Sexta-feira, 8 de Abril de 2011

Reflexões à volta da ideia de Munchau: a Europa em 2013 será igual à de 2011- parte 3

Enviado por Julio Marques Mota

 

A senhora Merkel disse na conferência de imprensa da Cimeira que a sua única concessão — a de que o MEE pudesse comprar dívida soberana no mercado primário — não alteraria muito as coisas. Tem completamente razão. O mecanismo de apoio financeiro como foi agora concebido é um serviço de apoio e nada mais. No sábado de manhã do dia 12 de Março, na União Europeia obteve-se um acordo que a coloca num verdadeiro purgatório entre o resgate financeiro e o incumprimento, enquanto ela vive mergulhada na confusão e na desordem, numa crise sem fim, nós caminhamos para uma situação talvez equivalente à da República de Weimar, para o período que antecedeu o crescendo de diversos ismos na Europa que ninguém deseja ver repetir. Estamos longe é certo, estamos a tempo de a todos eles impedir. Façamo-lo, então.

 

A terminar este pequeno trabalho sobre esta Europa, confundida, perdida, pelos mercados impelida, e que à beira do abismo se encontra bem sentida, vem-me à memória ecos do século XIX do que são os mercados à solta, à solta como agora. Uma nesga, um descuido, a miragem de lucros, e como na finança, sublinhe-se o que Cavaco Silva não quer perceber como economista, não se geram lucros, confiscam-se, usurpam-se, roubam-se aqueles que com o seu trabalho o rendimento criam. Uma nesga, um descuido, uma desregulação e aí estão os mercados ao assalto da economia real, na absorção do rendimento que nesta é criado. Um roubo, é simples, é assim a alta finança, a alta especulação, é uma transferência, dirá o prémio Nobel Joseph Stiglitz com alguma ironia. Não terá sido também assim com o BPN da nossa recente memória, onde houve gente que muito dinheiro ganhou mas que afinal se descobriu depois que foi apenas dinheiro que alguém embolsou e que dessa maneira foi todo um povo que se ludibriou? Claro que foi assim.

 

 

Uma história que tomo a liberdade de contar.

 

A 6 de Outubro de 1871 deu-se em Chicago o grande incêndio, “the Chicago Great Fire”, que destruiu entre outras coisas o centro dos mercados da cidade e dos Estados Unidos, o Chicago Board of Trade, cuja capacidade de armazenagem terá passado de 8 milhões de unidades de medida — o alqueire — para 5 milhões. Isto encorajou um especulador John Lyon, um importante comerciante de cereais, a lançar um corner, “prática que consiste em compras de contratos seguidas de acções que impedem estes contratos de serem realizados pelo lado dos vendedores, com a finalidade de lhes extorquir dinheiro”. Lyon associou-se a Hug Maher, negociante de madeiras e depois grande operador no imobiliário, e a F. J. Diamond, um dos maiores corretores do CBOT em cuja lista de clientes estava Munn & Scott, um dos maiores armazenistas de cereais.

 

Na Primavera de 1872, começaram os contratos de compra de trigo no mercado dito físico, por oposição ao virtual, que é o mercado dos contratos. Começaram-se igualmente a negociar contratos com data de conclusão ou de fecho em Agosto. Em Julho, o preço estava em 1.16-1.18 USD para acabar no final do mês a 1.35 USD. Esta alta do trigo trouxe enormes descarregamentos de trigo a Chicago, da colheita de 1871. Estes descarregamentos atingiam a 15.000 alqueires por dia. A partir de 15 de Julho atingiam 20.000 por dia e esses descarregamentos diários foram aumentando até atingir 27.000 alqueires no princípio de Agosto.

 

A 5 de Agosto é destruído um outro silo, Iowa elevator, por um incêndio. E por aqui já passava um conflito jurídico com Hugh Maher. Ao mesmo tempo circulavam rumores de que a colheita de 1972 estava atrasada. Os cereais sobem tanto no mercado físico e também a prazo onde certos vendedores de contratos tentam sair das suas posições, anulando-as com novas compras, agora suas, para compensar. O preço atinge em Agosto 1,65 USD. Esta subida dos cereais acelerou o ritmo das colheitas com destino a Chicago. Os agricultores queriam aproveitar-se do preço excepcionalmente elevado do trigo e para isso aumentaram a cadência das colheitas. Conta-se que houve comboios carregados de lanternas para a região a fim de se iluminar à noite os campos de cereais, as searas, para facilitar a colheita, mesmo durante a noite! Imagine-se este espectáculo. Nessa sequência, aumentaram as quantidades de trigo enviadas para Chicago.

 

Na segunda semana de Agosto, os descarregamentos de trigo alcançaram os 75.000 alqueires por dia para atingir o recorde a 19 de Agosto, com descarregamentos na ordem dos 172.000 alqueires. Refizeram-se inclusive novas rotas de transporte do trigo que passou a ir de Chicago para outros destinos.

 

 

Mas quem eram os compradores deste trigo? Os especuladores acima citados. Com efeito, para levarem a bom termo o ataque especulativo que desencadearam, o seu corner, eram obrigados a comprar o trigo no mercado físico e a controlar a sua armazenagem nos silos. Era somente com esta condição que podiam manter o preço alto. Tinham comprado contratos de trigo. Na data de conclusão ou fecho do contrato queriam o trigo. Quem lhes vendeu o contrato teria que ir comprar o trigo no mercado. A quem? A quem lhes vendeu os contratos! Era pois Lyon e colegas que se tornaram os compradores do trigo que vinha a ser descarregado em Chicago. Entretanto, os silos destruídos no ano anterior foram reconstruídos e aumentados. Derivado a estas obras a capacidade de armazenagem terá passado para 10 milhões de alqueires, mais dois milhões do que antes do Grande Incêndio. Porém, estes descarregamentos eram em muito maior quantidade do que o tinha suposto Lyon e os seus colegas. A mãe natureza tinha-lhes trocado as voltas, com uma produção muito superior à que estes esperavam. Esgotaram os seus recursos financeiros a comprarem trigo  e procuraram apoio junto dos bancos. Durante a parte da manhã de 19 de Agosto, Lyon continuou a comprar, mas deixou de o fazer logo que soube que os bancos não lhe davam mais nenhum apoio financeiro. Imediatamente a seguir o trigo desceu para 1.27 USD. Na manhã seguinte, desceu mais dez cêntimos. Isto levou imediatamente à falência os iniciadores do corner, os iniciadores do ataque especulativo à alta do trigo. Lyon ficou arruinado, Diamond destruiu as suas contas e fugiu, Munn & Scott faliu e foi obrigado a revender os seus silos. Falharam, mas podiam ter ganho. A natureza e a força dos homens, os da economia real, venceram. Podiam ter perdido e ao longo da história nem todos os corners acabaram desta maneira inglória para os seus criadores.

 

Mas aqui e agora, uma pergunta: não estará a Europa sujeita toda ela ao maior corner da sua história, com os mercados à solta, completamente desregulados, como no final do século XIX? E os mercados à solta são como este que acabámos de relatar ou dele não diferem muito. Mas a sorte não parece aqui repetir-se, as economias estão em depressão, a força dos homens, essa aparece manietada pela força dos contratos, dos mercados. E os reguladores? Repare-se que na história de Chicago um dos clientes de Diamond, o armazenista Scott & Munn ter-se-á ligado aos iniciadores do corner, potenciando a força destes e acabado arruinado como eles. Repare-se que nesta história há por um lado os especuladores e, por outro, os agentes da economia real, há a natureza também, que aos especuladores as voltas terá cortado. Mas aqui e agora nesta Europa de todos nós, que agora se quer apenas para alguns, não há um jogo de imediato, não há a duração de uma colheita, a redução do tempo das ceifas, face à natureza, não, não há. Há sim um outro jogo que é a manipulação dos números pelos especuladores, onde tudo é bem virtual, onde tudo é, depois, bem real, onde, para tomar minhas as palavras de Phil Angelides, no Senado Americano, estes especuladores, “tal como Icaro não temem voar cada vez mais perto do sol”, sem limite nos seus voos. O drama é quem se queima não são eles, são os outros. E os reguladores? Concordo plenamente com Christopher Dodd, da Comissão do Senado Americano, para quem “os reguladores financeiros do nosso país deveriam ser o equivalente dos polícias de patrulha e proteger os americanos que trabalham duramente dos actores financeiros sem escrúpulos”. Pode dizer-se então que, no melhor dos casos, os nossos reguladores acham que não há nada a regular, o que é mais provável, ou então ficaram intoxicados com gases que lhes atiraram para os olhos e tudo deixaram de ver. No primeiro caso, se nada há regulado nada há então que de desregulado possa ser acusado e parecem então ser como Scott & Munn na história de Chicago. No segundo caso, o que não se vê, de crime não pode ser acusado, mesmo que as vítimas existam e estas são exactamente os cidadãos europeus que “trabalham bem duramente”, é a Europa que como um todo está ser destruída. E a força da democracia expressa pelos políticos no poder, essa, porque inexistente, é necessário e é urgente que seja recriada, que os que no poder estão se possam democraticamente dele afastar, num trabalho por todos nós a realizar e a ganhar.

 

 

Coimbra, 3 de Abril de 2011.

 

Júlio Marques Mota

 

 

 

publicado por Luis Moreira às 20:00
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