Domingo, 8 de Maio de 2011
E VAI UM... A Cinéfila - Carla Romualdo

Carla Romualdo  A Cinéfila

 

(ilustração de Adão Cruz)

 

 

Nos grandes armazéns da rua Preciados, a um sábado pela tarde, quando caem os primeiros pingos grossos de chuva – pérolas de gelo, prenúncio da neve que cairá nuns dias mais -, nos grandes armazéns, dizia, depósito sem alma de livros e música, empilhados em quatro andares sem um único recanto onde sentar-se, cruzo-me com a mulher que um dia imaginei e que afinal existia, ou talvez tenha passado a existir nesse momento em que a pensei, talvez tenha irrompido nesse dia pelo mundo, com cinquenta anos feitos, com uma biografia, uma infância que lhe enche as molduras de fotos que terá na sala, um passado que a trouxe até aqui, a este sábado à tarde em pleno Inverno, nos grandes armazéns da rua Preciados.

 

Chamar-se-á Gloria ou Rocío ou Blanca, ou outro nome luminoso e festivo, porque seria demasiado cruel chamar-lhe Soledad.

 

Coloco-me atrás dela na caixa e espreito sem vergonha os artigos que pousa sobre o balcão, menos por coscuvilhice do que para confirmar o que já conheço, o que imaginei certo dia, longe da rua Preciados e dos seus grandes armazéns.

 

“How green was my valley”, “It’s a wonderful life”, “The magnificent Ambersons”, “Meet John Doe”. Pousa-os um por um com carinho no balcão, como se desfrutasse já da sua companhia, como se sentisse já por cada um a ternura que nos une a um velho amigo, como se de cada um conhecesse as virtudes e as manias, e tomasse ambas com o enternecimento risonho que reservamos aos que nos são muito queridos.

 

O funcionário da caixa desliza-os suavemente pelo tapete e pousa-os com cuidado após o bip do leitor de código de barras, e Rocío (porque afinal me decidi chamar-lhe assim, Rocío, orvalho, frescura da manhã) olha o rapaz com gratidão, pressente-o conhecedor desses comuns segredos que outros não vêem, por mais que se desfilem frente aos seus olhos, estende-lhe o cartão com um quase imperceptível tremor nos dedos, ele passa-o na máquina, ela digita o código, a operação desenrola-se sem uma única troca de olhares, e quando a máquina debita o seu talão, já ele guardou tudo numa bolsa de papel reciclado, agora que os sacos de plástico se fizeram malditos, e só então se olham fugazmente, murmurando um agradecimento mútuo.

 

E eu perco Rocío para sempre, mas sei, porque a conheço, que ela passará o fim-de-semana em casa, com o iogurte de meio quilo sobre os joelhos, as persianas semicerradas para que a luz não entre, e porque o mundo de fora lhe interessa cada vez menos à medida que o outro, o seu, se vai ampliando.

 

E enquanto George Bailey corre a cidade em desespero, e Rocío se encolhe no sofá, reconfortada na sua tristeza, eu penso como seria o dia de hoje na rua Preciados se Rocío nunca tivesse nascido, se não houvesse esta tarde em que coincidimos nos grandes armazéns e eu a deixei fugir para sempre sem saber que a inventei. 

 

 



publicado por Augusta Clara às 23:30
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6 comentários:
De Augusta Clara a 8 de Maio de 2011 às 23:40
E, ao fecharmos esta festa do nosso primeiro aniversário, espero que tenham ficado todos satisfeitos com a músicas e os trabalhos dos nossos artistas que vos couberam em sorte. Parabéns a todos pelos óptimos resultados deste ano.


De Luis Moreira a 9 de Maio de 2011 às 01:02
Augusta Clara que maravilha!


De Carlos Loures a 9 de Maio de 2011 às 08:49
Foi uma comemoração excelente. Parabéns à Augusta Clara e a todos os amigos do Estrolabio. Estamos a começar o segundo ano de vida deste «monstro insaciável», como disse o Pedro Godinho - Venham mais cinco (mil) posts para alimentar o bicho!


De Inês Aguiar a 9 de Maio de 2011 às 12:54

Augusta Clara, parece que o meu obrigada pelo lindíssimo
trabalho se perdeu algures entre a chegada do Luís, da China, e os diamantes e pérolas que não te posso oferecer...!
O meu obrigada em teu nome ao Luís e ao Carlos pelo que aprendi, recordei, vi e li. A ti, presença mulher, voz feminina que tão bem nos representa um abraço de gratidão.
Beijos e abraços com sotaque do Porto


De Augusta Clara a 9 de Maio de 2011 às 18:28
Desculpem-me porque hoje levantei-me tão tarde que ainda, não tinha tido tempo de vir aqui conversar. Um abraço, Inês. O teu George Harrison (escolhido por ti) deu um grande espectáculo. E aí vamos de partida para o segundo ano.


De Augusta Clara a 9 de Maio de 2011 às 19:23
Os parabéns, neste caso, são colectivos, Luís e Carlos. Mas obrigada pela vossas palavras amigas.


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