Segunda-feira, 7 de Março de 2011

O caso Profumo – por Carlos Loures

   

 

Vai fazer no próximo Verão meio-século – foi em 1961, em plena Guerra Fria. Numa reunião social em torno da piscina da moradia de Lord William Astor, em Buckinghamshire, o Dr. Ward, aquilo a Fernão Lopes chamava um alcoveta -–  hoje usamos a designação de proxeneta - as palavras mudam, a natureza humana não -  apresentou uma rapariga de 19 anos, modelo, corista, prostituta, ao secretário de Estado da Guerra, John Dennis Profumo, Jack Profumo para os amigos (Londres, 30 de Janeirode 1915 — Londres, 9 de Março de 2006). Habituado a prestar “favores” deste género, não podia adivinhar o sarilho que estava a arranjar.

 

Vou contar a história em traços muito largos.

 

Na Primavera de 1963, explodiu uma bomba na pátria da respeitabilidade e das virtudes aparentes que a prolongada época vitoriana tatuou a fogo na idiossincrasia britânica. Um drama político levou à desonra pública de John Profumo, secretário de Estado da Guerra, à demissão de Harold Macmillan, primeiro-ministro, e ao suicídio do Dr. Stephen Ward, um osteopata da moda que apresentou Christine Keeler ao ministro

Profumo manteve  uma relação com ela. Sendo casado, a aventura configurava um caso de adultério, mas, mesmo para a mentalidade vitoriana, o adultério não constituía crime por aí além, desde que conduzido discretamente. Byron dizia que o adultério é mais comum quando o clima aquece. E, quando Christine foi apresentada a Profumo a Inglaterra estava sob uma onda de calor.

 

Porém, havia um dado que o político desconhecia: rapariga empreendedora, Christine tinha ao mesmo tempo uma ligação com o adido naval da embaixada soviética em Londres, Yevgeny Ivanov. O MI5 depressa descobriu este pormenor e, através de Sir Roger Hollis, Profumo foi avisado. Em  Agosto de 1961, escreveu à jovem, informando-a de que o “romance” terminara. E, afinal, o verdadeiro romance ainda nem sequer tinha começado.

Em Março de 1963, a história chegou aos jornais e o escândalo rebentou. Todos os dias se descobria um novo pormenor escabroso para alimentar o fogo sagrado do interesse do público. Não vou pormenorizar, embora o pudesse fazer. Na minha frente tenho “Um estudo do caso Profumo” assinado por Clive Irving, Ron Hall e Jeremy Wallington”. Folheei-o e retirei uma ou outra informação.

 

Resumindo: Ward apresentara também Christine a Ivanov. Durante uma partida de brídege falou nas pessoas ilustres que conhecia, pois além de proxeneta era gabarola. Terá referido Profumo e, gulosas, as orelhas do espião soviético estremeceram. Durante o inquérito, descobriu-se que havia cheques de dívidas de jogo entre Ward e Ivanov, o que talvez fosse irrelevante, pois tratava-se de pequenas importâncias, mas deu azo a que se sugerisse que Ward recebera dinheiro para, através da rapariga, criar uma linha directa entre Profumo e Ivanov, entre o ministério britânico da Guerra e o KGB. Nada de conclusivo se descobriu, no entanto.

 

Como quem espreme uma vaca o filão das revelações parecia inesgotável .As revelações foram surgindo, umas verdadeiras, outras inventadas. Todas exageradas pelas gentes da comunicação, animais necrófagos, como se sabe. Stephen Ward não aguentou a pressão e, em Agosto de 1963, suicidou-se, Harold Macmillan demitiu-se. Profumo prosseguiu a sua vida e morreu com 91 anos em 2006. E Christine?

Christine Keeler prosseguiu com a sua carreira de corista. Viu-se envolvida num tiroteio com gente do submundo londrino e foi presa por ter perjúrio no processo que julgou o caso.

 

 

 

Estão a ver a foto à direita? Christine Keeler foi convidada por Lewis Morley a posar nua. Embora respeitando pudicamente os critérios da censura da época serviu de promoção a uma peça de mobiliário – a chaise 3107 de Arne Jacobsen. O «escândalo Profumo» deu lugar a numerosos livros e filmes. Como disse Cícero, O tempora! O mores! A frase faz sempre sentido, pois em todos os tempos os costumes são dissolutos.

 

No fundo, o único crime de que puderam acusar Profumo foi o de ter mentido, o de ter negado o envolvimento com a prostituta, quando os jornalistas começaram a assediá-lo. Por ser mentiroso, levou o primeiro-ministro à demissão, o proxeneta ao suicídio e arranjou um sarilho em que a corista foi a única que beneficiou, pois foi promovida a figura pública. A corista e os donos dos jornais, que viram as tiragens aumentar enquanto o filão não se esgotou.

 

Meio século depois, as coisas mudaram e os escândalos são outros, a perspectiva de que os analisamos é diferente. O insaciável apetite dos jornalistas por carne morta terá sido das poucas coisas que não mudaram. O “Caso Profumo” que visto com a isenção que distância nos confere, nada teve de transcendente, deu lugar a numerosos livros, a filmes e, sobretudo, a crónicas de imprensa, entrevistas.

 

Um limão espremido até aos caroços.

 

publicado por Carlos Loures às 12:00
link | comentar | favorito
1 comentário:
De Luis Moreira a 7 de Março de 2011
Foi um escândalo e tanto , tendo cá chegado envolto em celofane.

Comentar post

.Páginas

Página inicial
Editorial

.Carta aberta de Júlio Marques Mota aos líderes parlamentares

Carta aberta

.Dia de Lisboa - 24 horas inteiramente dedicadas à cidade de Lisboa

Dia de Lisboa

.Contacte-nos

estrolabio(at)gmail.com

.últ. comentários

Olá a todos, Precisa de serviços de hacking? TESTA...
Olá a todos, Precisa de serviços de hacking? TESTA...
Olá, há algumas semanas, encontrei-me com um grupo...
Olá, há algumas semanas, encontrei-me com um grupo...
i was lost with no hope for my wife was cheating a...
Olá a todos, Precisa de serviços de hacking? TESTA...
Olá a todos, Precisa de serviços de hacking? TESTA...
Este é um grupo profissional de hackers com década...
Este é um grupo profissional de hackers com década...
Olá, há algumas semanas, encontrei-me com um grupo...

.Livros


sugestão: revista arqa #84/85

.arquivos

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

.links