Quinta-feira, 24 de Março de 2011

Os Senhores Singulares - (O romance da revelação do Brasil) - 3 - por Sílvio Castro

 

 

 

 

 

 


 (Continuação)

 

 

 

 

Vossa Senhoria me deve consentir: eu sei que o vosso desejo agora é que eu conte todo o resto do encontro, mas creio que preciso visitar todas as minhas lembranças dos eventos, pois de repente já não sei se cheguei ou se estou ainda na viagem. Parece que estou ainda na navegação; é noite e na tolda da capitânea se representa um auto, com tochas e belos movimentos de cena. Como em geral acontecia com as festas do nosso Comandante, essa era muito bela. O auto,  muito bem representado, com todos os aparatos, como se fosse num teatro de Lisboa. Vejo tudo como se ainda estivesse ali. Contando, é como se o tempo fosse um só e eu me sinto sempre em viagem. Pero Vaz acaba de me dizer que amanhã logo cedo baixaremos à terra, e em quanto o escuto, como fiz por muitas vezes na navegação, é como se navegasse junto com Pero Vaz. Ele, como eu, não é prático de navegação, mas é um homem sábio e logo o mar não lhe tem mais mistérios. Eu temo tudo, o abandonar da minha terra, o encontro com novas. Estou sempre por naufragar, mas sinto que nenhuma praia me poderá recolher das águas. Pero Vaz diz que devo ter esperança, pois tudo se acerta. Iremos até as Índias, lá criaremos uma vida, para maior glória do Rei nosso senhor. Tudo se acerta. Mas sinto que o meu naufrágio é certo, ainda que as palavras de Pero Vaz sejam boas. O mar é longo e estou preso nele. Olhe as estrelas, me diz Pero Vaz, como são belas e como nos indicam os caminhos. Preciso falar todas as noites com as estrelas, me diz Pero Escobar, pois as estrelas são ruas dentro do mar. O piloto maior fala muito assim com Pero Vaz.

 

Agora estou de novo no dia 22 de abril. Amanhã iremos encontrar a terra pela primeira vez. O que está por detrás dessa penumbra e do meu constante tremor?

 

O esquife comandado por Nicolau Coelho, outro grande capitão como Bartolomeu Dias, estava pronto. Nele estávamos também Pero Vaz, que desde então devia, por ordem do nosso Almirante, recolher todas as notícias para mandá-las a El-Rei; o Mestre João que devia fixar os acidentes da terra; o piloto Afonso Lopes, homem vivo e competente nas suas artes, além de dez marinheiros muito armados. Quanto mais o esquife se aproximava da praia, mais crescia o meu tremor. Já distinguíamos a praia e a floresta que lhe estava por detrás.

 

 

 

A distância de menos de cinquenta metros, com as ondas mais baixas, podíamos ver bem a terra. Na praia estavam muitos homens nativos. O esquife avançava e nós víamos os homens que seriam mais de trinta, armados de arcos e flechas. Nicolau Coelho gritava do escaler e lhes comandava de deitar as armas por terra. Os homens nos fixavam curiosos e o capitão continuava a gritar. Alguns deles, depois de pouco tempo, deitaram arcos e flechas. Logo em seguida a maioria deles fez o mesmo. Alguns mantinham as armas nas mãos, incrédulos dos gritos de Nicolau Coelho. O esquife agora já está a poucos metros da praia. O capitão ordena ainda e com voz mais forte. Os últimos desses nativos deitam as armas por terra. Descemos. Logo alguns deles vieram nos ajudar a arrastar o esquife. Nicolau Coelho procurou falar com eles, mas não nos compreendíamos senão por gestos. Eles falavam uma língua desconhecida para todos nós e por isso tivemos muito pouca possibilidade de nos compreender. O nosso capitão falou então com um deles que parecia o chefe. Não é que este se distinguisse muito dos outros, pois todos estavam completamente nus, e se misturavam nos movimentos de encontros e desencontros que tínhamos. Porém, este para o qual Nicolau Coelho se dirigia mais diretamente era mais altivo e tinha uma fisionomia forte e clara. O nosso capitão ofereceu-lhe prendas, pequenas quinquilharias, que ele muito apreciou. Os outros logo se aproximaram para ver aquilo e em seguida demonstraram que também queriam receber daqueles presentes. O primeiro tirou da cabeça uma espécie de chapéu de penas de aves, muito coloridas, e com muita dignidade as ofereceu a Nicolau Coelho. Desta maneira começaram os nossos encontros.

 

 

A gente da terra logo demonstrou um espírito afável e cordial, recebendo-nos com demonstrações de grande hospitalidade. Logo nos deram a impressão de ser gente mansa e gentil, sem temores de desconhecidos, ao contrário de nós que, mesmo muito armados, sempre temíamos por tudo. 

 

 

O primeiro encontro foi demorado, passeamos pela praia ao longo e ao largo, tocamos os primeiros espaços do bosque, caminhamos pela terra de muitas palmeiras e frutas por muito tempo até junto a um rio não muito grande que desaguava naquela parte do mar. Nas margens desse rio encontramos outras gentes, homens e mulheres, todos eles igualmente nus como aqueles que nos acompanhavam. Porém estes últimos não se aproximaram de nós. Voltamos para onde estava o nosso esquife e Nicolau Coelho ordenou o regresso às naves. Enquanto o esquife se encaminhava na direção das caravelas ancoradas ao largo, da praia os nativos nos acenavam festivamente, como que nos convidando a ficar.

 

De novo a bordo, eu pensava sobre aquela grande experiência e já não sentia o mesmo tremor da manhã. O alvoroço nas doze caravelas era grande, mas eu me sentia mais tranquilo, ainda que um dito de Pero Vaz me haja deixado sem saber ou compreender. O escrivão, quando de novo subíamos a bordo da nossa nave, me disse Afonso, para nós deverás ser a voz desta gente. Depois eu pude entender o que Pero Vaz me queria dizer com aquelas palavras. Porém foi preciso que se passassem muitos dias, daquele 22 de abril da chegada, até o 2 de maio da partida. Da partida sem mim.

 

(Continua)

 

 

 

 

publicado por João Machado às 21:00
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