Quinta-feira, 31 de Março de 2011

LOUIS I. KAHN: OBRA MONUMENTAL. VIDA ESPECIAL. Por José de Brito Guerreiro

 

 

 

 

Hoje iniciamos a apresentação de uma série de posts sobre Louis I. Kahn, pelo José de Brito Guerreiro. Procuramos assim dar à arquitectura o lugar que merece, entre as artes.

 

 

 

 

 

Louis I. Kahn (1901 - 1974), apesar de ter deixado uma obra pouco numerosa, foi um dos arquitectos mais importantes do século XX. Os poucos edifícios que concebeu foram tão marcantes que o estabeleceram como uma figura de grande relevo na arquitectura, com influência comparável à de Le Corbusier(1887 - 1965) e Mies van der Rohe (1866 - 1969), mas cuja obra ofereceu novas possibilidades conceptuais às gerações de arquitectos que os sucederam, na procura de alternativas à hegemonia do International Stye.


As obras de Kahn, tais como o Instituto Salk para Estudos BiológicosEdifício da Assembleia Nacional do Bangladesh, o Instituto Indiano de Administração, a Biblioteca da Academia Phillips Exeter e o Museu de Arte Kimbell, caracterizadas por uma profunda reflexão formal e intensa expressividade emocional, podem ser consideradas como uma evolução poética do International Style.

 

Louis Isadore Kahn nasceu a 20 de Fevereiro de 1901 na ilha de Saaremaa, na Estónia. Em 1906 mudou-se com a sua mãe, Bertha, e os seus irmãos para Filadélfia, nos Estados Unidos, onde o seu pai, Leopold, estava emigrado desde 1904.

 

Kahn viveu a sua infância em extrema pobreza, mas, apesar disso, recebeu uma excelente educação, revelando um grande talento para a música e para as artes visuais. Inspirado pela História da Arquitectura  que aprendeu na escola secundária, conseguiu ganhar  uma bolsa para estudar arquitectura na Universidade da Pensilvânia. Concluiu o curso de arquitectura em 1924, viajou para a Europa em 1928, e passado um ano regressou aos Estados Unidos para trabalhar com Paul Philippe Cret (1876 - 1945), um arquitecto das Beaux-Art nascido em França, cuja obra teve grande relevância nos Estados Unidos. Em 1941, Kahn constituiu uma sociedade com George Howe (1886 - 1955), um importante arquitecto modernista americano. À sobredita sociedade juntou-se um terceiro elemento, o arquitecto modernista nascido na Alemanha Oscar Stonorov (1905 - 1970). Foi Stonorov que deu a conhecer a Kahn a obra e escritos de Le Corbusier.

 

Kahn começou a leccionar na Escola de Arquitectura da Universidade de Yale em 1947, distinguindo-se como um brilhante professor. Influenciou uma geração de arquitectos para terem uma perspectiva alternativa, atendendo à clareza, complexidade e espiritualidade da arquitectura, e paulatinamente começou a escrever sobre a sua ideologia, expondo-a em conferências.

 

O historiador de arquitectura Vincent Scully observou a transformação ideológica de Kahn, descrevendo no seu livro Louis I. Kahn, de1962, a viragem do arquitecto, de actor secundário para protagonista:

 

 

«Há dez anos, Louis I. Kahn, então com mais de cinquenta anos, não tinha construído quase nada e era quase exclusivamente conhecido pelos seus associados em Filadélfia e pelos seus alunos em Yale. Nenhum deles lhe teria nessa época chamado grande, embora os seus alunos sentissem globalmente, com alguma inquietação, que ele poderia ter sido, ou talvez mesmo tivesse sido, grande. Mas no espaço de dez anos, o “poderia ter sido” tornou-se no “é”, e a realização de Kahn numa única década colocou-o inquestionavelmente no primeiro lugar em termos de importância profissional entre os arquitectos vivos. A sua teoria, tal como a sua actuação, foi considerada a mais criativa, a mais profundamente emotiva, de qualquer arquitecto de hoje. Ele é o arquitecto que quase todos os outros admiram, e a sua reputação é internacional.»

 

Kahn converteu-se de quase desconhecido numa figura internacional da arquitectura em apenas dez anos. A sua obra, construída e não construída, criada no decorrer das duas décadas e meia seguintes, é uma demonstração da magnificência e excelência de Kahn enquanto arquitecto. Seguiu o seu caminho, até à sua morte, em 1974, concebendo alguns dos edifícios mais importantes e influentes do século XX.

 

Segundo o autor Joseph Rosa «O complexo mas espiritualmente inflexível estilo de vida de Kahn era o que atraía as pessoas para o arquitecto – o seu sentido de intelecto, força, visão e ideais surgiam nele assim como nos seus edifícios e escritos. O génio de Kahn é verdadeiramente uma raridade na pedagogia e prática da arquitectura.»


Kahn, na conclusão da sua dissertação Monumentaly (Monumentalidade), de 1944, exprime os seus ideais, que atingiria décadas mais tarde:

 

«Não desejo sugerir que a monumentalidade pode ser alcançada cientificamente ou que o trabalho do arquitecto alcança o maior serviço à humanidade através do seu génio peculiar para conduzir um conceito na direcção da monumentalidade. Eu meramente defendo, porque admiro, o arquitecto que possui vontade de crescer com as muitas facetas do nosso desenvolvimento. Porque tal homem passa a estar muito à frente dos seus colegas de profissão.»

 

Louis I. Kahn teve três filhos de três mulheres. Em 1930 casou com Esther Virginia Israeli, e com ela estabeleceu a fundação da sua vida. Em 1940 nasceu a sua filha, Sue Ann. No começo da década de 1950, Kahn teve uma relação amorosa com a principal colaboradora do seu atelier, a arquitecta Anne Griswold Tyng. Desta relação nasceu uma filha, Alexandra Tyng, em 1954. Posteriormente Kahn envolveu-se num relacionamento íntimo com outra colaboradora do seu atelier, a arquitecta paisagista Harriet Pattison. O seu filho, Nathaniel Kahn, foi fruto desta relação, nascendo em 1963.

 

Alexandra Tyng e Harriet Pattison, que profissionalmente exerceram grande influência na obra de Kahn, permaneceram como associadas noatelier do arquitecto, após a natureza das suas relações pessoais ter sido alterada.

 

A primeira vez que os filhos de Louis I. Kahn se encontraram foi no velório do seu pai, em 1974. Porém, só passadas quase três décadas, quando o seu filho Nathaniel produziu o filme My Architect: A Son’s Journey, é que se encontraram de novo, para reviverem a sua infância e os tempos passados com o pai.

 

A vida pessoal de Kahn gravitou em torno de três lares diferentes. Conseguiu conciliar as suas três famílias, embora sem muito sucesso, pois era um homem que tinha alguma dificuldade em lidar com questões de paternidade e relacionamentos, uma vez que se dedicou completamente à sua profissão, a arquitectura.

 

A morte de Louis Isadore Kahn ilustra com ironia a sua fracturada vida pessoal. Quando o cadáver de Kahn foi encontrado pela polícia, na noite de 17 de Março de 1974 nas instalações sanitárias públicas da estação ferroviária Penn Station em Nova Iorque, passaram-se alguns dias sem que o conseguissem identificar como um dos arquitectos mais respeitados do mundo. Kahn morreu subitamente vítima de um ataque cardíaco, e a única forma de identificação que trazia consigo era o seu passaporte, no qual ele tinha riscado a sua morada. Foi considerado um sem-abrigo durante três dias até que o pessoal do seu atelier conseguiu descobrir o seu percurso naquele dia.

 

Na noite da sua morte, Kahn tinha regressado aos Estados Unidos vindo da Índia, onde estava a construir o Instituto Indiano de Administração, em Ahmedabad. Estava na Penn Station para embarcar num comboio que o levaria para casa, em Filadélfia. O Instituto Indiano de Administração e outra obra em curso, o Edifício da Assembleia Nacional, em Daca, Bangladesh, não são apenas os projectos mais ambiciosos de Kahn, mas também figuram entre as suas maiores obras-primas. Porém, Kahn tinha construído tão pouco durante a sua vida que morreu falido, devendo centenas de milhares de dólares.

 

Louis I. Kahn: Um genial arquitecto. Um brilhante professor. Um desastrado homem de negócios. Um peculiar homem de família.

UMA OBRA MONUMENTAL. UMA VIDA… ESPECIAL.

 

 

 

 

 

publicado por João Machado às 15:00
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1 comentário:
De Augusta Clara a 31 de Março de 2011
Bom regresso do José de Brito Guerreiro. Estava a fazer falta.

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