Terça-feira, 3 de Maio de 2011

ESCLARECIMENTO NECESSÁRIO por António Gomes Marques

ESCLARECIMENTO NECESSÁRIO

 

Na carta que escrevi ao meu amigo e camarada Fernando Pereira Marques, publicada no «estrolabio», pode ler-se em determinado momento:

 

«…mas agora temos o «herói de Coimbra em 1969», como alguns lhe chamam, a que eu costumo acrescentar que só dele me lembro pela deslocação que depois fez a Belém para pedir perdão a Américo Tomás, …»

 

afirmação esta que, sei agora, não corresponde à verdade dos factos. Mas voltemos a 1969.

 

Aquando dos acontecimentos, estava eu em Moçambique, no cumprimento do serviço militar, acompanhando à distância o que se ia passando em Portugal, graças sobretudo às notícias que mãos amigas me faziam chegar, dado que a comunicação escrita e falada não era muito fiável, e a notícia da Crise Académica de 1969 em Coimbra não fugiu à regra. Regressado a Lisboa em Novembro de 1970, logo retomei a possível actividade política, sobretudo no desenvolvimento de actividades culturais, mas também noutras actividades clandestinas. Das muitas conversas havidas com outros companheiros, a informação acima reproduzida foi contraposta ao que eu sabia sobre a Crise Académica de 1969, que era muito pouco pelas razões acima descritas. Ao longo dos anos outras pessoas me confirmaram aquela versão e, com o 25 de Abril, a questão foi esquecida até que, nas comemorações dos 40 anos do evento, voltei a ler, na imprensa escrita, a versão que acabei por aceitar como verdadeira, sobretudo por ter ficado à espera do desmentido, o qual não aconteceu ou eu não dei por ele.

 

No passado mês de Abril tive oportunidade de abordar a questão com o Rui Namorado, que participou, como é sabido, na referida Crise Académica e que me esclareceu estar eu errado. De facto, a ida a Belém de um grupo de professores de Coimbra, conjuntamente com representantes dos estudantes (e não o Alberto Martins), foi parte de uma negociação de armistício e foi aceite pelos então estudantes da Universidade numa das Assembleias Magnas que aconteceram, de novo autorizadas, na qual os estudantes votaram as condições daquele armistício com o poder político e que implicou uma audiência com o Presidente da República. Foi, de facto, uma representação com inteira legitimidade, que ninguém parece ter contestado. Os professores falaram e a representação estudantil aceitou o que eles tinham dito. Garantiu-me o Rui que nada do essencial foi renegado, e, se tomarmos em consideração que o Ministro da Educação de então, Hermano Saraiva, foi substituído por Veiga Simão, que o reitor foi substituído por um reitor apoiado pelos estudantes (Gouveia Monteiro), que a Associação Académica foi reaberta e entregue aos estudantes, com posteriores eleições, que foram extintos todos os processos disciplinares e todos os processos-crime contra estudantes e regresso à Universidade de todos os estudantes de Coimbra que haviam sido compulsivamente incorporados no serviço militar fora do seu tempo, interrompendo-o portanto, no quadro da resposta repressiva à crise, poderemos mesmo considerar, e eu não tenho agora dúvidas em aceitá-lo, que as contrapartidas políticas foram apreciáveis.

 

Entretanto, após o esclarecimento que o Rui me proporcionou, fui à procura de mais informação, nomeadamente da que se publicou na comemoração dos 40 anos da Crise Académica de 1969, o que mais reforça em mim a convicção de que estava mal informado.

 

Claro que pode ser discutível se devia ter sido celebrado aquele armistício e eu, se tivesse participado na Crise Académica de 1969 e/ou frequentado a Universidade de Coimbra (formei-me na Universidade Clássica de Lisboa), não sei se não teria também estado de acordo com o que democraticamente acabou por ser aceite pelos estudantes que daquele movimento fizeram parte, conclusão esta que hoje baseio na informação entretanto recolhida. A maioria deles parece estar mesmo convencida de que foi tomada a decisão correcta. De facto, das muitas lutas havidas nos anos 60 nenhuma teve este sucesso, podendo mesmo considerar-se que os estudantes de Coimbra de 1969 levaram o governo fascista a pactuar e a ida a Belém não foi uma decisão pessoal de Alberto Martins, mas sim o resultado de uma decisão política assumida pelo movimento dos estudantes no seu todo.

 

Cabe-me agora pedir desculpa pelo meu erro ao Alberto Martins, aos estudantes que participaram na referida crise académica e, como não podia deixar de ser, aos leitores e colaboradores do «estrolabio».

 

Nestes últimos anos, dado o constante contacto com o Rui Namorado, poderia ter esclarecido a veracidade da informação que tinha, mas tal nunca se proporcionou, o que não deixa de constituir mais um erro da minha parte. No entanto, rectificada a informação, que não fiquem dúvidas de que continuo a ser um crítico da acção de Alberto Martins como Ministro do Governo de António Guterres e, sobretudo, como Ministro da Justiça do segundo governo de José Sócrates. Se nada tenho agora a apontar a toda a sua acção na Crise Académica de 1969, bem pelo contrário, não posso deixar de reafirmar o quanto sou crítico da sua participação como Ministro nos dois governos.

 

António Gomes Marques

Portela (Sacavém), 2011-05-02

publicado por Luis Moreira às 18:00
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3 comentários:
De Paulo Rato a 4 de Maio de 2011
Enquanto trabalhei na RDP, não têm conta as vezes que tive de contrariar informações falsas, atoardas, "certezas absolutas" postas a correr, dentro da empresa e relacionadas com a empresa ou pessoas que nela se integravam; em muitos casos, muito provavelmente (e tendo em conta o grau de absurdez que atingiam) impulsionadas por uma qualquer patologia, não sei se já estudada cientificamente ou ainda não... Têm sempre um efeito pernicioso: perturbam o conhecimento da realidade, já de si deturpada por diversíssimos canais de (in) comunicação...
Isto é, a mentira, a acusação falsa e soez, a invenção infundamentada parecem amalgamar-se intimamente na espessa e vasta "parte obscura" da imperfeitíssima natureza humana (para mim, mais uma prova de que os deuses ou não existem, ou não funcionam, o que me é indiferente...)
Quando se trata de questões ligadas à política, passa a haver uma razão - desprezível, mas razão - para a multiplicação de invenções como as descritas: há quem pense que, no confronto político, vale tudo, mesmo se o agredido de hoje for o aliado de amanhã... Exemplo que me ocorre, porque particularmente nauseante: a célebre acusação da construção de casas de banho de luxo (há muito invalidada, após inquérito) atirada pelo Carmona Rodrigues ao Manuel Maria Carrilho, na última intervenção de um debate, quando o opositor já não podia responder, dando origem a um incidente que o "jornalista" Ricardo Costa - criatura profissionalmente mui considerada no "milieu" e que, a mim, me dá vómitos - logo aproveitou para inventar um "escândalo", assaz conveniente a quem vende palha para burros disfarçada de "informação objectiva e de qualidade".
No que respeita à história (e às estórias) da resistência ao fascismo, tenho deparado, ao longo de quase 50 anos, com os mais torpes exemplos da espantosa criatividade da vileza humana.
Não me lembro de alguma vez, mesmo perante evidências aparentes, ter acreditado à primeira em qualquer afirmação que significasse um ataque ao carácter de alguém que militasse nas fileiras anti-fascistas. Durante a ditadura, por óbvias razões de segurança, indispensáveis nas circunstâncias de então, não poucas vezes me vi forçado a interromper contactos, a disfarçar opiniões, a anular planos, nalguns casos com consequências injustamente dolorosas para algumas das pessoas envolvidas: atitudes que a prudência e as normas de segurança impunham e que, se injustificadas, mais tarde procurei resolver.
Aprendi muito cedo que: a) o ser humano é, com excessiva frequência, maldoso, invejoso, mentiroso; b) o mesmo ser humano é demasiado complexo para que uma falha ou uma atitude errada baste, por si só, para avaliar alguém; c) a tal "grelha crítica" de que me farto de falar nunca, infelizmente, pode ter descanso, sendo de uso permanente e obrigatório, face a cada informação que chega, cada afirmação, cada opinião.
Ou talvez não tenha aprendido nada e, simplesmente, traga nos genes a maldição de uma racionalidade feroz, que me acompanha desde que me lembro: isto é, desde que, no solene acto da Primeira Comunhão, em que a Santa Madre Igreja nos induz a participar em idade ainda tenra, recordo não ter sido sequer roçado pelo empolgamento mais ou menos místico dos outros iniciantes; mas, pelo contrário, ter avaliado "cientificamente" e com frio distanciamento o fenómeno da deglutição da primeira hóstia, verificando que nenhuma alteração se produzira em mim e que estranha me era a exaltação - verdadeira? mimética? - dos outros infantes.
Enfim, o que é lamentável é que a memória de cada um seja tão facilmente distorcida e que, ainda hoje, teimem em subsistir coisas que um ódio inútil gerou e o tempo deveria já ter eliminado, iluminando os esconsos recantos de algumas almas empenadas...
De Augusta Clara a 4 de Maio de 2011
Louvável este texto. Merece-me o maior respeito a hombridade com que uma pessoa admite ter errado porque isso todos fazemos, mas nem todos são capazes de o admitir. Esquecem-se que isso só os enobrece em vez de os diminuir.
De Luis Moreira a 4 de Maio de 2011
E com o que diz o António e o Paulo vou já fazer as pazes com um amigo, que é boa pessoa.

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