Segunda-feira, 2 de Maio de 2011

POEMABRIL - MEMÓRIA E DESENCANTO DA «REVOLUÇÃO DOS CRAVOS» - 2 - por Manuel Simões

 

(Continuação)

 

2.

 

Com a involução política que viria a controlar o processo revolucionário, «as ilusões pacifistas que percorreram o movimento popular, a sua subordinação ao MFA, permitiram a vitória fácil do 25 de Novembro [...] que reprime o movimento popular e o movimento dos soldados, ameaças demasiado evidentes à 'transição pacífica para o socialismo'».[1]

 

Não é o único militar, dos que intervieram activamente no derrubar de uma ditadura obsoleta que durava desde 1926, a interrogar-se sobre o desvio da História iniciada em 25 de Abril de 1974. Também Cruz Oliveira, já no décimo aniversário desta efeméride, recorda a explosão dos cravos vermelhos, o canto à liberdade, o sonho de um viver fraterno, tudo imagens que pertencem à semântica da utopia: «o mito é o nada que é tudo», como radicalmente já foi expresso por Fernando Pessoa. Mas dez anos volvidos, Cruz Oliveira assume a frustração e denuncia as armadilhas duma aparente dialéctica que minava um projecto posto em marcha para o reconduzir às vias da normalidade: «Mas não esquecemos a traição, não esquecemos a vilania, a trapaça, a inveja, o reaccionarismo mascarado, a desestabilização, o bombismo. Não esquecemos as várias acções contra-revolucionárias até ao 25 de Novembro, e as prisões de Custóias, Santarém e Caxias […] - Que democracia é esta? - Onde pára a nossa Revolução, feita para restituir a dignidade ao nosso País e às Forças Armadas? - Camaradas Capitães de Abril, onde iremos parar?».[2]

 

Dez anos após o florir dos cravos, o sentimento dominante era, como se vê, de desencanto e de perplexidade perante o progressivo e programado esquecimento, com a transformação do dinamismo revolucionário numa efeméride indesejável que quase não se celebrava, nem sequer uma vez por ano. Por isso, foi numa perspectiva de resistência que nasceu a ideia da antologia poética Poemabril,[3] como resulta explicitamente da "nota prévia" dos coordenadores: «Porque nos recusamos a aceitar que o 25 de Abril seja, no futuro, apenas nome de pracetas suburbanas, porque a pedra dos nossos monumentos é a palavra, e ainda porque fomos protagonistas dessa gloriosa e inesquecível data, quisemos deixar o nosso testemunho, reunindo estes poemas e estes depoimentos como homenagem a quantos tornaram possíveis esses dias e meses que, quer se queira ou não, abalaram definitivamente o nosso mundo. Os textos são, de qualquer modo, indicadores do património acumulado; das perguntas, ideias, vontade de saber, de participar e cantar aquele grande 'facto' colectivo».[4]

 

A antologia veria uma 2ª. ed. no 20° aniversário do acontecimento, recuperando textos e nomes ausentes da primeira e evocando de modo particular a memória de José Afonso, com a «homenagem ao grande dinamizador cultural, ao compositor, ao cantor por antonomásia do espírito que desencadeou o 25 de Abril, de que se tornou por direito seu símbolo privilegiado».[5] E sobre a funcionalidade textual da nova edição, afirmam ainda os responsáveis: «Vinte anos decorridos sobre aquela madrugada de muitas promessas, a palavra dos poetas volta a testemunhar o encontro de vozes, necessariamente diversas mas consonantes na sua essencialidade: a recusa do silêncio e a legítima reapropriação de um acontecimento que se tornou, pela sua força explosiva, matéria poética e metáfora da utopia que preencheu o sonho do Homem».[6]

 

A primeira edição de Poemabril inclui cinco depoimentos de outros tantos "Capitães de Abril" e composições poéticas de 62 autores, muitas delas inéditas, escritas talvez como impulso criador após uma espécie de "convocação geral" ou "aviso à navegação" posto a circular pelos coordenadores. A segunda edição publica os mesmos depoimentos e recupera poemas ausentes da primeira, na tentativa de colmatar algumas lacunas injustas, e, como entre uma e outra intercorre um espaço de tempo significativo, foi possível inserir na segunda textos produzidos ou publicados depois de 1984, totalizando, desta maneira, um elevado número de poetas (73) sensíveis ao tema da revolução de Abril de 1974.



            [1] Mário Tomé, "Porque murcharam os cravos”, in Poemabril, Antologia Poética, Depoimentos de alguns Capitães de Abril e poemas de poetas portugueses no 20°, aniversário do 25 de Abril, Coordenação, nota prévia e nota à segunda edição de Carlos Loures e Manuel Simões, Coimbra, Fora do Texto, 2ª, ed. 1994, p. 33.

                [2] C. Oliveira, “Lembram-se?”, ibidem, p. 17.

            [3] Poemabril, Antologia poética. Depoimentos de alguns "Capitães de Abril" e poemas de poetas portugueses no 10º Aniversário do 25 de Abril. Coordenação e nota prévia de C. Loures e M. Simões, Tomar, Nova Realidade, 1984.

                [4] Ibidem, p. 7.

                [5] C. Loures, M. Simões, Nota à segunda edição, cit., p. 12.

                [6] Ibidem, p. 11.

 

(Continua)

 

 

 

 

publicado por Carlos Loures às 12:00
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