Terça-feira, 29 de Março de 2011

Qual é a cor do mar de agora? - Ethel Feldman

Quem conta um conto...

 

(ilustração de Adão Cruz)

 

Ethel Feldman  Qual é a cor do mar de agora?

 

 

Vila Celeste, 11 de Maio de 2000


Um panfleto circulou pelas ruas chamando o povo. Rezava assim a publicidade:

Não perca o  "Primeiro Desfile Primavera/Verão das Trabalhadoras de Sexo


Da aldeia meia dúzia de jovens, meia centena de velhos. Mais de um milhar de estrangeiros curiosos. Maria envergonhada escondia a mão direita nervosa. A  velha espiava pelos binóculos do falecido. Seu José na esquina lambia os beiços. No palco, uma bandeira esvoaçava ao som do refrão:

Somos putas, somos putas
a mais velha profissão
Somos putas, porque não?

 
Ninoca,  trabalhadora da ONG distribuia sorrisos. Com uma embalagem na mão esquerda, gritava:

- Sexo é bom com camisinha! Verdes, amarelas, azuis com sabor a hortelã...
Nenhum partido polí­tico compareceu. Nem para apoiar ou censurar. Nestes eventos os polí­ticos perdem-se. Um ou outro ousou aparecer disfarçado de povo.

Com um sorriso desavergonhado, Oncinha anunciou:
 
- Povo Celestino! Esta é uma data histórica para todas nós, mulheres.  Aqui nesta vila com o nome da nossa padroeira, inauguramos o nosso primeiro desfile.Uma roupa democrática que não escraviza gordas, ou magras e não escolhe idade. A estudante, a senhora casada e até a viúva enlutada pode vestir. Uma roupa que atende a ricos e pobres.

Entre santos e pecadores, o sexo comercial foi legalizado, contra a vontade da igreja pela voz de Régio.

Em Novembro desse ano, Dario resolve moralizar  os costumes e toma o poder com Régio.
Anuncia novos impostos. Joga golfe todos os dias. Num campo verde de mentira, feito a dor que a gente sente.
Brutti, sporchi e cattivi e o povo unido jamais será vencido!

Nosso povo virou plástico. Ao menor sinal de fogo - derrete!
Um ginásio a cada esquina. No bar, tofu e aguardente. Em cada semáforo um oriental falsificado que faz Tai-Chi. Na mão direita envergam uma bandeira vermelha.

Queimaram os filmes e do mar só resta o som. Desde então o céu mudou de cor - cinzento. No horizonte ergueu-se um muro a esconder o infinito.

Deus segreda todos os dias qual a cor do mar de outrora. Não sabe qual a cor dele agora.

 

publicado por Augusta Clara às 19:00

editado por João Machado em 15/04/2011 às 12:55
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4 comentários:
De Luis Moreira a 29 de Março de 2011
A esperança é divina.
De adao cruz a 29 de Março de 2011
Muito bonito Ethel. Tantos muros no horizonte a esconder o infinito!
De adriano a 18 de Abril de 2011
Quem foi que desta verdade criou uma incerteza?

Que bela angústia que me leva ao abismo, Ethel.

Parabéns

paxiano
De ethel feldman a 18 de Abril de 2011
obrigada, Adriano - pax :-)

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