Quinta-feira, 14 de Abril de 2011

O Beijo - Anton Tchekhov

Anton Tchekhov  O Beijo

 (tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra)

 

 

                                               Anton Tchekhov nasceu em 1860, na cidade de Taganrog, no Sul da Rússia.

                                                Morreu aos quarenta e quatro anos, no fim de catorze anos de tuberculose.

                                        Formou-se em Medicina em Moscovo, sustentando ao mesmo tempo a família - pais e

                                                cinco irmãos - com a publicação de numerosos contos humorísticos para jornais

                                                    e revistas. Logo em 1887 ganhou o Prémio Pushkhin da Academia Russa

                                                          e grande popularidade com a sua segunda antologia de contos.

                                                    Hoje mais conhecido como autor de peças de teatro tão marcantes como

                                                    "As Três Irmãs "ou o Tio Vânia", obras da última parte da sua vida breve,

                                                  Anton Tchekhov foi um dos contistas mais inovadores e influentes de sempre.

                                       Algumas das suas reflexões sobre o conto, dispersas por cartas e comentários, antecipam de

                                             várias décadas o que é hoje relativamente do domínio comum neste género literário.

                                                           "O beijo", publicado em 1887, é um dos seus primeiros contos.

 

 

 

 

Às oito da noite do dia vinte de Maio, as seis baterias da brigada de artilharia de reserva N., em marcha para o acam­pamento, fizeram alto para pernoitar na aldeia de Mestétchki. No auge da barafunda, enquanto uns oficiais se atarefavam em volta dos canhões e outros, na praça, num magote encostado à cerca da igreja, se entendiam com o quartel-mestre sobre o aboletamento, surgiu por trás da igreja um cavaleiro à civil montado num cavalo invulgar. Era um baio malhado, pequeno e raboto, de pescoço lindo, que não andava a direito, mas ladeava em passinhos curtos de dança como se estivessem a chicotear-lhe as pernas. Chegado ao pé dos oficiais, o cavaleiro ergueu o chapéu e disse:

 

- Sua Senhoria o tenente-general e proprietário von Rabbeck manda convidar os senhores oficiais para tomarem chá lá em casa, agora mesmo...

 

O cavalo fez uma vénia, dançou e recuou ladeando; o cavaleiro voltou a erguer o chapéu e, num instante, desapareceu mais o cavalo por trás da igreja.

 

- Raios o partam - resmungava-se entre os oficiais, que se puseram a caminho dos alojamentos. - Apetece é dormir, e vem este von Rabbeck com o chá dele! Já se sabe que rico chá vai ser!

 

Todos os oficiais das seis baterias recordavam nitida­mente um caso do ano passado, durante as manobras, em que eles, juntamente com os oficiais de um regimento de cossacos, tinham sido convidados da mesma maneira para o chá, por um conde, também proprietário rural e militar na reserva; o conde fora hospitaleiro e simpático, serviu-lhes o jantar e bebidas e não os deixou ir para onde estavam aboletados, fê-los dormir em sua casa. Tudo bem, até óptimo, não fora o homem ter-se, infelizmente, alegrado de mais com a visita dos jovens. Toda a noite falou, até ao amanhecer contou à rapaziada os episódios do seu belo passado, passeou-os pelos aposentos, mostrou-lhes telas caras, gravuras antigas, armas raras, leu-lhes cartas que personalidades altamente colocadas lhe tinham endereçado, e os oficiais extenuados ouviam, olhavam e, na ânsia de uma cama, bocejavam à socapa nas mangas; quando, finalmente, o anfitrião os largou já não eram horas de dormir.

 

Não será igual, este Rabbeck? Seja ou não seja, nada a fazer. Os oficiais mudaram de roupa, aprontaram-se e foram em bando à procura do solar do Rabbeck. Na praça, perto da igreja, tinham-lhes dito que se podia chegar à propriedade por dois caminhos: o de baixo - descer, por trás da igreja, até ao rio, marginá-lo até ao parque e, do parque, qualquer alameda os levava ao destino; o de cima - a partir da igreja, seguir a direito pelo caminho que, uns quinhentos metros mais à frente, dava para os celeiros da propriedade. Escolheram o de cima.

 

- Que Rabbeck será este? - cogitavam alto enquanto andavam. - Não é o que comandou em Plevna a divisão de cava­laria N.?

 

- Não, esse não era von Rabbeck, era simplesmente Rabbe, sem von.

 

- Mas que rico tempo está!

 

Junto do primeiro celeiro da propriedade, o caminho bifurcava-se: um ramal seguia em frente e perdia-se na bruma do crepúsculo; o outro metia para a direita, até à casa senhorial. Os oficiais viraram à direita e começaram a falar mais baixo... De ambos os lados do caminho erguiam-se celeiros e mais celeiros de pedra com telhados vermelhos, pesados e severos, um pouco como casernas de cidade de província. Em frente luziam as janelas do solar.

 

- Meus senhores, bom sinal! - informou um dos oficiais. - O nosso "setter" vai à frente: fareja caça...

 

O tenente Lobitko, à frente de todos, alto e forte mas imberbe (passava dos vinte e cinco e não se lhe via um único pêlo na cara redonda e cevada), famoso na brigada pelo seu faro e capacidade de adivinhar à distância a presença de mulheres, virou-se e disse:

 

- Sim, há mulherio para estes lados, o meu instinto sente-o.

 

À porta de casa, foram recebidos pelo próprio von Rabbeck. Andaria pelos sessenta anos, bem apessoado, trajando à paisana. Enquanto apertava as mãos aos convidados, ia di­zendo que estava feliz e contente, mas pedia encarecidamente aos senhores oficiais, por amor de Deus, que lhe perdoassem por não os ter convidado a pernoitar lá em casa; é que tinham che­gado de visita duas irmãs com os filhos, mais uns irmãos e uns vizinhos, não tinha um único quarto livre.

 

Pedia muitas desculpas, apertava as mãos de todos e sorria, mas via-se-lhe pela cara que estava, de longe, menos con­tente com a visita do que o conde do ano transacto e que só convidara os oficiais porque as conveniências assim o exigiam. Os oficiais sentiam-no ao subirem a escadaria atapetada e, à vista da criadagem em roda-viva a acender as luzes em baixo, à entrada, e em cima, no vestíbulo, começou a parecer-lhes que estavam ali só porque seria indelicado não os convidarem e que introduziam naquela casa um incómodo e uma inquietação. Numa casa em que, por um fausto de família qualquer, se reuniam duas irmãs com os filhos, e mais uns irmãos e uns vizinhos, alguma vez agradaria a invasão de dezanove oficiais desconhecidos?

 

Em cima, à entrada da sala, os convidados foram re­cebidos por uma matrona de idade, alta e esbelta, rosto para o comprido e sobrancelhas negras, muito parecida com a imperatriz Eugenia1. Sorrindo com simpatia e majestade, dizia-se feliz e contentíssima por receber os senhores em sua casa e pedia muita desculpa por ela e o marido não poderem mesmo convidar os senhores oficiais a pernoitarem. Pelo sorriso belo e majestoso, mas fugaz logo que desviava deles o carão por qualquer motivo, via-se que já na vida lhe tinham passado pelos salões muitos senhores oficiais mas que agora não estava de alma para isso e só estavam por detrás do convite meras exi­gências de educação e sociedade.

 

Na enorme sala de jantar para onde entraram os ofi­ciais, numa ponta da mesa compridíssima tomavam chá, entre novos e velhos, senhoras e cavalheiros, umas dez pessoas. Por trás das cadeiras em que se sentavam, enevoava-se no fumo leve dos charutos um grupo de homens; entre eles, um jovem magricela de suíças ruivas, rolando os erres e falando alto, em inglês. Por trás do grupo vislumbrava-se, através da porta, o clarão de um quarto mobilado em azul-claro.

 

- Meus senhores, são tantos que não há meio de eu fazer as apresentações! - disse o general erguendo a voz e tentando mostrar-se folgazão. - Vamos lá, apresentem-se uns aos outros, meus senhores, sem cerimónias!

 

Os oficiais - uns de cara muito séria, até severa, outros com sorrisos forçados, e todos sem dúvida pouco à vontade -multiplicaram-se em vénias, atabalhoadamente, e sentaram-se para o chá.

 

O mais embaraçado de todos era o capitão Riabóvitch, um oficial de óculos, pequenino e amarrecado, com umas suíças que lhe davam um ar de lince. Enquanto os companheiros manti­nham as caras sérias, uns, e os sorrisos forçados, outros, o rosto dele, as suíças de lince e os óculos como que diziam: «Sou o oficial mais tímido, o mais modesto e o mais cinzentão de toda a brigada!» A princípio, ao entrar na sala, ao abancar e ao começar a tomar o chá, não conseguia fixar-se num rosto, num objecto. Caras, vestidos, frascos de cristal talhado com conhaque, o vapor dos copos, cornijas - tudo se lhe fundia numa impressão única e enorme que dava a Riabóvitch a inquietação e o desejo de me­ter a cabeça num buraco. Tal o homem que declama pela primeira vez em público e vê tudo o que está à sua frente mas não percebe o que vê (é a «cegueira psíquica» dos fisiologistas, em que o indivíduo vê mas não distingue). Com o correr do tempo, Ria­bóvitch adaptou-se, recuperou a vista e pôs-se a observar tudo. Saltou-lhe logo aos olhos, a ele, homem bisonho e pouco sociável, aquilo que nunca teve, ou seja, a extraordinária audácia dos recém-conhecidos. Von Rabbeck, a mulher, duas senhoras de idade, uma menina de vestido lilás e o jovem das suíças ruivas, afinal o filho mais novo de Rabbeck, instalaram-se com muita habilidade entre os oficiais, como se tivessem combinado, e desencadearam imediatamente uma discussão ardente em que os convidados não podiam deixar de entrar. A menina lilás começou a defender com veemência que o pessoal de artilharia tinha uma vida muito mais fácil do que o de cavalaria e de infantaria; Rabbeck, com as senhoras idosas do seu lado, argumentava que não. Entrecruzou-se a conversa, e Riabóvitch via a menina lilás a defender com ardor uma coisa nitidamente estranha e sem interesse para ela; olhava e via a aparecerem e a sumirem-se da cara os sorrisos insinceros da menina.

 

Von Rabbeck e família arrastavam com habilidade os oficiais para a discussão, vigiando-lhes simultânea e atentamente os copos e as bocas: se todos tinham chá, se comiam doces, por que não tocava aquele nos biscoitos e não bebia conhaque aqueloutro. Quanto mais Riabóvitch olhava e ouvia, mais lhe agradava aquela família pouco sincera mas extraordinariamente disciplinada.

 

Depois do chá, os oficiais passaram para o salão grande. O faro não enganara o tenente Lobitko: o recinto estava pejado de raparigas e de senhoras jovens. O tenente "setter" já estava ao lado de uma loira muito novinha de vestido preto e, arqueando-se com audácia, como apoiado num sabre invisível, sorria e dava garridamente de ombros. Pelos vistos dizia alguns disparates muito interessantes, porque a loirinha olhava condescendente para a sua cara bem nutrida e perguntava com indiferença: «Verdade?» E o "setter", se fosse inteligente, poderia, a partir deste impassível «verdade?», concluir que não era provável gri­tarem-lhe «aboca!».

 

Ribombou o piano; uma valsa triste esvoaçou da sala para as janelas abertas de par em par, e toda a gente se terá lem­brado que lá fora era Primavera, uma noite de Maio. Toda a gente terá sentido que o ar cheirava a folhas novas de álamo, a rosas e lilases. Riabóvitch, em quem, sob o poder da música, falou o conhaque bebido, olhou de soslaio para a janela, sorriu e pôs-se a seguir os movimentos das mulheres, já lhe parecendo que o cheiro a rosa, a álamo e a lilás não vinha do parque, emanava dos rostos e dos vestidos delas.

 

O filho de Rabbeck convidou para dançar uma menina magricela com quem fez dois tours. Lobitko, deslizando pelo soalho, voou para a menina lilás e girou com ela pelo salão. As danças começavam... Riabóvitch estava perto da porta, entre os que não dançavam, a olhar. Em toda a sua vida não dançara uma única vez, nunca lhe acontecera abraçar pela cintura uma mulher decente. E se gostava de ver um homem, aos olhos de toda a gente, pôr a mão na cintura da menina e oferecer à menina um ombro para a mão dela! Mas não podia imaginar-se a si mesmo na situação de tal homem. Dantes, invejava a audácia e a desen­voltura dos seus companheiros, e doía-lhe a alma; ser tímido, corcovado, cinzento, de cintura baixa e suíças de lince ofendia-o profundamente; agora, com a passagem dos anos, isso era um hábito, já não invejava quem dançava e quem alçava a voz, só se enternecia tristemente.

 

Quando os dançarinos atacaram a quadrilha, o jovem von Rabbeck aproximou-se dos que não dançavam e convidou dois oficiais para uma partida de bilhar. Aceitaram e saíram com ele do salão. Para participar, de qualquer maneira, no movimen­to comum, Riabóvitch arrastou-se atrás deles. Passaram por uma sala de estar, por uma galeria envidraçada que desembocou noutra sala onde, à vista deles, saltaram dos divãs três figuras sonolentas de lacaios. Por fim, depois de mais uma série de salas, chegaram ao bilhar. Iniciou-se a partida.

 

Riabóvitch, que nunca tinha jogado nada a não ser car­tas, estava ali, de pé, a olhar com indiferença para os jogadores que, de casacas desabotoadas, brandindo os tacos, andavam em volta do bilhar gritando trocadilhos num jargão incompreen­sível. Não ligavam a Riabóvitch, só de vez em quando algum deles, ao empurrá-lo com o cotovelo ou ao tocar-lhe com o taco inadvertidamente, se voltava e dizia: «Pardon!». Ainda a primeira partida ia a meio e já Riabóvitch se aborrecia, que estaria ali a mais, que incomodava ...Quis voltar ao salão. Saíu.

 

No regresso, sucedeu-lhe uma pequena aventura. A meio caminho, percebeu que se perdera. Lembrava-se perfeita­mente que devia passar por três figuras sonolentas de lacaios, mas, atravessadas cinco ou seis salas, essas figuras como que tinham sido engolidas pela terra. Ao dar-se conta do erro voltou um pouco atrás, tomou à esquerda e foi parar a um gabinete meio às escuras que não vira de certeza no caminho de ida para a sala de bilhar; ficou parado uns trinta segundos, abriu decididamente a primeira porta que lhe saltou à vista e entrou num quarto mergulhado em escuridão completa. A frente do nariz só via uma fenda da porta donde jorrava uma nesga de luz forte; de trás da porta vinha o surdo rumor de uma mazurka triste. Também ali as janelas estavam abertas de par em par e cheirava a álamo, lilás e rosas...

 

Riabóvitch parou, pensativo... Inesperadamente, sentiu uns passos apressados e o roçagar de um vestido, e logo uma voz ofegante e feminina a sussurrar «até que enfim!», e duas mãos suaves, perfumadas, indubitavelmente de mulher, lhe enlaçaram o pescoço; sentiu apertar-se-lhe à cara uma face tépida e ouviu, no mesmo instante, o som do beijo. Mas quem lho deu já se soltava, com um gritinho, fugindo dele num salto de repugnância, como pareceu a Riabóvitch. Também por pouco não gritou e atirou-se para o rasgão brilhante da nesga da porta...

 

Quando voltou ao salão o coração batia-lhe com força e as mãos tremiam-lhe tanto que se apressou a escondê-las atrás das costas. Atormentava-o a vergonha e o medo de todo o salão poder saber que acabava de ser abraçado e beijado por uma mu­lher; encolhia-se e olhava à volta, aflito. Mas, quando viu bem que toda a gente dançava e tagarelava despreocupadamente, entregou-se com toda a alma àquela sensação nova, àquela coisa que nunca dantes experimentara. Aquela coisa estranha que den­tro dele se passava... O pescoço, ainda há pouquinho abraçado por umas mãos suaves e perfumadas, era como se estivesse unta­ do de manteiga; na face, ao lado da guia esquerda do bigode, onde a desconhecida lhe assestara o beijo, tremia um friozinho leve e agradável, como gotas de menta, e quanto mais esfregava o sítio do beijo mais o friozinho aumentava e todo ele se arrepiava
num sentimento novo e misterioso, que crescia, que crescia...Apeteceu-lhe dançar, falar, correr pelo parque, rir perdidamen­te... Esqueceu que era marranica e cinzentão, esqueceu as suíças de lince e o «aspecto indefinido» (assim descreveram o seu físico umas damas, numa conversa que lhe chegou por acaso aos
ouvidos). Quando passou por ele a mulher do Rabbeck, abriu-lhe um sorriso tão largo e carinhoso que a senhora parou, olhou para ele e ficou à espera, interrogativamente.

 

(continua)

 

(in FICÇÕES, Revista de Contos, Nº. 1, Abril 2000)

publicado por Augusta Clara às 19:00
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