Segunda-feira, 28 de Fevereiro de 2011
A cinéfila - por Carla Romualdo

  

Ao Carlos Loures

 

Nos grandes armazéns da rua Preciados, a um sábado pela tarde, quando caem os primeiros pingos grossos de chuva – pérolas de gelo, prenúncio da neve que cairá nuns dias mais -, nos grandes armazéns, dizia, depósito sem alma de livros e música, empilhados em quatro andares sem um único recanto onde sentar-se, cruzo-me com a mulher que um dia imaginei e que afinal existia, ou talvez tenha passado a existir nesse momento em que a pensei, talvez tenha irrompido nesse dia pelo mundo, com cinquenta anos feitos, com uma biografia, uma infância que lhe enche as molduras de fotos que terá na sala, um passado que a trouxe até aqui, a este sábado à tarde em pleno Inverno, nos grandes armazéns da rua Preciados.


Chamar-se-á Gloria ou Rocío ou Blanca, ou outro nome luminoso e festivo, porque seria demasiado cruel chamar-lhe Soledad.


Coloco-me atrás dela na caixa e espreito sem vergonha os artigos que pousa sobre o balcão, menos por coscuvilhice do que para confirmar o que já conheço, o que imaginei certo dia, longe da rua Preciados e dos seus grandes armazéns.


“How green was my valley”, “It’s a wonderful life”, “The magnificent Ambersons”, “Meet John Doe”. Pousa-os um por um com carinho no balcão, como se desfrutasse já da sua companhia, como se sentisse já por cada um a ternura que nos une a um velho amigo, como se de cada um conhecesse as virtudes e as manias, e tomasse ambas com o enternecimento risonho que reservamos aos que nos são muito queridos.


O funcionário da caixa desliza-os suavemente pelo tapete e pousa-os com cuidado após o bip do leitor de código de barras, e Rocío (porque afinal me decidi chamar-lhe assim, Rocío, orvalho, frescura da manhã) olha o rapaz com gratidão, pressente-o conhecedor desses comuns segredos que outros não vêem, por mais que se desfilem frente aos seus olhos, estende-lhe o cartão com um quase imperceptível tremor nos dedos, ele passa-o na máquina, ela digita o código, a operação desenrola-se sem uma única troca de olhares, e quando a máquina debita o seu talão, já ele guardou tudo numa bolsa de papel reciclado, agora que os sacos de plástico se fizeram malditos, e só então se olham fugazmente, murmurando um agradecimento mútuo.

 

E eu perco Rocío para sempre, mas sei, porque a conheço, que ela passará o fim-de-semana em casa, com o iogurte de meio quilo sobre os joelhos, as persianas semicerradas para que a luz não entre, e porque o mundo de fora lhe interessa cada vez menos à medida que o outro, o seu, se vai ampliando.


E enquanto George Bailey corre a cidade em desespero, e Rocío se encolhe no sofá, reconfortada na sua tristeza, eu penso como seria o dia de hoje na rua Preciados se Rocío nunca tivesse nascido, se não houvesse esta tarde em que coincidimos nos grandes armazéns e eu a deixei fugir para sempre sem saber que a inventei. 

 



publicado por CRomualdo às 19:00
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7 comentários:
De adão ctuz a 28 de Fevereiro de 2011 às 19:25
Já cá fazias falta Carla, com essa alma literária não sei se embriagada de mundo se lúcida de poética virtude, um e outro estados indispensáveis à invenção de uma mulher que faz da tarde de um dia um dia sem tarde.
Parabéns


De Luis Moreira a 28 de Fevereiro de 2011 às 19:52
Sabes, Carla, esse teu texto, para além do talento habitual tem o ritmo que nasceu contigo e que não se aprende:

Podia ser traduzido assim:

Meu amor meu amor
eu tenho a certeza
que um dia será tarde
para a paixão e a tristeza

Juro-te que dei comigo a soletrar isto enquanto te lia.


De Carlos Loures a 28 de Fevereiro de 2011 às 20:35
Muito obrigado, Carla, pela dedicatória num texto literário tão bonito. Às pessoas como a tua Rocío só uma sensibilidade aguda como a tua as descobrem. Lendo o teu texto, lembrei-me do José Gomes Ferreira e o seu «O Mundo dos Outros", onde gente invisível pela sua insignificância social é promovida a protagonista. A gesta dos humildes, dos humilhados, dos que são sempre figurantes, merece ser cantada. E já nem te digo que deverias reunir alguns dos teus textos e publicá-los em volume.


De augusta clara a 28 de Fevereiro de 2011 às 20:48
Quem escreve estes textos, se não existisse, alguém a teria que inventar para nos proporcionar o deleite que sentimos ao lê-los.


De Luis Moreira a 28 de Fevereiro de 2011 às 21:48
Acho que aquela quadra é de um fado do Ary dos Santos...


De CRomualdo a 28 de Fevereiro de 2011 às 22:01
Muito obrigada, vocês estragam-me com mimos.
Luís, nunca me tinha visto associada a um fado, mas olha... gostei.
Um forte abraço a todos


De Luis Moreira a 28 de Fevereiro de 2011 às 22:42
Não tenho a certeza,como diz o verso...


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