Segunda-feira, 7 de Março de 2011

Memorial do Paraíso - 5, por Sílvio Castro

 

 

 

 

 

 


 

O romance do descobrimento do Brasil

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

FESTA PARA O PRÍNCIPE VENTUROSO.

 

 

ATO 4º


(A cena é o convés semi-iluminado da nau-capitânea. Do alto das velas os marinheiros que trabalham em afanoso empenho de amainar entoam uma moda dolente. Nos intervalos dos cantos, gritam os gaveiros em espaçados momentos que combinam com o cantar das velas: "Avante!". Finalmente as velas se compõem. No timão da nau-capitânea um vulto semi-encoberto pelas sombras guarda o horizonte fechado, o marulhar das ondas e as luminosas estrelas desse céu. Ao centro da cena entra o Mensageiro)

 

Ah! doce Príncipe,

quero Vos falar dessa navegação maravilhosa! Já os tristes eventos da desgraça de Vasco de Ataíde e seus marinheiros ficaram escondidos nas brumas do nosso imenso desejo de esquecê-los, para não revivê-los a cada instante, e já nós caminhamos sem outros limites que a ansiedade de chegar. Chegar, mesmo que seja aquele ponto final onde nenhum homem nunca chegou. Para os Vossos súditos, precioso Senhor, os reveses da fortuna são apenas incentivos para novos gestos. Nós, portugueses, sempre aprendemos a superar os fados. As desgraças nos assaltam nesses mares; os Vossos filhos, muitos dos Vossos filhos melhores se perderam nessas ondas tormentosas. Coalhados de barcos lusíadas são esses abismos. Mas nós, doce Príncipe, de todas essas desgraças tiramos novas forças. Os filhos de Portugal se redobram em pujança diante do Tormentoso e não temem os cortejos de espectros.

 

Príncipe,

 

vede, ali está o valoroso Pero Escolar. Os espectros dançam diante de seus olhos, procuram desviá-lo da sua rota, atraí-lo para o fundo convexo onde bailam enlouquecidos. Mas Pero Escolar é um forte; fixa sempre adiante, sempre avante, para onde correm as correntes desconhecidas.

 

"Quem vem lá? Ah! és tu, Pero Vaz?" "Que queres, caro amigo, em meio a tantas sombras? Não sabes que a noite deseja agasalhar os justos como ti? Confia na noite e teu sono será sereno. Não vês que tenho tranqüilamente nas mãos o leme? Sei que temes por este longo caminhar. Estamos indo sempre avante, sempre e não conhecendo que mar é este que se abre aos nossos olhos a cada instante e novo. Certo é que de um momento ao outro ele poderá fechar-se, de surpresa. Por isso eu miro sempre, Pero Vaz, aquela estrela, aquela lá, luminosa, belíssima. Ela é o meu norte, a minha guia. Ela é a minha alva, mas também a minha tarde. A minha estrela dalva, que me cobre os olhos de luz, abrindo-me caminhos, é aquela lá."

 

Principe,

 

esse é o piloto da Vossa caminhada. Com a segurança de seus braços, Vossos filhos e barcos superarão esses mares. Caminhamos sempre e sabemos para onde vamos.

 

Olhai, são os Vossos barcos essas velas que se inflamam ao contato da salsugem do ar. Os silvos que escutai são os gaveiros que não dormem, para maior glória de seu Soberano. A viagem continua a cada dia e a cada dia mais certa de descobertas.

 

22 de abril, quarta-feira

 

Valeu, valeu viver muitos anos não sempre felizes, minha querida Maria, para chegar até este dia de hoje. Valeu sofrer tantos reveses e afrontar mil dificuldades para ver e viver o que estou vendo e vivendo. Minha Maria, a partir daqui quero controlar-me o mais que me for poss¡vel para contar-te tantas maravilhas. Quero que tu as vejas, querida filha, assim como posso vê-las, e possas retê-las nos teus olhos. Te quero alegre e feliz. Te contarei tudo, livremente, completamente.

 

Eram as horas das vésperas quando avistamos esta terra que agora quando a noite começa a cair vejo extasiado diante de mim. Daqui do largo, apoiado ao bordo da minha nau, fixo sem cansar-me a terra. Entre mim e ela o mar é azul e eu percorro a sua distância até a praia e chego à terra. Assim como eu, mil olhares atônitos se fixam na terra. O silêncio cobre tudo, o marulhar das ondas, as vozes estridentes das gaivotas, o azul do mar, o lento cair da noite, as sombras, os passos nos conveses, as vozes de comando, o movimentar das velas no soprar da brisa. Sinto em tudo isso o espírito de Deus.

 

Quando, de repente - mas sabendo - nesta quarta-feira de maravilhas nossos barcos viram no horizonte a massa, inicialmente quase indistinta, depois lentamente mais clara, alta, altaneira, redonda, daquele monte, e logo depois outras serras mais baixas e mais terras, tantas terras, todos nós tínhamos consciência que um grande evento estava acontecendo. Os barcos continuavam a caminhar na direção da terra e nossos olhares a cada passo mais e mais se enchiam de descobertas. Os capitães, todos os capitães estavam ao lado de Pedro Álvares Cabral, na proa da nau-capitânea, e então o nosso Comandante chamou aquele monte, Monte Pascoal e aquela visão de maravilhas, Terra de Santa Cruz.

 

Agora é noite, minha querida Maria, e as naves estão ancoradas, numa ancoragem limpa que faz com que esta noite nos conforte toda a alma diante de tantas certezas.

 

 

 

publicado por João Machado às 21:00
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