Quinta-feira, 22 de Julho de 2010

Duas canções urbanas - o fado e o tango – continuemos a divagar

Carlos Loures

Em Abril de 1982, assisti na Gulbenkian à exibição de «Cinco Tangos», executada pelo grupo de Ballet da Fundação. A música era de Astor Piazzolla, o grande compositor argentino, mago do bandoneón. Mostro aqui , mais abaixo, um vídeo da mesma peça interpretada pela Companhia Nacional de Bailado. Lindíssima a música de Piazzolla e muito boa a interpretação.

Várias vozes se fizeram na altura ouvir, chamando a atenção das afinidades entre o tango e o fado. Entre elas a de Jorge Luis Borges, num texto que não o consegui encontrar, embora saiba que foi publicado num suplemento do DN num domingo de há muitos anos.

Nessa crónica anterior, focava o fenómeno da canção urbana, falando das tais similitudes entre o fado e o tango. Quando recordava o pouco que se sabe sobre as obscuras origens da chamada «canção nacional», sugeri entre as hipóteses que os especialistas têm vindo a explorar, aquela que é a mais comummente aceite – a de que o fado nos chegou nos barcos de torna-viagem que trouxeram de regresso a corte de D. João VI que, durante as invasões francesas, esteve refugiada no Rio de Janeiro, para ali tendo transferido a capital do reino.







Recapitulando: segundo essa teoria, o fado teria sido criado a partir de uma dança muito popular no Brasil (no início do século XIX), dança em que se misturavam elementos de danças populares portuguesas e de outras trazidas de Angola pelos escravos. Era um bailado que podia ser acompanhado de canto e a que as gentes chamavam «fado». Já em Portugal, este fado brasileiro e o lundum, foram-se mutuamente influenciando até se fundirem, dando lugar àquilo que veio a ser a canção nacional.

Foi um fenómeno explosivo, rápido que, como um incêndio de Verão, viajou da corte aos bairros populares e a partir destes se espalhou por todo o País. Hoje, o fado já não é lisboeta, canta-se, e muito bem, no Porto (de onde têm vindo excelentes intérpretes, como a magnífica Maria da Fé), no Ribatejo, onde adquiriu ritmo e sonoridade própria que, quanto a mim, leigo no assunto, nada tem a ver com o fado. Terá desencadeado o fenómeno do fado coimbrão, mais ligado à música beirã. Também nada tem a ver com o fado de que tenho estado a falar.

É a canção nacional. Chama-se fado, fatum, destino… Começou nos saraus do Palácio de Queluz, viajou para as alfurjas, lupanares e tabernas da Mouraria, e agora com uma nova estirpe de cantores e cantoras aristocratas parece querer voltar aos salões. O curioso é que no princípio do século XX, antes de ter completado cem anos, já o fado era considerado uma canção tradicional. A «tradição» dos touros de morte em Barrancos tem cerca de oitenta anos e essa barbaridade é defendida nessa base – é uma herança cultural do povo barranquenho. Estranho país o nosso, fundado há quase nove séculos e onde as falsas tradições pegam de estaca em duas ou três gerações. É melhor não falar de tourada e continuar com o fado. Voltemos às suas origens.

Estava a falar do lundum, ou lundu. Há quem defenda que a sua proveniência é da África Ocidental e que teria chegado a Portugal, vindo de Cabo Verde, com as primeiras levas de escravos, ainda no século XV. Há a tal tese, mais difundida, da proveniência angolana. Indiscutível é a mistura de ritmos e cadências africanas e europeias, integrando os ritmos ibéricos, jotas, fandangos, e corridinhos, com o estalar de dedos a marcar compassos.
Como exemplo, deixo uma excelente interpretação de Edu Miranda e do seu trio na execução de um fado em ritmo tropical. Como podemos apreciar, não existe qualquer espécie de incompatibilidade. Será que o fado original seria (mais ou menos) assim?



Pergunto a quem sabe, se mornas, coladeras, fado, samba, lundum, maxixe, não terão origens comuns. De notar que, nesta matéria, só faço perguntas. Não estou a ensinar, estou a tentar aprender. Mensagens que meto em garrafas e atiro ao oceano da blogosfera – quem sabe se um especialista, um dia, não dará resposta a estas questões?

Não esqueçamos que estou a equacionar afinidades entre fado e tango, de uma forma algo caótica, ao correr do pensamento. Vamos ouvir e ver um vídeo, uma tentativa de fusão de tango e de fado, interpretada por Beatriz Ayas e pelos Portubayres. É um tema curioso, este o da similitude entre dois tipos de música urbana – a portuguesa e a argentino-uruguaia. Não ficarei por aqui.

publicado por Carlos Loures às 12:00
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4 comentários:
De Luis Moreira a 22 de Julho de 2010
Eu quando ouço a música africana,principalmente a de cabo verde,não tenho dúvidas nenhumas.aquela canção "saudade" cantada pela Cesária é um fado em estado puro e é totalmente original de Cabo Verde.
De Sales a 22 de Julho de 2010
Ó Carlos, se há duas músicas que gosto é do tango e do fado. Dos teus artigos também mas não pertencem ao escalão anterior. Fizeste-me passar um excelente bocado do meu serão com o que li e o que ouvi. Delicioso.
De carlos loures a 22 de Julho de 2010
São divagações que tenciono continuar. Amanhã abro um parêntesis para apresentar o Gardel num tango muito interessante - foca o tema da nossa últim,a conversa: a dos "amigos" que quando caímos em desgraça desaparecem. Peço a tua atenção para a letra que ouvida, em argot porteño, é difícil, mas que lida se tira pelo sentido. Hei-de abrir outro parêntesis para o fado. Com quem? Com quem havia de ser? Com a Amália, claro. Ando à procura de um fado que compita em autenticidade e pungência com o "Yira!Yira" do Gardel.
De Luis Moreira a 23 de Julho de 2010
Tenho aí "um tango" ouvido de um Argentino, homem de teatro.

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