Quarta-feira, 6 de Abril de 2011

Reflexões à volta da ideia de Munchau: a Europa em 2013 será igual à de 2011- parte 1

Enviado por Júlio Marques Mota
Um texto feito a partir de um outro texto, de Wolfgang Munchau, “Trabalhar e viver na confusão, na desorientação, não é opção”, Financial Times.

No mundo, nenhuma organização política é tão hábil como a União Europeia quando se trata de viver na confusão, na desordem. Ninguém a bate. Para que 27 Estados-Membros estejam de acordo, a arte do compromisso é fundamental. Viver na confusão serviu muito bem à União Europeia ao longo destes anos.
O acordo alcançado pelos Chefes de Estado e do Governo da União Europeia no princípio da manhã de Sábado (dia 12 de Março) é uma esperteza política no quadro da confusão habitual da União Europeia. Angel Merkel alcançou exactamente o que precisava: um acordo em que limita a responsabilidade financeira da Alemanha. Os outros que aguentem as suas consequências. Alguns detalhes técnicos importantes têm ainda que ser trabalhados, melhor definidos, mas o essencial do acordo está alcançado.

Infelizmente, ninguém pode viver na confusão e na desordem em tempo de crise

Há, essencialmente, duas maneiras de resolver uma crise da dívida: seja com um resgate financeiro, dito também de ajuda financeira, seja alternativamente com uma situação de não pagamento, de incumprimento das suas obrigações contratuais. Ou ainda com uma combinação inteligente das duas vias, se sabe bem o que se está fazer. Neste caso, por exemplo, pode contar-se com o apoio da União Europeia não só para renegociar a respectiva dívida como proteger o país dos ataques e das dificuldades que imediatamente começarão a surgir. Se continua a fazer como a União Europeia, a fazer as coisas na confusão e na perspectiva de mais curto prazo, sem medir as consequências futuras das decisões, bom, então o mais certo é acabar numa situação de incapacidade total em pagar, a situação de incumprimento total que ao escolher as duas vias em conjunto se queria evitar. Cuidado, com o fogo não se brinca.

 

Assim, até onde nos levará este acordo? Para responder à questão, é importante compreender dois ou três aspectos técnicos do mecanismo de estabilidade financeira acordado a 12 de Março. O actual mecanismo de estabilidade financeira (FEEF – Fundo Europeu de Estabilidade Financeira) é válido até 2013. Com ele concedem-se créditos aos países com problemas da dívida pública e, em breve, poder-se-á comprar títulos da dívida soberana nos mercados primários. Para isso, foram precisos quase três anos durante os quais um punhado de gente se esteve brutalmente a enriquecer, dada a forte diferença entre as taxas de juro obtidas junto do Banco Central Europeu e as taxas que a seguir os Estados soberanos pagavam por esse dinheiro, no seu refinanciamento da dívida soberana. Três anos de confusão para uma coisa que parece tão simples e que continua por alcançar: financiar no espaço da União a dívida soberana e à mesma taxa. Afinal, esta União é apenas a des(União) de um somatório de países que devem concorrer uns contra os outros, mesmo quando à beira do abismo.

 

Na linha do FEEF, todos os créditos têm o mesmo direito relativamente aos seus devedores, todos os credores estão sujeitos às mesmas condições, todos serão atingidos da mesma maneira. Sejamos mais claros, para perceber o grande salto que à senhora Merkle convinha. Imaginemos que a Grécia se declarou, hoje, em situação de incumprimento. Consequências imediatas, do ponto de vista da dívida soberana e que tenha a ver com o mecanismo estabelecido pelo FEEF? Neste caso, seria imediatamente feito uso das garantias financeiras dadas pela Alemanha e pela França a este mecanismo de estabilidade financeira. Estes países substituíam a Grécia no pagamento aos grandes investidores que se lançaram nesta aventura, que colocaram de joelhos a Grécia e embolsaram o mais possível. Imaginemos só, por exemplo, os milhões de CDS sobre títulos que se não tinham, e que aí se cobrariam ao valor facial, imagine-se a vigarice de tudo isto que vigarice não é, é apenas um produto dos mecanismos da concorrência, onde ganha quem sabe entrar e sair no e do mercado na melhor altura. Estaríamos perante um desastre, desastre para a Grécia, desastre para Sarkozy, desastre para a senhora Merkle. Seria um desastre político. Na Alemanha, os conservadores alemães, ainda mais à direita de Merkle, e os Verdes também, estes agora à esquerda, gritariam que se estaria perante uma transferência de rendimentos para a União, proibida pelo Tratado pois o bailout é expressamente proibido, e queixar-se-iam a seguir da senhora Merkle ao Tribunal Constitucional. Conclusão desta pequena história: nenhum país que subscreveu o FEEF está interessado numa situação de incumprimento de ninguém até 2013, em particular a Alemanha.

 

 

Na situação presente, de onde vem o dinheiro para o apoio aos países em dificuldade? Poderia vir, tecnicamente sim, da criação monetária pura e simples, criação directa como o fazem o Banco do Japão, o Banco da Inglaterra, o FED; poderia vir do mercado secundário cujos títulos de dívida podem constituir colateral para os bancos obterem liquidez junto do Banco Central Europeu, sendo este processo uma via de refinanciamento dos bancos com criação indirecta de moeda, que levantam fundos a 1 por cento e compram títulos da dívida soberana a 6 por cento; poderia vir do FEEF que pode recorrer aos mercados de capitais com as garantias dadas pelos Estados soberanos fortes, entre os quais a Alemanha e a França, que como bons capitalistas, já chegaram a emprestar dinheiro à Grécia com um bom spread de risco, digamos, sem exagerar, de 3%. São eles os principais garantes dos títulos emitidos pelo FEEF que a seguir comprará a dívida pública grega no mercado primário. Poderão igualmente fazê-lo pelo acréscimo das disponibilidades do FMI, pelo crescimento das suas quotas-partes expressas em direitos de saque especial, ou seja, por emissões complementares dos principais países contribuintes.

 

Em 2013, um novo mecanismo substituirá o FEEF. É chamado o mecanismo europeu da estabilidade (MEE). A diferença crucial entre os dois mecanismos é que os seus créditos terão o estatuto de seniores relativamente aos dos investidores privados. A ideia é então a de tornar a situação de incumprimento agora possível e com a vantagem de se traduzir apenas num risco moderado para o orçamento das nações credoras. Em 2013, os bancos europeus devem estar numa posição melhor do que estão hoje para poderem absorver grandes perdas, ou assim os nossos políticos o esperam, um pouco a terem o céu apenas como limite para a banca. É assim que se espera na União Europeia o fim da crise, com o céu como limite para os ganhos da banca e o inferno como o outro limite, o limite para os outros, para os muitos milhões daqueles que os lucros infinitos dos outros terão que pagar. Será assim, assim o esperam, o fim da crise.

 

Mas vir defender e impor esta ideia exige que se navegue num bom mar de ignorância, como os nossos estudantes universitários formados nas múltiplas Bolonhas espalhadas por essa União Europeia onde se tem feito tudo para deixar de ter como objectivo “tornar a Europa na economia do conhecimento mais competitiva e dinâmica do mundo”, para deixar de ser “capaz de gerar um crescimento económico sustentável com mais e melhores empregos e maior coesão social”. Um mar de ignorância sobre os mercados financeiros quando os políticos tudo fizeram para financeirizar a economia, custa a entender. Mas infelizmente a iliteracia financeira é, e desde há tempo que tem sido assim, a marca de muitos dos nossos políticos, daqueles que afinal a organizaram ou a permitiram no espaço comunitário.

 

O que acontece é que os investidores-especuladores vêem correctamente que com este esquema e através dele o que se está a criar é a forma de se poderem organizar futuras situações de incumprimento, que incidirão tanto sobre os futuros títulos como sobre os actuais, os que eles detêm agora ou sobre os quais ainda podem especular, não os tendo. Sabem que uma vez que um país se declarar em situação de incumprimento, os velhos e os novos títulos terão o mesmo tratamento. São também jogadores a jogar na baixa sobre os títulos dos seus países vizinhos. A Espanha é um país solvente, naturalmente, mas uma implosão em Portugal a que se somaria mais uma descida no preço do imobiliário e tudo isto criava uma situação à beira da ruptura naquele país. A Espanha pode assim necessitar de um acesso ao MEE em dado momento do tempo, e dados os volumes em jogo tal significa que todos os detentores privados passam agora a credores e, automaticamente, de segundo nível, depois das nações credoras, passam a títulos de pagamento não prioritário, passam a detentores de títulos juniores, como se diz. Todos estes investidores, que burros não são, percebem bem que deixaram assim de ter títulos de dívida pública tradicionais, mas sim títulos que agora fazem parte de uma tranche do meio do ranking de um produto que por decreto passou a produto estruturado (1) , um daqueles que no início de Março uma grande agência de rating baixou a sua notação. Deste modo, um grande investidor sobre títulos de Espanha ouve as notícias de Bruxelas, sabe bem mais do que os ignorantes de Bruxelas já mostraram, toda a gente nisso acredita, fica imensamente preocupado com a notícia da Cimeira, mas entende a mensagem. Trata de procurar destruir o sistema agora, antes de 2013, de provocar agora e não depois uma situação de incumprimento, para tudo agora receberem, o que mais tarde não é garantido. Tem uma corrida contra o tempo a fazer, tem a seu favor a incompetência da Comissão Barroso e Instituições de apoio, tem a seu favor como investidor e especulador as brutais necessidades de refinanciamento de todos os países, tem a seu favor o seu peso no mercado de capitais e tem que provocar a situação de incumprimento enquanto é tempo.

 

É, na minha opinião, uma das corridas a que estamos agora a assistir. Assim se alguém for um detentor de títulos soberanos do Estado espanhol, ouvir a notícia de Bruxelas de que o MEE está acordado agora, e com capacidade para vir a ajudar a Espanha esse alguém, bom investidor ou bom especulador, ficará necessariamente com medo. Logo que possível tenta resgatar o seu investimento num ou noutro fundo de aplicações comuns, num ou noutro hedge fund para se proteger em zonas financeiras mais abrigadas. Aí há um problema: a direcção do fundo tenta vender títulos de crédito da Grécia, sejam eles crédito privado ou público, para assim lhe devolver as volumosas quantias no fundo aplicadas. Privado ou público tenta vender, mas não consegue. Tenta vender papel português, privado ou público, não consegue. Vende em grande escala títulos da dívida italiana ou inglesa, privada ou pública. Por outras palavras, para conseguir liquidez vai sucessivamente tentar vender títulos com rating mais elevado. Assim o participante do fundo recupera o seu investimento, em dinheiro. Drama: a situação do medo sobre a Espanha criou por aí uma espiral de medo que se abateu sobre a dívida italiana ou outra. E esta é mais uma via pela qual a crise se vai espalhando.

______________________________________________

[1] Aqui uma interrogação: o que é vai acontecer ao sistema financeiro, dado a enorme presença de CDS nestes mercados e dada a alteração qualitativa que os títulos actuais virão a ter? Será uma situação de acontecimento de crédito? Se o for, não haverá bancos que irão à falência? Não terão, de novo, necessidade de serem recapitalizados? Relembramos aqui que no mundo opaco dos CDS muitas vezes a definição do que é um acontecimento de crédito não é fácil, dá origem a mega-processos jurídicos. Confusões que a este nível já aconteceram e relembramos que, com títulos soberanos, está nas nossas memórias o que aconteceu com a Rússia em 1998 e com a Argentina em 2001.

publicado por Luis Moreira às 20:00

editado por siuljeronimo às 19:06
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1 comentário:
De Luis Moreira a 6 de Abril de 2011
mas qual a razão dos bancos se financiarem junto do BCE a 1% e os estados não o poderem fazer? Qual a razão para os bancos emprestarem dinheiro a 4% aos estados que foram buscar a 1%?

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