Segunda-feira, 2 de Maio de 2011

O DIA DA MÃE, APÓS O DIA DO TRABALHADOR! Ensaio crítico, por Raúl Iturra

 

 

 

 

 

 

 

Dia do Trabalhador na cidade de Mumbai, na Índia, pais, mães e filhos a lutar pela sua subsistência precária na Índia, como em Portugal.

 

 

Após onze anos de ter escrito um outro ensaio que em parte acompanha este como excerto, aconteceu um facto histórico que me parece irónico. A seguir às festas do dia do trabalhador, é comemorado o dia da mãe. Irónico! De certeza vou marchar com parte do operariado do país que tem fome, não tem trabalho, que vive uma crise económica raramente conhecida.

 

Este 1º de Maio é o protesto mudo dos que não se podem governar, porque não são governados. Sabemos que o conceito governar não se refere apenas às hierarquias nas quais o povo tem depositado a sua soberania, estendem-se ao saber usar a inteligência, aos dotes de habilidade do trabalho, na produção de bens e mercadorias. Bens e mercadorias que no nosso país alimentam o dia da mãe, as visitas dos Pontífices romanos que não solicitam mas aceitam prédios novos como sedes de adoração da divindade que, acreditam, está em todos os sítios, muito embora ninguém a veja, todos a conhecem. Uma existência infinita que pune e perdoa conforme o estado de ânimo e a forma de pensar de quem a representa. Formas de pensar denominadas pecado ou bem-aventuranças, comportamentos, que, no meu ver, como tenho escrito noutros textos, garantem a reprodução social. Quem em consequência, será essa mãe, senão esse grupo de homens e mulheres que lutam pela sua subsistência?

 

 

Não será a manifestação do próximo Sábado de Maio, a melhor forma de comemorar a mãe, ou o pai? Reparem no excerto do texto que escrevi há onze anos:

 

Querida Mamã | Raul Iturra

 

[1. Nascimento]  

 

Sou teu. Tiveste-me no teu corpo. Sou teu. Desde dentro de ti, ouvia. Ouvia e sentia. Ouvia as palavras, os murmúrios, as conversas. A água que me resguardava, regurgitava o som que nos meus ouvidos ficava. Uma música. Ouvia uma música. Não tinha voz. Era um som que me parava. E eu não mexia.

 

Dedilhado. Sereno. E sabia que havia uma voz que sempre ouvia e que em mim ficava. Sempre. Sou teu. Até pelo som dessa voz que depois soube saber que era tua: Divertida. Risonha, cristalina de brincadeiras sem palavras. E davas-me o teu peito que eu sugava. Como se depois nada mais houvesse. E deixava a fonte seca e o espaço aos berros por pedir mais. E, sabias, mais não se podia. Limitavas. Como sabias. Como os teus te tinham dito… 

Jornal a Página da Educação, 6 de Maio de 1999.

 

Se compararmos este terno texto com a realidade económica de classes sociais, desde sempre existentes que, em séculos anteriores, obrigaram o povo a levantar-se contra as hierarquias que o pretendiam governar, pode-se facilmente afirmar que as comemorações afectivas, parecem ser um desvio da vida material que atormenta o ser humano. Uma lógica idealista contra a lógica da economia que orienta a interacção social.

 

Continuemos no excerto: Para saber qual era o filho melhor, o mais bonito, o mais são, as mais silenciosas noites. O mais comilão dos comilões. O melhor abastecido de roupas, tricotadas ou adquiridas. E uma mão andava sempre pela minha cabeça, pelo meu cabelo, mão que tirava a minha mão do meu corpo, quando bebe, esfregava a mão nos meus genitais. E a mãe ria e dizia, não, ainda não. Diz. A mãe diz, eu não me lembro.

 

Mas, a mãe é a memória que me traz à memória o que eu fazia e não tinha palavras para armazenar na lembrança. Só sentia. O riso, dedilhava o sentir. E até agora fica esse riso quando eu ando a dedilhar.  

 

Um dedilhar, actualmente, que passa a ser a procura do cêntimo para juntar com outros, até atingir o necessário euro, que começa a rarear em época de crise económica.

 

Será apenas a crise económica que coordena os protestos contra a falta de trabalho? A taxa de desemprego em Portugal passa os 9.1% das pessoas activas. A política do governo é aposentar quatro pessoas e aceitar apenas uma para o mesmo trabalho. O salário mínimo foi fixado em 475€, as pensões têm sido reduzidas, o incremento salarial anual não aconteceu este ano, e o do ano anterior foi apenas de 1.5%. Outros países, como a Alemanha, entregaram à União Europeia os impostos cobrados em excesso para, assim, ajudar a Grécia.

 

Será que, ente nós, a ideia passa pelas devoluções do fisco sejam adiadas para o Estado Português usar esse dinheiro como mais-valia, lucro para o Estado e sarar a crise económica? O ano passado tive que pagar às finanças 450€ por ter gasto pouco dinheiro no meu dia-a-dia. Voz de alerta imediato para gastar em P.P.R. ou Plano Poupança Reforma, que rende dinheiro para quem os guarda, durante um determinado tempo, no Banco ou numa outra instituição de poupança.

 

Era o que se falava ontem à noite na Assembleia da República, organizar uma lei de poupança obrigatória: será retirada de todos os salários e ordenados, uma importância em concordância com as entradas mensais, para ser guardada pelo estado em nome de cada pessoa e devolvida após um certo tempo. Tempo durante o qual o Estado investiria esse dinheiro em actividades de rendimento lucrativo. Ao trabalhador, após um prazo fixo, entregar-se-lhe-ia um montante semelhante ao poupado.

 

Vê-se logo que a crise económica entontece e manda, como aconselhava Maquiavel ao seu Príncipe de Médici em 1513, como diz o livro que me orienta do Círculo de Leitores, 2008, Lisboa, em o que entende, como entende e quando entende, como gastar o pouco dinheiro que é ganho em trabalhos pesados, de longas horas de uso da força de trabalho, ou trabalhos duplos: oito horas num sítio, outras tantas, noutro. Ou, ainda, poucas horas em vários sítios de trabalho procurando onde seja melhor o ordenado.

 

É o que me faz pensar em Boris Cyrulnik, o psicanalista, que escapou à morte ao ser defendido, com quatro anos de idade, por uma senhora que disse ser sua mãe, mudando o seu apelido e o sentido da sua vida. Tinha nascido em Bordeaux em 1937, presenciara a morte da sua família e foi salvo por essa mãe. Desde aquele dia, dedica o seu tempo ao estudo de resiliência, cunhado por ele como essa inaudita capacidade de construção humana, como define no texto Les vilaines petit canards, Editions Odile Jakob, Paris, 2001, traduzido como Resiliência pelo Instituto Piaget, Lisboa, nesse mesmo ano. Os seus estudos são sobre a etologia humana ou a capacidade de lutar pela subsistência.

 

Como fazem os povos da União Europeia, que perante as crises causadas por maus investimentos de maus governos que manipulam a fantasia popular do medo aos que são a nossa hierarquia, pessoas nas que depositámos a nossa soberania, quer dizer, o poder de governar do povo, para o povo e em nome do povo. Temor que faz crescer a fantasia e escrever textos como o meu que, a determinado momento, diz: O mundo era mais complexo que bebés inteligentes, crianças sábias, amigos a brincar, raparigas a respeitar e ignorar. Para amar, tinha que ser mulher e senhora ritual, intelectual, graduada. Bonita, penteada, perfumada, servir silencioso. Como o teu. Sem mexer da cadeira de baloiço. A coordenar a casa. Ou a coordenar as casas caso não houvesse outra possibilidade que a entreajuda.  

 

Mãe, querias que eu estudasse. Estudava. Mas aprendia a fazer chantagem: eu leio se a Lúcia vier a casa. E a Lúcia ia para trás das cortinas e era por mim agarrada, por mim a depositar os milhões de beijos guardados na memória da infância. E a Lúcia ia e eu aprendia. Mil coisas. Da cabeça e do corpo. Até a Lúcia desaparecer.

 

Um poema, que a crise económica que nos assusta, ao ser manipulada pela nossa soberania, nos faz poupar o cêntimo. Deixa-nos na solidão, obriga-nos a considerar a todos os nossos iguais, como pais ou como mães.

 

Amanhã vou desfilar com as centrais sindicais e puxar o medo da crise fabricada pela hierarquia governamental, para a instilar dentro dela. Seremos todos pais e mães a defender os nossos direitos sobre a definição da economia que nos deve governar. O dia do trabalhador é o dia da mãe e do pai, acompanhados pelos seus filhos, para saberem reconstruir-se desde muito novos dos que pretendem governar as nossas vidas. E não conseguem. Como cantava Zeca Afonso: Grândola, Vila Morena, terra da fraternidade, o povo é quem mais ordena, dentro de ti ó cidade…. E assim foi que a liberdade que procuramos, nasceu…. E deve continuar a crescer, até varrer com os que gastam o nosso dinheiro em novas e luxuosas Catedrais para Papas Romanos que são convidados e comemorados como pessoas de bem.

 

As pessoas de bem, o povo, devem continuar a morar em bairros de lata? A terem duplos e triplos trabalhos para subsistir? Obrigadas a poupar, queiram ou não, para o Estado enriquecer? O dia do trabalhador, a seguir o dia da mãe … e não no mesmo dia….

 

O que no meu romantismo sem sindicato, me fez escrever o texto referido, que também diz, sem pensar no assunto como falso amor de falsa economia:

 

Porquê, mãe, que sabias tu da liberdade feminina, da opção feminina, da autonomia feminina? Não era a mulher a serva do marido, como Sara de Jacob, como Maria de José e, ainda, Maria de Jesus o seu filho mítico, Raquel de Abraham? E a Judite, servidora do seu povo? E a tua Teresa de Ávila, sábia para o seu povo? E a Madame Curie, companheira sobrevivente do sábio do radium? Sabia ela também? E as mulheres tuas descendentes, da tua geração descendente, empresas autónomas que partilham a vida com o seu hoje companheiro? Como ias tu explicar o que nunca soubeste nem ver nem fazer? Mãe, porquê recuperar a força autónoma quando o pai já não pode mexer? Como sobrevives ao teu objectivo de vida? Ao teu definido objectivo de vida? Ao teu público objectivo de vida? Querias que nós homens, casássemos com senhoras, Senhoras.

 

Com senhoras de genealogias. Com senhoras graduadas. Querias que tivéssemos senhoras autónomas como as nossas silenciosas escravas?  

 

E as mulheres do povo, não são senhoras, Senhoras, em imensa quantidade, todas elas mães? A lei deve mudar e vamos usar a nossa resiliência para assim acontecer….

 

Vivam as mães trabalhadoras! Comemoradas no dia do trabalhador.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado por João Machado às 14:00
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