Terça-feira, 22 de Março de 2011

Um dia com a Arte - Adão Cruz

 

 

Adão Cruz  Um dia com a Arte

 

(ilustração de Adão Cruz) 

 

Há muito tempo que não falo contigo em público, mas penso em ti todos os dias e vivo-te intensamente. No entanto, não ando lá

muito satisfeito contigo, melhor dizendo, não estou muito convencido da verdade da nossa relação. Cá para nós, também não acredito muito nos orgasmos daqueles com quem privas e a quem iludes tanto ou mais do que a mim.

 

A plenitude contigo, bem como a plenitude com a tua amiguinha poesia - única valência humana que transcende a natureza - seria um contra-senso se conduzisse à frustração. E eu não vejo os teus amantes, por mais convencidos que pareçam, libertar-se das desilusões e frustrações. Apercebo-me de que, como eu, procuram constantemente mendigar o afecto que teimas em não me dar.

 

Todos os planos se interceptam no universo policromático e polipoético que cria o labirinto onde te escondes. O teu secreto reduto, em permanente movimento pelos céus do incriado, torna a tua posse impossível por infinitamente diversa e fugidia em cada momento da vida. Todos os meus pressupostos interpretativos na gestão do acto criativo fazem-te rir, eu sei. Todos os pressupostos não são mais do que a dilatação da memória e a memória dificilmente coexistirá com a tentativa de dissolução das experiências pessoais.

 

Eu não moro em ti mas moro mais em ti do que em qualquer outro lugar. Por tu o saberes, obrigas-me a ser um guardião de ruínas, medindo a palmos de esperança e futuro a arqueologia da vida. Na ânsia da tua vasta presença e no paulatino destapar das sucessivas camadas da realidade complexa, fazes de mim uma espécie de geólogo do meu próprio íntimo.

 

Não tenho medo nem vergonha de me preocupar com a arte, de me preocupar contigo. Tenho medo, isso sim, daquilo que o reaccionário Flaubert chamara a maré de merda que inunda o nosso estado mental. Nada nem ninguém se preocupa a sério contigo. A infinita estupidificação corre o mundo como uma conjura contra a poesia e a liberdade - as asas que te eternizam - e faz dos homens caricaturas, arremedos de arte, habitantes de quatro paredes onde não cabem as cores da inteligência e da edificação das palavras. O Homem encerrado na prisão dos actos controlados e das pseudo-vontades, longe da luz e da razão.

 

Caminhamos na rota da sombra, na conspiração do silêncio - a pérfida administração do silêncio é a melhor arma de matar ambições - , aos encontrões no nevoeiro, sem terra debaixo dos pés, à procura de um ponto de apoio, à procura da verdade, de um princípio seguro e fiável da verdade. Já reparaste que me escondes sempre a verdade? A verdade senta-se na paleta mas tu trocas as cores da verdade pelas tintas da fama. Eu sei que todos temos direito ao nosso quarto

de hora de fama, ainda que passemos uma vida inteira sem verdade. Gauguin nunca entendera a desordem de Van Gogh e Van Gogh nunca entendera a ordem de Gauguin. No entanto, a procura da verdade fora, provavelmente, o seu único acto comum, a consonância da arte que fez da substancialidade da pintura a ressonância dos tempos. A arte é a arte e a vida é a vida, mas viver a vida artisticamente é a arte da vida.

 

Penso que o pensar é uma garantia imediata do caminho da verdade, sem grandes coincidências de fundo mas com poderosos ecos na expressão e no rastreio da exactidão, ainda que não deixe de nos acompanhar uma dúvida imensa e incancelável. Quem tem as certezas e as verdades dos histriónicos e narcísicos trata a arte como os homens tratam as putas. Utilizam-nas e elas sorriem-lhes mas não os amam. Dizem eles que o tempo da beleza já passou e que a arte será cada vez mais científica e a ciência cada vez mais artística. A arte e a ciência, a ciência e a poesia podem confundir-se, é certo, quando a perversidade dá lugar à música do percurso. A arte e a ciência, a poesia e a ciência tocam-se numa espécie de sexo tangencial.

 

O engenho humano manipula hoje a intimidade do genoma, e a genética tornou-se um artístico poder de conhecer, predizer e mudar a vida através da enciclopédia do Homem e dos três mil milhões de unidades que a compõem. Mas se a ciência pode conviver contigo, a numerologia da arte pode ser o diabo a cortar-te os braços para com eles se persignar. Todo o homem que te ama de verdade não é cabotino e morre sempre na incerteza do seu próprio valor.

 

Na vida dizemos muitos adeuses. A lugares, amigos, relações, a gente que morre e a gente que se despede, coisas que se acreditam e nos enganam. Só com a verdade não é permitido romper. Mas as tuas falsas verdades...!

 

Consideras divertido esse teu espaço eleito como ideal mítico, fresco e atractivo, capaz de nos catapultar até à excelência interpretativa. Mas o que nos mostras, a mim pelo menos, é uma cortina de fumo que me esconde o fogo e a espontaneidade. Entre amanheceres e crepúsculos exiges-me a verticalidade do meio-dia, amargamente impossível neste balancear incessante entre a intensidade do meu sentir, a que não é alheia a tua sensualidade, e a polarização dialéctica, formal e simbólica.

 

 

Dentro das alegorias possíveis e de uma espécie de polifonia pictórica, considero-te a música do Universo, a mulher reinventada nas vivências e passagens do tempo, elemento de candor poético na intimidade afectiva do quotidiano. Nunca te outorguei o exíguo papel que outros te atribuem, quem sabe, decorrente do hormonalismo poético da tua imagem feminina. Mas pago bem caras a aspiração da tua pureza, a procura da tua inocência, a adoração da tua beleza, a ansiedade do teu absoluto que fazem de mim um náufrago de sonhos preso nos lastros da realidade.

 

Muitos caminhos conduzem à impostura, e a única fonte do belo está em nunca nos separarmos de ti, rompendo a verdade. Ao despedirmo-nos de ti, aliciados por modernas metáforas do pensamento banal, a nossa própria imperfeição nos basta, nos ilude e nos realiza. Toda a mercadotecnia da arte, tanto mais ruidosa quanto mais artisticamente vazia, não passa de um barco à flor das águas quietas, uma falsa harmonia de mera fruição de contemplação, sem nada que a prenda medularmente ao artista, sem a luz e os espaços utópicos que a libertem da incorrecção do mundo.

 

Desafirmação, descriação. desconstrução de emoções e poemas, despintura interior, descoloração da memória e do tempo - o que não é o mesmo que destruição - são a força que move a consciência dos tranquilos. O atrevido desconcerto das palavras, quando é bonito dizer-se que o poeta domina as palavras como se as levasse voando, o desfazer dentro de nós da ordem e da criatura a fim de tentar abordar o não criado, são as ondas que na apatia do mar sereno tornam os poemas habitáveis e fazem da arte a real experimentação da vida. É muito grande a distância que nos separa do belo, e longo o caminho da libertação e renúncia que é preciso percorrer para dele nos aproximarmos. Picasso que o diga.

 

Ainda que isso pressuponha o contratempo de não estar na moda, é imperioso acreditar que a rotura da mentira não faz a moda, e que a moda é o crime estético por excelência. A moda gira sobre si mesma para que nada mude a verdade-mentira. Se me permites um humilde conselho, foge das globalizações e hegemonias, geradoras de défices éticos e artísticos que fazem de ti uma mulher subalterna. Também te digo que há pouca necessidade de dizer sim ou não se o terreno não é fecundo e se a vida não é mais do que imitação de si própria, se os fundos cálidos e cromáticos não nascem do destilar das horas e da vida, e se o diálogo de alegrias e desânimos não liberta a prisão natural de ser humano.

 

A indiferença como forma de vida, a paixão da indiferença, a celebração da indiferença podem matar-te. Muitos dos consumidores da artificiosa etiqueta, e dos argentários modeladores do mundo, instalados num presente sem fissuras e no acanhado espaço da exclusiva liberdade individual, em cujo peito o pulsar político-social, poético e artístico não é mais do que um coração de asfalto, fabricam a ignorância, a incultura e a amoralidade necessárias à tua morte e à sobrevivência elitista. Sobre ti, basta-lhes o escolástico provérbio: De gustibus et coloribus non est disputandum (não há que discutir gostos e cores).

 

Uma vez na crista da onda, agarram-se ao mando e passam a mandar no mundo, porque a sua fé lhes garante que a corrupção acompanha o poder como a sombra acompanha o corpo. Obreiros de um futuro podre, desconhecem a formosa face de uma alma nua e o apaixonante canto da arte e da vida em dignidade social.

 

Por mim, ainda que um tanto desconfiado, prefiro continuar a dizer-te:

Quando levas um seio ao vento e me dás a beber campos e cidades, glorifico a pouca luz que ainda me resta.

Se os lobos se atravessam no caminho para a tua cabana, o vento ergue-me nos ares e o coração aprende a não ter medo de cair.

Descobridor de sonhos, de amanhãs que riem e de estuários, continuo a pintar o vento contigo, ainda que nele te vás.

 

Deixa-me

sozinho no meu barco à entrada do mar, mas não cubras a manhã fria do teu corpo, que o sol pode, um dia, chegar.

 

publicado por Augusta Clara às 19:00

editado por Luis Moreira às 19:12
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