Sábado, 26 de Março de 2011

Os Senhores Singulares - (O romance da revelação do Brasil) - 5 - por Sílvio Castro

 

 

 

 

 

 


 (Continuação)

 

O novo amanhecer.

 

 

Uma noite, não esquecerei jamais, eu não conseguia dormir, me levantei e saí da cabana. A penumbra ainda era forte, com uma cerração fria que antecipava a alva vizinha. Tudo era silêncio na aldeia e eu me encaminhei lentamente na direção da floresta. Nela também tudo era submerso pela penumbra noturna e se percebia apenas o estalar das árvores, o sutil movimento dos insetos noturnos, o ciciar quase apagado da brisa que começava a levantar-se, o murmúrio distante de águas. Quanto mais eu caminhava, deixando o bosque para internar-me na floresta, mais a penumbra.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

Parei em um dado momento porque, por entre a penumbra que coava em meio aos galhos das árvores cerradas, surgiam raios da luz embaçada do sol que se dissolvia na luz ainda imperceptível do alvorecer e os sons se movimentavam. Caminhando eu percebia tudo de longe e me internava não só naquele espaço de sombras, mas ia comigo mesmo, rememorando e ao mesmo tempo despojado de qualquer pensamento.

 

Parei em um dado momento porque, por entre a penumbra que coava em meio aos galhos das árvores cerradas, surgiam raios da luz embaçada do sol que ainda não se via, mas que estava subindo lentamente no nascente, diante de mim e de todo aquele mundo novo que eu desconhecia. Saído de mim, parei num espaço da floresta mais aberto e ali fiquei, como diante do mundo. Então, devagar, muito devagar, os ramos cerrados deixaram passar mais luz e a penumbra começou a iluminar-se e a brisa a refrescar com mais vigor ainda, como se recolhece das árvores, de todo aquele mar verde, o orvalho e o espalhace por todos os lados, num toque de carícias desconhecidas. Longe, a pouca luz se fazia mais intensa e de repente eu vi o sol que subia no horizonte. Como se me estivessem seguindo e aos meus sentimentos daquele evento, os seres e coisas da natureza começaram a levantar-se e a mostrar-se. No meu espanto sem nenhum temor eu vi então definirem-se os contornos das árvores; as menores mais próximas de mim deixavam espaços para que outras maiores se mostrassem e essas se prologavam nos longes em toda uma densa floresta que se descobria novamente verde, todos os verdes, na luz sempre mais intensa do sol. Eu seguia o caminhar da luz nas copas e ramos e percebia igualmente o despertar dos pássaros, infinitos pássaros escondidos que partiam de acordes indefinidos, para quase logo chegarem a um coro que aumentava, aumentava, e se fazia uma única mas variada voz. Eu estava dentro dos muitos verdes e das vozes, procurando descobrir o sentido delas, e logo do verde me chegavam aos olhos outras cores amarelo vermelho branco azul roxo verde verdevermelho verdeazul verderoxo vermelhoverde vermelhorosabrancoamarelo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Eu estava dentro de todas as cores da floresta e preso pelos sons e cantos de pássaros insetos feras, tudo encoberto pelo amanhecer que se fazia sempre mais claro. Como se sonhasse, todas essas coisas me envolveram, me tomaram completamente e eu já não só via os verdes e sentia os alvoroçados sons dos animais todos mas, como num mistério, de repente tudo se mostrou, flores, pequenas e grandes, margaridas, papoulas, orquídeas, rosas, e de meio a elas saiam borboletas multicolores, e papagaios, todos os papagaios, os pequeninos todo um verde, até aqueles imensos com seus rabos e bicos vermelhos e penas verdes e azuis, e melros, pintassilgos, sabiás, graúnas, canários, o anum, o bacurau, o inambu, e aves maiores, de vozes estridentes, o frango-d'água, a cegonha, e em meio às flores e às árvores de folhas curtas, compridas, ovais, quadradas, pentagonais, octogonais, filiformes, poliformes, os muitos bichos, macacos, pacas, tatus, tamanduás. Apartada, quase imóvel, a anta. Mais, ao longe, junto às águas de um riacho, a onça. Todo o mundo se mostrava aos meus olhos espantados, mas como se eu ali não estivesse.

 

De repente, quase sempre, me acometia uma intensa sensação de desassossego diante da minha vida. Eu não mais sabia ver o lugar onde me encontrava, perdia-o de vista, como se aquelas imensidades fossem espaços infinitos mas fechados, nos quais eu não sabia colocar os pés. Me sentia como que perdido no ar, flutuante e sem peso, levado para o cimo daquelas árvores altíssimas, mas do alto eu não via a terra, aquela terra, mas via a minha antiga de sempre e perdida. Minha mãe me aparecia de longe, e também muito próxima. Eu a chamava, ela caminhava para mim e eu lhe pedia para ficar comigo. Minha mãe me olhava com a sua doçura, o seu plácido belo rosto me sorria e eu queria que ela me abraçasse, me tomasse consigo. Ela me era como que vizinha, mas logo desaparecia e estava nas alturas sem medidas.

 

O medo de perder minha mãe, o grande medo de ficar sem ela naquele desassossego, me impelia a correr para ela. Mas eu não podia sair dali. Cansado, eu retomava uma quietude que não era serenidade, mas um artifício de medo que se organiza para não perder definitivamente a visão amada. Tudo então era muito difícil no desassossego e o artifício inventava de transformar-se em carta para minha mãe Minha querida e adorada mãe, como estou longe de ti e como sinto a tua ausência. O mundo‚ imenso na tua ausência e eu me sinto sempre mais pequenino diante deste mundo desconhecido. Quero que me venhas tirar daqui para levar-me à nossa casa, quero estar contigo na nossa casa. Estou aqui, mas quero sempre estar aí. Desejo sempre correr para junto de ti. Mas me sinto condenado a não poder sair daqui, estou preso para sempre à minha pena que mais aumenta quanto mais eu penso em ti. Eu não chego até aí para poder estar de novo contigo, mas terão chegado as saudades que por estarem tão distantes, comigo as tenho bem presentes.

 

(Continua)

 

 

publicado por João Machado às 21:00
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