Quinta-feira, 5 de Maio de 2011

A Marca na Parede 1 - Virginia Woolf

 

Virginia Woolf  A Marca na Parede

 

 

 

(conclusão)

 

Olhada de certo ângulo, a marca na parede parece tornar-se uma saliência. Também não é perfeitamente circular. Não pos­so ter a certeza, mas parece projectar uma sombra, sugerindo que se eu percorresse a parede com o dedo, este subiria e desce­ria, num dado ponto, um pequeno túmulo, como essas eleva­ções dos South Downs que não sabemos se são tumbas ou aci­dentes do terreno. A minha preferência vai para os túmulos, são eles a minha alternativa, porque gosto da melancolia como a maioria dos ingleses, e acho natural evocar no fim de um passeio os ossos enterrados por baixo da vegetação rasteira... Deve existir algum livro a esse respeito. Algum arqueólogo deve já ter desenterrado os ossos e ter-lhes-á também posto nome...                                                                                                                                                                                         

 

Que género de homem serão esses arqueólogos, pergunto-me. Coronéis aposentados, na sua maioria, tenho a certeza, conduzindo lavradores idosos, examinando punhados de terra e algumas pedras e trocando correspondência com os padres da vizinhan­ça, cujas cartas de resposta, abertas ao pequeno-almoço, fazem os coronéis reformados sentir-se importantes, além de que as pesquisas têm ainda a vantagem de exigirem deslocações pelo condado até à cidade local, necessidade tão agradável para eles como para as suas esposas envelhecidas, que gostam de fazer doce de ameixa ou tencionam limpar o escritório e que por isso alimentam a incerteza acerca da alternativa entre campas e aci­dentes de terreno que faz sair os seus maridos, enquanto estes se sentem cheios de um prazer filosófico à medida que acumu­lam provas nos dois sentidos do debate. É verdade que o coro­nel acaba por se inclinar para a hipótese dos acidentes de terre­no; e ao deparar com alguma oposição, edita um folheto que será lido numa sessão da assembleia local, altura em que uma apoplexia o deita por terra, e os seus últimos pensamentos cons­cientes não são para a mulher ou para os filhos, mas para o campo que estava a ser discutido e para a ponta de flecha que lá se encontrou e que aparece em seguida no museu da cidade, juntamente com o sapato de uma assassina chinesa, um punha­do de pregos isabelinos, uma profusão de cachimbos de porcela­na Tudor, um vaso de cerâmica romana e o copo por onde Nel­son bebeu — tudo isto provando que nunca será realmente possível saber que histórias.

 

Não, não, nada se encontra provado, nada se sabe. E se eu me levantasse neste preciso momento e me certificasse de que a marca na parede é realmente — o quê, por exemplo? — a ca­beça de um gigantesco prego, ali colocado há duzentos anos e que, graças à erosão pacientemente provocada por várias gera­ções de criadas, deita de fora a cabeça, rompendo a camada de pintura da parede e observando as primeiras imagens da vida moderna nesta sala branca e com um fogão aceso, que ganharia com isso? — Conhecimento? Tema para posteriores especulações?

 

Posso pensar tão bem continuando sentada como se me levantasse. E o que é o conhecimento? O que são os nossos ho­mens instruídos senão os descendentes das feiticeiras e eremitas das grutas e florestas, que apanhavam plantas, interrogavam o voo do morcego e transcreviam a linguagem das estrelas? E quanto menos os honrarmos, quanto menos crédito lhes der a nossa superstição, mais o nosso respeito pela saúde e pela bele­za hão-de crescer... Sim, é-nos possível imaginar um mundo muito mais agradável. Um mundo tranquilo, espaçoso, com um sem fim de flores vermelhas e azuis nos campos sem muros. Um mundo sem professores nem especialistas nem donas de ca­sa com perfil de polícias, um mundo por onde se poderá desli­zar na companhia dos próprios pensamentos, tal como um pei­xe desliza na água que passa, tocando de leve o manto de nenú­fares da superfície, enquanto os ninhos entre as ramagens da vegetação que cobre as águas guardam os seus ovos de pássaros aquáticos... Como se está em paz aqui, ao abrigo, no centro do mundo e olhando para cima através das águas cinzentas, com os seus lampejos súbitos de luz e os seus reflexos — se não fosse o Whitaker's Almanack — se não fosse a Mesa da Presidência!

 

Preciso de me levantar daqui e de me inteirar do que será realmente aquela marca na parede — um prego, uma folha de roseira, uma racha na madeira?

 

Lá está a natureza, uma vez mais, no seu velho jogo de au­todefesa. Esta corrente de pensamento, ela deu por isso já, é ameaçadora para mim, arrasta-me para um gasto inútil de energia, talvez mesmo para algum choque com o mundo real, como é de esperar que aconteça a quem se mostra capaz de le­vantar um dedo contra a Mesa da Presidência de Whitaker. O Arcebispo de Cantuária traz atrás de si o Lorde Chanceler: o Lorde Chanceler é seguido pelo Arcebispo de York. Toda a gente vem a seguir a alguém, eis a filosofia de Whitaker; e é uma grande coisa saber-se quem segue quem. Whitaker sabe e deixemos, como a natureza recomenda, que isso nos conforte, em vez de nos enfurecer; e se não pudermos ser confortados, se temos que estragar esta hora de harmonia, pensemos então na marca na parede.

 

Compreendi o jogo da Natureza — a sua rápida exigência de actividade que ponha fim a qualquer pensamento que amea­ce de excitação ou de dor. Daí, suponho eu, a nossa pouca esti­ma pelos homens de acção — homens que, de acordo com as nossas ideias, não pensam. No entanto, não há mal em uma pessoa deter decididamente os seus pensamentos desagradáveis contemplando uma marca na parede.

 

 

Na verdade, agora que nela fixei melhor os olhos, tenho a impressão de ter lançado uma tábua ao mar; experimento uma agradável sensação de realidade, relegando imediatamente os dois arcebispos e o lorde chanceler para o mundo das sombras. Eis uma coisa definida, uma coisa real. Do mesmo modo, ao acordarmos de um pesadelo à meia-noite, apressamo-nos a acender a luz e ficamos descansados na cama, dando graças à cómoda, dando graças aos objectos sólidos em volta, dando gra­ças à realidade, ao mundo impessoal que nos rodeia e é uma prova de que algo mais existe para além de nós próprios. É isso que então precisamos de saber... A madeira é uma bela coisa para se pensar nela. Vem de uma árvore; e as árvores crescem, e nós não sabemos porque é que elas crescem. Crescem durante anos e anos, sem nos prestarem atenção, crescem nas colinas, nas florestas e à beira dos rios — tudo coisas em que é bom pensar. As vacas sacodem a cauda debaixo delas nas tardes quentes de Verão: e as suas folhas tornam os ribeiros tão verdes que se uma galinhola aparece agora, quase esperamos que as suas penas se tenham tornado verdes também. Gosto de pensar no peixe que balouça contra a corrente como as bandeiras tre­mulam ao vento; e nos insectos de água que abrem lentamente os seus túneis no fundo do regato. Gosto de pensar na própria árvore: primeiro na sensação abrigada e seca de ser madeira: depois na agitação das tempestades; depois no lento e delicioso escorrer interior da seiva. Gosto de imaginar também as noites de Inverno, ser então uma árvore de pé no campo raso cheio à volta de folhas desfeitas e caídas, sem nada em mim de vulnerá­vel que receie expor-se aos raios de aço da lua, um mastro nu cravado na terra que treme e treme durante a noite inteira. O canto dos pássaros deve parecer muito cheio de força e estranho pelo mês de Junho: e os pés dos insectos devem sentir-se frios enquanto sobem penosamente pela casca rugosa e encontram as folhas verdes que rebentam e as olham com os seus olhos ver­melhos marchetados como diamantes... Uma a uma as fibras despertam sob a imensa pressão fria da terra, e depois chega a última tempestade do ano e os ramos mais altos caem de novo no chão em redor. Mas a vida não se vai por tão pouco e há milhões de vidas pacientes por cada árvore, espalhadas por todo o mundo, em quartos de dormir, em navios, nas ruas, salas on­de homens e mulheres se sentam depois do chá e fumam os seus cigarros. Está cheia de pensamentos pacíficos, de pensa­mentos felizes, esta árvore. Gostava de pegar agora em cada um deles separadamente — mas alguma coisa vem atravessar-se no caminho... Onde ia eu? Era acerca de quê, tudo isto? Uma ár­vore? Um rio? As colinas? O Whitaker 's Almanack? Os cam­pos asfódelos? Não sou capaz de me lembrar de coisa nenhuma. Tudo se move, cai, desliza e se esvai... As ideias sublevam-se com força e fogem. Alguém aparece de pé ao meu lado e diz:

 

«Vou sair para comprar o jornal.»

 

«Sim?»

 

«Apesar de não valer a pena comprar os jornais... Não há nada de novo. A culpa é da guerra; maldita seja esta guerra!... E ainda por cima. aquela lesma na parede, que não fazia cá falta nenhuma.»

 

Ahl A marca na parede! Era uma lesma...

 

(in Virginia Woolf, A Casa Assombrada, Relógio d'Água)

 

 

 

 

 

publicado por Augusta Clara às 19:00
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