Terça-feira, 29 de Março de 2011

Os Senhores Singulares - (O romance da revelação do Brasil) - 8 - por Sílvio Castro

 

 

 

 

 

 

 

(Continuação)

 

Coaracy III

 

A sabedoria de Coaracy não está ligada a uma só coisa, mas a muitas. Sempre que falo com ele, eu aprendo não só sobre a sua sabedoria e a de seu povo, mas sobre mim mesmo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Desde que o conheço me parece de conhecer mais a vida. Se posso dizer a Vossa Senhoria, que muito sabe, com Coaracy de certa maneira e modo mudei meu pensamento. Não sei explicar bem isso, como queria, mas posso dizer que tudo se passa como seu eu tivesse despertado depois de muito dormir. Principalmente quanto às coisas da natureza e de minha idéia dela. Antes de conhecer Coaracy, até então eu sempre me senti como que sentado fora das coisas da natureza. Agora era diferente. Por exemplo, se eu entrava num bosque ou numa selva eu me preocupava mais de mim em relação ao ambiente, aos ruidos, às sombras, aos caminhos desconhecidos; se me abeirava a um rio, ou me jogava a nadar num desejado banho rápido, ou somente passava ao lado dele, procurando não cair em um buraco, com o medo de afogar; se eu vinha surpreendido pela noite ainda na estrada jamais explorada, logo me assaltava um tremor pela escuridão.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Depois Coaracy me falou muito das coisas, dos animais, das plantas, até mesmo das pedras, de todas as coisas que estão em toda parte e de como tudo isso, sejam os animais que as plantas, os caminhos, as pedras, os cheiros, os odores, os perfumes, o calor, o frio, o fogo, a água, tudo ‚ era uma só coisa. Diante da natureza, sentindo assim, não sentes mais a diferença das coisas, nem a tua separação em relação a tudo. É por isso que podes caminhar no mato com os pés descalços e os espinhos não te machucam, nem as pedras.

 

Eu escutava quanto me dizia Coaracy e lentamente passei a sentir-me menos isolado das coisas. Até que um dia, eu passeava no mato já distante da aldeia, acompanhando das margens baixas o correr das águas de um rio. Meus passos se repetiam e, de repente, eu já não escutava o ranger das minhas botas que amassavam as folhas secas ou tropeçavam nos galhos ca¡dos. As águas corriam sempre e eu olhava para o rio como se tratasse não de uma superf¡cie l¡quida, mas de uma estrada luzente que me permitia de nela caminhar para onde quisesse e como. Eu caminhava, caminhava, e de repente fiquei fixando o rio e o mato e muitas horas se passaram assim no caminhar e o sol começava a cair por detrás de uma colina. Voltei para trás, como havia caminhado, procurando chegar de retorno à aldeia. Quando, tranquilo, vi de longe os fogos da aldeia porque começavam as primeiras sombras da noite, eu sorri comigo mesmo e corri alegre para a minha cabana de palhas.

 

Coaracy IV

 

Coaracy me disse que tudo vinha da natureza. Tudo. Porém, inicialmente eu não compreendia como ele via tudo isso, porque quanto mais eu dizia que poucas coisas eram boas, e más a maioria delas, ele me olhava e sorria. Eu não entendia porque Coaracy não fazia grande diferença entre as coisas que eu considerava más e as boas. Ele me fazia compreender que no mato existiam espíritos maus, mas o dizia como se isso não fosse perigoso, como se gostasse também dos espiritos maus. Os nossos entendimentos, que aumentavam sempre com o passar dos dias, quase nunca chegavam a boa coincidência sobre essas coisas. Eu não entendia do porque de Coaracy que sorria mesmo quando tratava dos espíritos maus.

 

Quando chegavam as trovoadas e as grandes chuvas, meu amigo me acenava ao trovão que espoucava de longe, que se aproximava, que estrondava sobre as nossas cabeças e mirava o lampejar faiscante dos raios mantendo sempre a constante serenidade. O demônio do trovão estava presente trazendo todos os perigos, decepando árvores com o cair fuzilante dos raios e inundando os espaços abertos diante das cabanas, mas Coaracy falava dele com o mesmo sorriso que tinha quando contava dos quarenta demônios da mata. Debaixo dos trovões e da chuva que caia incessante podia-se escutar os berros e ú¡vos dos cinquenta e seis bichos grandes que habitam a selva.

 

 

A chuva passava e as águas que eram muitas logo defluiam como se corressem para um grande lago subterrâneo. Então a gente sa¡a das cabanas e tudo recomeçava sob os primeiros raios do sol que retornava entre os galhos e ramos das árvores cada vez mais altas. As vozes soturnas da floresta se acalmavam e multicolorido vozear dos pássaros acompanhava a alegria dos movimentos de homens e mulheres e o brincar das crianças nos remansos das últimas águas que escoavam por entre as cabanas como infinitos fios rios luzentes.

  

Coaracy V

 

Coaracy conhecia tão bem a natureza que dela se servia para curar os doentes. Ele cuidava da saúde de seu povo e quando alguém dos seus adoecia ele logo chegava.

 

O contacto com o corpo do doente era um dos meios para curá-lo. Coaracy chegava e não deixava o doente enquanto ele não se levantava e caminhava bem e não retornava a seus afazeres. Coaracy tomava o doente pela mão, alisava-o por todo o corpo, chegava muitas vezes a mantê-lo abraçado a si por longo tempo. Depois soprava nele. Soprava nos olhos, nas orelhas, na boca. Ficava muito a soprar e enquanto o fazia, falava com o doente. Se o doente devia tomar um caldo quente, Coaracy tomava com ele; se devia permanecer a longo num banho, ele também banhava-se por todo o tempo.

 

Além do sopro Coaracy curava com a sucção ou com fumigação. Ele às vezes sa¡a das cabanas encharcado de suor pelo empenho da cura, mas era sempre o mesmo, cordial e afável, como se nada tivesse acontecido.

 

Coaracy curava também com o jejum ou a abstinência de alguns alimentos. Somente o uso da água não era jamais suspenso. Coaracy fazia de modo que os doentes bebessem muita água fresca. Ele mesmo se servia dela usando folhas de uma planta, que as tinha grandes ovais, de um verde verde com estrias que faziam com que a água deslizasse pelo centro do verde e chegasse copiosa, mas controlada, na boca do doente.

 

Para os mais graves, Coaracy usava até mesmo incisões. Suas mãos eram firmes no cortar com certeza o corpo adoecido. Depois colocava nas feridas manteigas cicatrizantes de plantas que ele mesmo preparara antes.

 

Vossa Senhoria pode estar surpreso porque muitas vezes eu falo de Coaracy no passado, quando Vossa Senhoria ja viu pessoalmente como ele continua sempre bem. Eu faço assim para me ajudar no conto, conduzir tudo no ritmo da memória. Quem sabe que esta não pode ser a maneira de fazer de pequenas coisas um enredo? Vossa Senhoria acha?

 

Volto a esses fatos. Coaracy curava com tudo, até mesmo com a pintura. Quando assim agia, ele passava longas horas a pintar o corpo do doente e enquanto o fazia falava com ele como se o estivesse preparando para as exibições mais habituais do doente no uso da pintura do corpo. Coaracy gostava muito de se pintar também e o fazia de maneira tal que ele parecia constante presença numa grande festa. Mostra-se sempre elegante e garboso.

Eu sempre indagava a Coaracy sobre as diferenças entre as pinturas que eles usavam; entre aquelas dos doentes e as outras, festosas ou de pura beleza. Nunca pude saber bem, porque os significados e usos da pintura são muito difíceis e eu sabia pouco ainda até mesmo do significado das cores que recobriam homens e mulheres nas diversas horas da vida da gente.

 

Coaracy chorava de alegria quando o doente ficava bom; quando o doente morria ele deixava a cabana e caminhava silencioso pela areia branca das praias, sempre na direção do norte.

 

(Continua)

 

 

 

publicado por João Machado às 21:00
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1 comentário:
De Luis Moreira a 29 de Março de 2011
Muito belo este romance.

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