Domingo, 24 de Abril de 2011
25 de Abril - 2 - Como nasceu "Grândola, Vila Morena" - por Carlos Loures

 

 

 Em 17 de Maio de 1964, José Afonso actuou na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, à qual dedicou

Grândola, Vila Morena. Num apêndice da primeira edição de Cantares, dizia: "Pequena homenagem à Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, onde actuei juntamente com Carlos Paredes". Na primeira edição, de 1967 e com a chancela da Nova Realidade, Tomar, - uma editora artesanal em que Manuel Simões, Júlio Estudante e eu publicámos muitos livros que não poderiam ter sido editados nos circuitos ditos normais – apenas figuravam as duas primeiras quadras.

 

Quando, em 1970, publicámos outro livro do Zeca, Cantar de Novo, com um magnífico prefácio de António Cabral, o poema surgia já na sua forma definitiva, com três quadras. Mas, voltando à noite de 1964 em que o Zeca actuou na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, a «Música Velha», como a colectividade é designada pelas gentes da terra, pode dizer-se que essa actuação mudou a sua vida. Cantou perante uma assistência constituída maioritariamente por gente pobre, mas faminta de cultura – trabalhadores da indústria corticeira, amadores de música, ceifeiras, alguns clandestinos ligados ao Partido Comunista... José Saramago, então um escritor quase desconhecido, estava também entre a assistência.

 

Mais tarde, após a morte de Zeca, Saramago interrogava-se sobre o que José Afonso sentiria se pudesse observar o rumo social e político do Portugal dos nossos dias – «Creio que estaria, pelo menos, tão desanimado como eu», conclui o Nobel. Nesta sessão histórica, conheceu Carlos Paredes, o prodigioso guitarrista – «o que esse bicho faz com a guitarra!», exclamava Zeca numa carta aos pais. Apaixonado pela vila, comprou uma pequena parcela de terreno em Grândola, com uma modesta casa, onde gostava de passar os seus tempos livres. Grândola cativara-o definitivamente pelo ambiente fraterno que envolvia as suas gentes. Pedro Martins da Costa, militante do PCP e, a partir de 1974, vice-presidente do município durante mais de 25 anos, presente no famoso concerto de 1964, diz que ao Zeca agradou sobretudo a igualdade que ali existia antes e depois da Revolução de Abril – continuaram a ser «tão igualitários que nem se sabia quem era o presidente». A letra da canção não constitui, portanto, um conjunto de simples metáforas...

 

Em Maio de 1972, numa récita em Santiago de Compostela, o Zeca estreava a canção. Em 29 de Março de 1974, realizou-se no Coliseu dos Recreios um «Canto Livre» onde, além de Zeca, participaram outros cantores. Acabaram, interpretando em coro Grândola, Vila Morena. Oficiais do MFA que assistiam ao concerto, escolheram nesta altura a senha para o arranque do levantamento militar. Para terminar, voltemos a Grândola - durante anos, na placa toponímica da vila, fechando o círculo de interacções entre a «cidade» e o seu cantor, lia-se Grândola, Vila Morena – Grândola mudou a vida de Zeca e Zeca alterou a vida e a história da vila. Actualmente, a placa foi retirada – decisão política? Gostaria de saber. O que José Saramago fez por Mafra e o que José Afonso fez por Grândola, provando que a arte ainda tem algum poder, devia merecer o respeito e a gratidão não só das populações, mas principalmente a dos autarcas – seja qual for o partido a que pertençam. Sem generalizar, diria que, muitas vezes, à frente das autarquias está gente mesquinha e rasteira que teme que a grandeza e a glória de pessoas como o Saramago e o Zeca oculte a luz cediça das suas insignificantes personalidades.

 

Como se diz numa reportagem de Miguel Mora publicada no El País (9 de Agosto de 2007): «Hoje, em pleno centro de Grândola, a Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, continua de pé, sóbria e austera. Resiste, embora tenha estado durante algum tempo fechada e rodeada de tapumes para reconstrução. O tijolo, a construção civil, foram substituindo a pouco e pouco a cortiça, o arroz como fonte de riqueza do concelho». Os tapumes já foram retirados. Porém, no interior vazio da Música Velha, subsistem, pelo menos no imaginário dos que amam a liberdade, os ecos nostálgicos do que ali ocorreu naquela noite mágica de Maio de 1964.



publicado por Carlos Loures às 23:00
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16 comentários:
De Pedro Godinho a 24 de Abril de 2011 às 23:31
Repararam que esta ano nos media só se fala de "E depois do Adeus" como canção-senha da revolução (é verdade que foi a primeira) e até parece que não sabem que aquela que para todos ficou, e legitimamente, como canção do 25 de Abril (a contra-senha de confirmação) foi a Grândola, Vila Morena.
Por tudo o que o Zeca fez, por quem era, pela própria canção, Grândola, Vila Morena merece continuar a ser a canção-memória do 25A.


De Luis Moreira a 25 de Abril de 2011 às 02:39
Ainda agora no jantar, e por haver essa percepção, se cantou a plenos pulmões o "Grândola, vila morena"!


De Pedro Godinho a 25 de Abril de 2011 às 16:13
Também a norte da raia não se esquece o 25A.
O Portal Galego da Língua noticia actividades sobre o 25 de Abril na Galiza:
http://pglingua.org/noticias/eventos/3444-25-de-abril-na-galiza


De Carlos Loures a 25 de Abril de 2011 às 16:41
O nosso estrolábico companheiro Carlos Durão não se ia esquecer do 25!


De Luis Moreira a 25 de Abril de 2011 às 20:03
Então, Carlos? Onde está o nosso Carlos Durão?


De Carlos Loures a 25 de Abril de 2011 às 20:40
Em Londres, onde é professor numa escola de línguas. Mas sempre atento ao seu Portal e ao nosso Estrolabio.


De Augusta Clara a 25 de Abril de 2011 às 21:29
É verdade. Outro dia, quando mandou a participação para o dia 8, percebi que ele estava bem atento. Bolas, e eu hoje perdi o programa sobre o Zeca.


De Augusta Clara a 25 de Abril de 2011 às 21:30
E o tal abraço, Luís?


De Luis Moreira a 25 de Abril de 2011 às 22:25
Passei a noite a distribuir abraços e a dizer que eram teus. Com uns acertei com outros não, mas foi uma noite bestial, pá!


De Augusta Clara a 25 de Abril de 2011 às 22:40
Tretas. Sabes muito bem que há um certo grupo a quem não daria abraço nenhum.


De Luis Moreira a 25 de Abril de 2011 às 22:51
Foi com esses que não acertei! Mas para mim é malta do 25 de Abril, a partir daí importa pouco, já era, em liberdade, a luta partidária e ideológica.


De Augusta Clara a 25 de Abril de 2011 às 23:01
Não respondeste foi ao que eu te perguntei. Mas deixa lá...


De Luis Moreira a 25 de Abril de 2011 às 23:44
O Otelo àquela hora estava em Santarém a comemorar a canção "E depois do adeus..."


De Augusta Clara a 25 de Abril de 2011 às 23:57
Que boca!


De Luis Moreira a 26 de Abril de 2011 às 00:08
Verdade. Estavam lá todos mas ele não estava. Hoje depois da manif fui beber uma cerveja na baixa e lá vi o Coronel Tomé. Dei-lhe um abraço e convidei-o para a minha mesa mas ele já tinha companhia.


De Augusta Clara a 26 de Abril de 2011 às 00:13
Também o conheço, mas o abraço não era para ele.


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