Segunda-feira, 2 de Maio de 2011

O mundo do trabalho no capitalismo moderno, na economia financeirizada por Julio Marques Mota

O mundo do trabalho no capitalismo moderno, na economia financeirizada

Introdução

Dia 1 de Maio, dia dos Trabalhadores

 

Para este dia, uma nota simples. Um trabalhador suicidou-se, imolou-se em França. Drama, é certo, mas que a imprensa podia colocar ou tratar como um fait-divers, como o faz muitas das vezes. Mas este suicídio, segue-se a outros 17 suicídios mais, em 2010, e estes sucedem-se também a outros 35 mais, nos anos anteriores, e na mesma empresa.

 

Uma célula de apoio psicológico terá sido criada pela France Télécom, quarto operador mundial nas Telecomunicações mas mais uma vez a memória impõe-se-me, traz-me à frente do ecrã do meu computador  imagens de um outro continente e de há um ano, apenas. Lembrei-me de que no quadro de uma iniciativa da Faculdade de Economia de Coimbra fizemos uma sessão especial com um filme bem especial, The last Train, sobre as migrações na China. Organizámos um caderno de textos de apoio sobre os trabalhadores na China. Mais um caderno, diremos. Neste caso, com a particularidade de nessa sessão publicarmos um grande texto sobre as características do capitalismo moderno sob o regime da financeirização da economia e assente num regime caracterizado por um duro capitalismo de Estado e caracterizado também pela  inexistência de sindicatos capazes de agir na defesa dos trabalhadores.                                                                                                                                                        

 

Neste texto analisava-se as condições de trabalho numa das maiores empresas fabris mundiais, com globalmente mais de um milhão de trabalhadores, a trabalhar quase que exclusivamente para o Ocidente desindustrializado, e por isso mesmo, mas com margens brutas de lucro na ordem apenas dos 4 a 5 por cento. E esse exemplo, era uma das fábricas Foxconn e o texto de referência era  uma análise detalhada das condições oferecidas ou impostas aos jovens chineses que para nós, consumidores no Ocidente, produzem dos melhores computadores, que para nós produzem os I PAD’s, os IPOD’s, e para as multinacionais ocidentais geram assim os lucros mirabolantes.                                                           

 

Lembrei-me que também há um ano que nesta empresa, de grande dimensão em que algumas das suas unidades fabris comportam 300.000 operários, também aqui os suicídios se deram em série, também aqui  unidades psicológicas de apoio foram criadas e de urgência. Lembro-me bem que se tratava de jovens, muito jovens mesmo, e tenho ainda na retina e no ouvido também, agora que estas linhas escrevo, as palavras cheias de comoção de um estudante, Dino Alves de certeza, que daqui saúdo, que nos explicava a todos nós, com o Gil Vivente quase completamente cheio, como o texto que tinha ajudado a traduzir o tinha comovido e o tinha ajudado a perceber o absurdo dos fundamentos desta globalização.          

 

Ensinou-o a ele e a mim também. Mas tenho também sobre os meus olhos  a dureza do texto comentário do meu amigo Flávio, igual a tantos outros Flávio por esta Europa fora, vitimas que são da incapacidade ou da desonestidade de um conjunto de dirigentes que à lógica exclusiva dos mercados financeiros se submeteram ou a ela se venderam, ou até a ela não sequer se  venderam porque dela são já eles mesmo um produto e dela  são assim parte integrante.

 

Cremos mesmo que os suicídios de um lado e do outro correspondem às duas faces da mesma moeda, são o resultado da violência do capitalismo moderno onde todos os mecanismos de pressão e de exploração estão disponíveis e utilizáveis, onde a rentabilidade máxima e de curto prazo domina sobre todos os outros objectivos possíveis ou desejáveis, e em que a Ocidente se dispõe de técnicas ultra-refinadas de manipulação, como a gestão da crise o mostra à evidência, e a Oriente se dispõe da força brutal que a falta de democracia lhes pode conferir, sendo agora certo que quer a Ocidente e a Oriente, de um lado e de outro, surge ainda a precariedade como elemento comum a ambos, como arma quase absoluta de manipulação e, sobretudo, de contenção das lutas dos trabalhadores.                                                                                                              

 

Não é por acaso que se dão os suicídios em série na France Télécom e não é por acaso que eles se dão igualmente na China e não é ainda por acaso também que para este longo texto sobre a China lhe foi dado como título Os suicídios como protesto para as novas gerações de trabalhadores migrantes chineses: Foxconn, Capital Global e o Estado. Mas a luta de classes não pode ser isto, mesmo que transitoriamente possa estar a ser isto e é nesta distância que se pode compreender o longo trabalho que pelos sindicatos haverá agora a percorrer, o que na linguagem de Marx poderíamos dizer que este trabalho sindical se insere na longa e dura passagem do em-si da classe operária à enorme força do para-si que a mesma classe terá que assumir face à sofisticação dos mecanismos de pressão pelos Estados modernos exercidos . Retomemos o texto editado na Faculdade de Economia relativamente a este tema:

 “Como se assinala no caderno de textos de apoio: “As zonas recém-industrializadas e as cidades na China apresentam numerosos dormitórios colectivos, onde um prédio de cinco andares pode albergar várias centenas de trabalhadores. Nas noites ventosas, as roupas dos trabalhadores, nos corredores do dormitório, esvoaçam como as bandeiras coloridas das multinacionais nos mastros. Estas e essas bandeiras são as bandeiras da nova classe de trabalhadores da China, simbolizando o fluxo de capital sem fronteiras e a miséria na terra socialista”.                                               

 

Bandeiras espalhadas por todo um grande país, a China, bandeiras que assinalam também o sacrifício de uma geração em que os seus anos de juventude como trabalhadores “são completamente queimados com o ritmo das máquinas, à medida que as suas peças e componentes vão funcionando, à medida que estas vão trabalhando. Os tempos livres e até mesmo as próprias vidas nisso são sacrificadas”. É neste contexto que se pode perceber um texto de um blogo de um operário chinês: “A morte serve apenas para certificar que estivemos vivos, sem dúvida, e que foi apenas no desespero que sempre vivemos.”

publicado por Luis Moreira às 20:00
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