consi­go: e cada uma delas respondeu de acordo com o que as suas experiências lhe lembravam.

 

À hora do almoço, sentados junto de uma moita de urze perto do lago: «Alface, coelho?» perguntou Rosalind, pegando numa folha de alface que acompanhava os ovos cozidos. «Vem cá, comer à minha mão», acrescentou ela, e ele mordiscou e provou a alface, franzindo o nariz.

 

 

«Coelho bonito, coelho bom», disse ela, acariciando-o, como costumava acariciar outrora o seu coelho de estimação. Mas ele não era, apesar de tudo, um coelho; não era um coelho. Então traduziu a palavra para francês. «Lapin», chamou-o. Mas ele era integralmente inglês — nascido em Porchester Terrace, educado em Rugby; agora advogado dos Serviços Civis de Sua Ma­jestade. Tentou, por isso, a seguir, chamar-lhe «Bunny»; mas era ainda pior. «Bunny» era uma coisa gorducha e macia e có­mica; ele era magro e decidido e sério. No entanto, franzia tam­bém o nariz. «Lappin», exclamou ela de súbito; e soltou um gritinho como se tivesse encontrado a palavra exacta que desejava.

 

«Lappin, Lappin, Rei Lappin», repetiu ela. Parecia assentar-lhe na perfeição; o nome dele não era Ernest, era Rei Lappin. Porquê? Isso não sabia.

 

Quando não tinham nada de novo de que falarem ao longo dos seus grandes passeios solitários — e ainda por cima chovia, como toda a gente previra que ia acontecer; ou quando estavam sentados junto ao lume à noite, porque estava frio, e as senho­ras solteironas e o pescador se tinham ido embora, e o criado só viria se tocassem a chamá-lo, ela deixava a sua fantasia ir criando a história da tribo Lappin. Nas suas mãos — enquanto cosia e ele lia — esta tribo tornava-se intensamente real, inten­samente viva, e cheia de graça também. Ernest poisou o livro e começou a ajudá-la. Havia coelhos negros e coelhos vermelhos; havia coelhos inimigos e coelhos amigos. Havia o bosque onde viviam e os prados em volta e a charneca. Acima de todos en­contrava-se o Rei Lappin, que, muito longe de possuir apenas aquela arte natural — de torcer o nariz —, se tornava à medida que o tempo ia correndo, um animal de nobilíssimo carácter; Rosalind estava sempre a descobrir-lhe novas qualidades. Mas era, acima de tudo, um grande caçador.

 

«E como», disse Rosalind no último dia da lua-de-mel, «pas­sou o Rei o seu dia?»

 

Na realidade, tinham andado a passear todo o dia; e ela fi­cara com uma bolha no calcanhar; mas não se importava com isso.

 

«Hoje», disse Ernest, franzindo o nariz, enquanto cortava a ponta do charuto, «o Rei caçou uma lebre». Interrompeu-se; ris­cou um fósforo, e voltou a franzir o nariz.

 

«Uma mulher lebre», acrescentou.

 

«Uma lebre branca!», exclamou Rosalind, como se fosse da­quilo que estava à espera. «Uma lebre pequena; acinzentada de prata; com os olhos brilhantes?»

 

«Sim», disse Ernest, olhando-a como ela o olhava, «um ani­mal minúsculo; com os olhos a saltarem-lhe do focinho e duas lindas patinhas da frente.» Era exactamente assim que ela esta­va sentada, com a costura segura nas mãos, e com os olhos que de tão grandes e brilhantes acabavam por ficar um pouco sa­lientes no seu rosto.

 

«Ah, Lapinova», murmurou Rosalind.

 

«É assim que ela se chama?» perguntou Ernest — «a autên­tica Rosalind?» E olhou para ela. Sentia-se intensamente apai­xonado por ela.

 

«Sim, é assim que se chama», disse Rosalind. «Lapinova». E antes de irem para a cama nessa noite, ficou tudo assente. Ele era o Rei Lappin; ela era a Rainha Lapinova. Eram o posto um do outro; ele era corajoso e determinado; ela, hesitante e inse­gura. Ele governava o mundo atarefado dos coelhos; o mundo dela era um lugar misterioso e desolado, por onde ela vagueava sobretudo durante as noites de luar. De qualquer modo, os seus territórios acabavam por se encontrar; eram Rei e Rainha.

 

Assim, quando voltaram da lua-de-mel, viram-se na posse de um mundo privado habitado apenas, exceptuada a lebre branca, por coelhos. Ninguém suspeitava da existência de se­melhante lugar, e isso, é claro que o tornava ainda mais diverti­do. Aquilo fazia-os sentirem-se, mais ainda que a maioria dos casais recentes, coligados contra o resto do mundo. Muitas ve­zes lhes acontecia fitarem-se de soslaio um ao outro quando as outras pessoas estavam a falar de coelhos e de bosques, de ar­madilhas e tiros. Ou faziam sinal por cima da mesa quando a tia Mary dizia que nunca fora capaz de olhar para uma lebre na travessa — parecia mesmo um bebé; ou quando John, o ir­mão desportista de Ernest. lhes falava do preço que os coelhos tinham atingido, nesse Outono, em Wiltshire, a como estavam as peles, e assim por diante... Por vezes, quando queriam um ajudante de caça, um caçador furtivo ou um Senhor da Man­são, divertiam-se distribuindo esses papéis por este ou aquele dos seus amigos. A mãe de Ernest, Mrs. Reginald Thorburn, por exemplo, desempenhava na perfeição o papel de Squire. Mas tudo isto era secreto — era esse o ponto essencial; nin­guém, para além deles, sabia da existência daquele mundo.

 

Sem esse mundo, perguntava Rosalind a si própria, como lhe teria sido possível viver durante aquele Inverno? Por exem­plo, tinha havido o jantar das bodas de ouro, e todos os Thorburns se reuniram em Porchester Terrace para celebrar o quinquagésimo aniversário dessa união tão cheia de bênçãos — não produziram Ernest Thorburn? — e tão fecunda — ou não era verdade também que produzira outros nove filhos e filhas, mui­tos deles já casados e também fecundos? Rosalind estava apavo­rada com a festa. Mas era inevitável. Enquanto subia as esca­das sentiu amargamente o facto de ser filha única e, ainda por cima, órfã; uma simples gota de água no meio de todos aqueles Thorburn reunidos na grande sala com papel de parede acetina­do e esplendorosos retratos de família. Os Thorburn vivos pare­ciam-se muito com os pintados naqueles retratos, só que em vez de lábios de tinta e tela tinha lábios verdadeiros, dos quais sa­íam gracejos, histórias divertidas acerca de salas de aula e de cadeiras puxadas por trás à governanta quando esta, uma vez, se ia sentar e também acerca de rãs metidas entre os lençóis vir­ginais de velhas solteironas. Mas Rosalind não se lembrava de ter sabido alguma vez o que fossem brincadeiras semelhantes. Com a sua prenda na mão, avançou em direcção à sogra, sumptuosamente coberta de seda amarela, e em direcção ao sogro, enfeitado com um cravo amarelo vivo na lapela. A toda a volta por cima das cadeiras e das mesas, havia uma profusão de tributos doirados, alguns colocados em ninhos de algodão; ou­tros erguendo-se resplandecentes — candelabros, caixas de charutos, cadeiras metálicas: tudo marcado com o contraste do ar­tista, a comprovar que se tratava de ouro autêntico. Mas o pre­sente dela era apenas uma caixinha com orifícios na tampa: uma caixa de areia para a tinta, uma relíquia do século XVIII. Um presente bastante extravagante, pressentia-o ela, na época do mata-borrão, enquanto via de novo à sua frente a pesada secretária negra a que estava sentada a sogra no dia em que tinha ficado noiva de Ernest, e a sogra dissera-lhe: «O meu fi­lho há-de fazê-la feliz.» Não, ela não era feliz. De maneira ne­nhuma era feliz. Olhou para Ernest, muito aprumado e sólido, com um nariz igual a todos os narizes daquela família nos re­tratos: um nariz que parecia nunca ter franzido.

 

(continua)

 

publicado por Augusta Clara às 19:00

editado por Luis Moreira às 20:17
link | favorito
1 comentário:
De estantes metálicas a 25 de Julho de 2011
Muito bom.

Comentar post

.Páginas

Página inicial
Editorial

.Carta aberta de Júlio Marques Mota aos líderes parlamentares

Carta aberta

.Dia de Lisboa - 24 horas inteiramente dedicadas à cidade de Lisboa

Dia de Lisboa

.Contacte-nos

estrolabio(at)gmail.com

.últ. comentários

Transcrevi este artigo n'A Viagem dos Argonautas, ...
Sou natural duma aldeia muito perto de sta Maria d...
tudo treta...nem cristovao,nem europeu nenhum desc...
Boa tarde Marcos CruzQuantos números foram editado...
Conheci hackers profissionais além da imaginação h...
Conheci hackers profissionais além da imaginação h...
Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
Eles são um conjunto sofisticado e irrestrito de h...
Esse grupo de gurus cibernéticos ajudou minha famí...

.Livros


sugestão: revista arqa #84/85

.arquivos

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

.links