ARTE POÉTICA (ou A Espístola aos Pisões) - fragmentos
Tomai um assunto, vós que escreveis, proporcional às vossas forças. Avaliai longamente o que os ombros ferrenhamente recusam e o que podem. A quem escolheu conforme suas forças, nem a eloqüência o abandonará, nem a ordem clara. Consistirá a força e a beleza da ordem, ou estou enganado, em que o autor do poema anunciado diga agora as coisas que agora devem ser ditas, muitas outras adie e omita no momento, ame isso, despreze aquilo.
Delicado e cauto também ao juntar palavras, te expressarás distintamente se, por combinação engenhosa, uma palavra conhecida produzir uma nova. Se casualmente for necessário mostrar o oculto da coisas com revelações novas, e acontecer de se criar coisas nunca ouvidas pelos Cétegos cintudos, permissão será dada, se usada com reserva, e as palavras inventadas ainda novas terão crédito se, derivadas com discrição, caírem de fonte grega. Concederá, pois, o romano a Cecílio e Plauto o que foi proibido a Virgílio e Vário ? Eu, por que sou invejado, se poucas coisas posso obter, quando a linguagem de Catão e Ênio enriqueceu a língua pátria e exibiu novos nomes de coisas?
Sempre foi e será permitido criar um nome assinalado com marca do presente. Como as florestas são transformadas por suas folhas com o passar dos anos, caindo as mais velhas, assim se perde a geração antiga das palavras e, como os jovens, florescem as nascidas há pouco e vingam.
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Nuno Júdice (Mexilhoeira Grande, 1949)
ARTE POÉTICA COM CITAÇÃO DE HÖLDERLIN
O poema lírico nasceu de uma roseira. Não digo que fosse a rosa de cima, aquela que todos olham, primeiro que tudo, pensando em cortá-la para a levarem consigo. É a rosa nem branca nem vermelha, a rosa pálida, vestida com a substância da terra a que toma a cor dos olhos de quem a fixa, por acaso, e ela agarra, como se tivesse mãos abstractas por dentro das suas folhas. Colhi esse poema. Meti-o dentro de água, como a rosa, para que flutuasse ao longo de um rio de versos. O seu corpo, nu como o dessa mulher que amei num sonho obscuro, bebeu a seiva dos lagos, os veios subterrâneos das humidades ancestrais, e abriu-se como o ventre da própria flor. Levou atrás de si os meus olhos, num barco tão fundo como a sua própria morte.
Abracei esse poema. Estendi-o na areia das margens, tapando a sua nudez com os ramos de arbustos fluviais. Arranquei os botões que nasciam dos seus seios, bebendo a sua cor verde como os charcos coalhados do outono. Pedi-lhe que me falasse, como se ele só ainda soubesse as últimas palavras do amor.
(Metáfora contínua de um único sentimento). _____________________________
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Jorge Luis Borges (Buenos Aires, 1899 — Genebra, 1986) ARTE POÉTICA
Mirar el río hecho de tiempo y agua Y recordar que el tiempo es otro río, Saber que nos perdemos como el río Y que los rostros pasan como el agua. Sentir que la vigilia es otro sueño Que sueña no soñar y que la muerte Que teme nuestra carne es esa muerte De cada noche, que se llama sueño. Ver en el día o en el año un símbolo De los días del hombre y de sus años, Convertir el ultraje de los años En una música, un rumor y un símbolo, Ver en la muerte el sueño, en el ocaso Un triste oro, tal es la poesía Que es inmortal y pobre. La poesía Vuelve como la aurora y el ocaso. A veces en las tardes una cara
Nos mira desde el fondo de un espejo; El arte debe ser como ese espejo Que nos revela nuestra propia cara. Cuentan que Ulises, harto de prodigios, Lloró de amor al divisar su Itaca Verde y humilde. El arte es esa Itaca De verde eternidad, no de prodigios. También es como el río interminable Que pasa y queda y es cristal de un mismo Heráclito inconstante, que es el mismo Y es otro, como el río interminable.