Sexta-feira, 25 de Março de 2011

Cantinflas na ONU

 

 

 

 

 

 


(Representando um país hipotético – a República dos Cocos). Cenas do filme mexicano Su Excelencia, realizado por Miguel M. Delgado(1967)com Mario Moreno (“Cantinflas”) no principal papel.

 

<iframe title="YouTube video player" width="480" height="390" src="http://www.youtube.com/embed/xffOWShEM74" frameborder="0"

allowfullscreen></iframe>

 

 

 

 

<iframe title="YouTube video player" width="480" height="390" src="http://www.youtube.com/embed/1eboRWWgHVk" frameborder="0" allowfullscreen></iframe>

 

 

 

 

Tive a sorte de ser o último orador, o que muito me agrada, pois assim apanho-vos já cansados. Sei que, apesar da insignificância do meu país – que não tem poder militar, nem político, nem económico, e muito menos poder  atómico, todos os Senhores esperam com grande interesse as minhas palavras já que, do meu voto, depende o triunfo dos Verdes ou dos Vermelhos.

 

 

Senhores Representantes:

 

Estamos a atravessar um momento crucial em que a humanidade enfrenta a própria humanidade. Estamos a viver um momento histórico em que o homem: científica e intelectualmente é um gigante, mas moralmente é um pigmeu.

 

 

A opinião pública mundial está tão profundamente dividida em dois grupos aparentemente irreconciliáveis, que se dá a circunstância de um só voto; o voto de um país fraco e pequeno poder fazer com que a balança penda para um ou para o outro lado. Estamos, portanto, numa grande armadilha. Com um lado ocupado pelos Verdes e com o outro ocupado pelos Vermelhos. E chego eu, um peso-pluma, e do lado que me colocar, para lá penderá a balança! Digam-me por favor - Não acham que é muita responsabilidade para um só cidadão?

 

E porque também não considero justo que a metade da humanidade – seja qual for ela – venha a ser condenada a viver sob um regime político e económico que não é do seu agrado, somente porque um frívolo embaixador votou – ou que o tenham feito votar – num sentido ou no outro. E é por isso, que este vosso amigo que vos fala..., eu..., não votarei em nenhuma das duas teses (ouvem-se vozes de protesto no plenário).

 

E não votarei em nenhuma das duas teses, por três razões: Primeira, porque – repito - não seria justo que um voto de um só representante – que poderia neste momento estar doente do fígado – venha a decidir os destinos de cem nações;

 

 

Segunda, porque estou convencido de que os procedimentos - repito e sublinho: os procedimentos dos Vermelhos são desastrosos (ouvem-se vozes de protesto dos Vermelhos e aplausos dos Verdes). E terceira, porque estou convencido de que os procedimentos dos Verdes tampouco são os mais bondosos que se possa ter (agora, ouvem-se protestos dos Verdes e aplausos dos Vermelhos).

 

E se não se calaram imediatamente, não continuo o discurso e os Senhores ficarão com a curiosidade de saber o que eu tinha para lhes dizer. Insisto que falo de procedimentos e não de ideias e nem de doutrinas. Para mim todas as ideias são respeitáveis, ainda que sejam “ideiazinhas” ou “ideiazonas” e mesmo que eu não esteja de acordo com elas.O que pensa esse Senhor..., ou esse outro Senhor..., ou aquele Senhor (aponta)..., ou esse de bigodinho que já não pensa nada porque já está dormindo..., nada disso impede que sejamos, todos nós, bons amigos.

 

Todos cremos que a nossa maneira de ser, a nossa maneira de viver, a nossa maneira de pensar e até o nosso modo de andar são os melhores; e esse modelo tentamos de impô-lo aos demais e, se não o aceitam dizemos que “são isso e/ou são aquilo” e, imediatamente, entramos em desinteligências.

 

Os senhores acham que isso está correcto? A vida seria tão fácil se ao menos respeitássemos o modo de viver de cada um. Faz cem anos que disse uma das figuras mais humildes, mas mais importantes do nosso continente: - “O respeito pelo direito alheio é a paz” (aplausos).É disso que eu gosto! Não que me aplaudam, mas que reconheçam a sinceridade das minhas palavras.

 

Estou de acordo com tudo o que disse o Senhor Representante da Salsichonia  com humildade; com humildade de pedreiros independentes devemos lutar para derrubar a barreira que nos separa; a barreira da incompreensão; a barreira da mutua desconfiança; a barreira do ódio. E no dia em que conseguirmos, poderemos dizer que voamos por cima da barreira (risos).

 

Mas não a barreira das ideias, isso não..., nunca! No dia que pensarmos igual, actuarmos igual, deixaremos de ser homens para nos transformarmos em máquinas, em autómatos. Esse é o grave erro dos Vermelhos, o querer impor pela força as suas ideias e seu sistema político e económico. Falam de liberdades humanas, mas pergunto: - Existem essas liberdades em seus próprios países? Dizem defender os Direitos do Proletariado, mas seus próprios trabalhadores nem sequer possuem o direito fundamental à greve. Falam da cultura universal ao alcance das massas, mas prendem os vossos escritores porque  se atrevem a dizer a verdade. Falam da livre determinação dos povos e, no entanto, há cem anos oprimem uma série de nações sem lhes permitir que escolham a forma de governo que mais lhes convenha. Como podemos votar por um sistema que fala de dignidade e, a seguir atropela o que há de mais sagrado da dignidade humana que é a liberdade de consciência, eliminando ou pretendendo eliminar Deus por decreto?

 

Não, senhores representantes, eu não posso estar com os Vermelhos ou, melhor dizendo: com sua maneira de actuar. Respeito o seu modo de pensar, mas não posso dar meu voto para que seu sistema se implante pela força em todos os países da terra (ouvem-se vozes de protesto). Aquele que quiser ser Vermelho que o seja, mas que não pretenda tingir os demais (os Vermelho levantam-se para sair da Assembleia): - Um momento, jovens! Senhores! Porque sois tão sensíveis? Os senhores não aguentam nada, não? Eu ainda não terminei. Voltem aos vossos lugares. Já sei que estão acostumados a abandonar a estas reuniões quando ouvem algo que não é de seu agrado; mas não terminei. Voltem aos vossos lugares, não sejam precipitados..., ainda tenho que dizer algo sobre os Verdes. Os senhores gostariam de ouvir? Sentem-se! (Toma um gole de água e faz gargarejos, mas apercebe-se de que é Vodka) Agora, meus queridos colegas Verdes. O que disseram os Senhores?

 

- Já votou por nós? Não?

 

- Pois não jovens. Não votarei por vocês porque vocês também tem muita culpa por tudo que acontece no mundo. Sois soberbos como se o mundo fosse todo vosso e todos os outros tivessem uma importância apenas relativa. E ainda que falem de paz; de democracia; e de coisas muito bonitas; as vezes também pretendem impor sua vontade pela força e pela força do dinheiro. Estou de acordo que devamos lutar pelo bem colectivo e individual; que devamos combater a miséria; que devamos resolver os tremendos problemas de habitação, do vestir e do sustento. Mas com o que não estou de acordo é com a forma que vocês pretende resolver esses problemas.

 

Vocês também sucumbiram ante o materialismo, esqueceram os mais belos valores do espírito. Pensando somente nos negócios, pouco a pouco foram se convertendo nos credores da humanidade e, por isso, a humanidade lhes vê com desconfiança. No dia da inauguração desta Assembleia o Senhor Embaixador da Ladaronia disse que o remédio para todos os nossos males estava em: ter automóveis, refrigeradores, televisores; puxa..., e eu me pergunto: Para que queremos automóveis se ainda andamos descalços? Para que queremos refrigeradores se não temos alimentos para colocar neles? Para que queremos tanques e armamentos se não temos escolas para nossos filhos (aplausos)?

 

Devemos lutar para que o homem pense na paz, mas não somente impulsionado pelo seu instinto de conservação, se não, e fundamentalmente pelo dever que tem de superar-se e de fazer do mundo um local de paz e tranquilidade cada vez mais digno da espécie humana e de seus altos destinos. Mas essa aspiração não será possível se não houver abundância para todos; bem-estar comum, felicidade colectiva e justiça social. É verdade que está em suas mãos - dos países poderosos da terra, Verdes e Vermelhos -, o ajudar a nós, os fracos, mas não com presentes, nem com empréstimos, nem com alianças militares.

 

Ajudem-nos pagando preços mais justos, mais equitativos pelas nossas matérias-primas; ajudem-nos dividindo connosco os vossos notáveis avanços na ciência, na tecnologia..., não para fabricar bombas, mas para acabar com a fome e com a miséria (aplausos). Ajudem-nos respeitando nossos costumes, nossas crenças, nossa dignidade como seres humanos e a nossa personalidade como nações, por pequenos e frágeis que sejamos. Pratiquem a tolerância e a verdadeira fraternidade, e nós saberemos corresponder-vos. Mas deixem imediatamente de nos tratar como simples peões no tabuleiro de xadrez da política internacional. Aceitem-nos como somos, não somente como clientes ou como ratos de laboratório, mas como seres humanos que - sentem, sofrem e choram. Senhores representantes, há outra razão pela qual  não vos posso dar meu voto: Faz exactamente vinte e quatro horas que apresentei a minha demissão como Embaixador do meu país. Espero que seja aceite.

 

Consequentemente, não lhes falei como diplomata, mas como um simples cidadão; como um homem livre; como um homem qualquer; que, não obstante, crê interpretar ao máximo as aspirações de todos os homens da terra; as aspirações e os desejos de viver em paz; o desejo de ser livres; o desejo de entregar aos nossos filhos e aos filhos de nossos filhos um mundo melhor; em que reine a boa vontade e a concórdia. E que fácil seria, senhores, alcançar esse mundo melhor em que todos os homens brancos, negros, amarelos e pardos, ricos e pobres pudessem viver como irmãos. Se não fossemos tão cegos,  obcecados, e orgulhosos. Se orientássemos as nossas vidas pelas sublimes palavras que, há dois mil anos, disse um humilde carpinteiro da Galileia, simples, descalço, sem fraque nem condecorações: “Amai-vos, amai-vos uns aos outros!”.Mas

haveis entendido mal, confundido as palavras.

 

E o que fizestes? E o que fazeis?

 

 “Armai-vos uns contra os outros!”

 

Tenho dito!

 

 

publicado por João Machado às 15:00
link | favorito

.Páginas

Página inicial
Editorial

.Carta aberta de Júlio Marques Mota aos líderes parlamentares

Carta aberta

.Dia de Lisboa - 24 horas inteiramente dedicadas à cidade de Lisboa

Dia de Lisboa

.Contacte-nos

estrolabio(at)gmail.com

.últ. comentários

Transcrevi este artigo n'A Viagem dos Argonautas, ...
Sou natural duma aldeia muito perto de sta Maria d...
tudo treta...nem cristovao,nem europeu nenhum desc...
Boa tarde Marcos CruzQuantos números foram editado...
Conheci hackers profissionais além da imaginação h...
Conheci hackers profissionais além da imaginação h...
Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
Eles são um conjunto sofisticado e irrestrito de h...
Esse grupo de gurus cibernéticos ajudou minha famí...

.Livros


sugestão: revista arqa #84/85

.arquivos

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

.links