Sábado, 26 de Fevereiro de 2011

José Gonçalinho de Oliveira - por Carlos Loures

 

O grupo do Setentrião; José Gonçalinho de Oliveira é o 5º da esquerda para a direita; na fotografia estão também António Cabral (1º), Ascenso Gomes (3º), Carlos Loures (4º) e Eduardo Guerra Carneiro (6º).

 

Entre as pessoas que conheci em Vila Real quando ali cheguei em 1961, estava um homem discreto, mais velho do que os demais elementos do grupo a que António Cabral me apresentou, o grupo do Movimento Setentrião. Tinha, nessa altura, 45 anos (a idade de meu pai) e aos meu olhos de jovem com pouco mais de 20 anos, afigurava-se-me um respeitável ancião.

 

Surpreendia, no entanto, a par do seu ar compenetrado e sério, parco de palavras – em contraste com a exuberância dos outros elementos, Cabral incluído, surpreendia, dizia eu, um sentido de humor agudo e a propriedade com que colocava as suas tiradas. Parecendo, à primeira vista, uma carta fora daquele baralho, depressa percebi que era um elemento valioso do grupo, um homem inteligente, alegre e espirituoso à sua maneira.

 

Não alinhava muito nas noitadas que, á hora de a Pastelaria Gomes fechar, nos levavam até à Toca da Raposa, um bar da Avenida Carvalho Araújo, onde em volta de um copo prosseguíamos a leitura de poemas em voz alta e as críticas ao salazarismo (ao regime do «saudábel», como dizia o Ascenso) em voz baixa. Era tratado pelo «senhor Gonçalinho», enquanto que o resto da maralha se tratava de forma mais informal.

Dos outros, o António Cabral era o mais velho, com 30 anos e o Eduardo Guerra Carneiro, o mais novo, com 19.  Além de mim, Gonçalinho de Oliveira era o único casado e, portanto, com mulher e filhos e hora certa de entrada no serviço, não podia como os outros, perder noites. A minha mulher, estava grávida, em fim de tempo, e ficou aos cuidados da mãe, em Lisboa, pelo que eu não tinha horas marcadas para chegar a casa.

 

Além disso, só trabalhava da parte da tarde.

 

António Cabral era professor no Seminário e tinha também um bom horário, o Ascenso dava explicações a alunos do liceu e, marcava-as geralmente para a parte da tarde. Os restantes rapazes que se vêm na foto, eram quase todos estudantes ou militares, como o Pompeu Cramez, tenente no Regimento de Infantaria 13. Resumindo, o grupo era maioritariamente constituído por gente jovem e disponível para as farras possíveis numa cidade pacata, como Vila Real era naqueles anos 60 do século passado. Farras a que Gonçalinho de Oliveira geralmente não se associava. No jantar de despedida com que me obsequiaram, abriu uma excepção e esteve até tarde na companhia do grupo.

 

Pela sua seriedade, pelo seu talento e pela forma cordial com que lidava com todos, José Gonçalinho de Oliveira, o Senhor Gonçalinho, tornou-se, para mim, um inesquecível membro do grupo do Setentrião. Evoco-o com saudade. A sua poesia, indiferente a modas literárias, a rótulos e a classificações,  merecia ser mais divulgada.

 

Numa sessão pública organizada em sua homenagem em 2008, o escritor António Pires Cabral disse a seu respeito: «Poeta de matriz rural… e marcado pela experiência religiosa, raramente se aventura fora dos cânones métricos (redondilha, decassílabo) e estróficos (quadra, quintilha, soneto) característicos da tradição poética portuguesa. Nas suas composições ecoam ecos da poesia visionária e nebulosa de Teixeira de Pascoais, do pendor reflexivo de Antero de Quental, do terno lirismo de Afonso Duarte, dos frescos madrigais de João de Deus e até dos vilancetes do Cancioneiro geral. E tudo com um desembaraço notável…”  É uma excelente caracterização sobre a obra de José Gonçalinho de Oliveira.

 

José Gonçalinho de Oliveira, nasceu em 14 de Setembro de 1916 na Póvoa, freguesia de Vila Nova de Souto de El-Rei, concelho de Lamego e faleceu em Vila Real no dia 21 de Novembro de 1993. Após a instrução primária, ingressou no Seminário em 1927 onde estudou Humanidades e Filosofia. Terminou o Curso de Filosofia em Singeverga e, renunciando à ordenação sacerdotal, abandonou a carreira eclesiástica em 1938, deixando, assim, definitivamente, a Ordem Beneditina. Frequentou e concluiu um curso de contabilidade. Casou em 1944 e, nesse mesmo ano, foi nomeado contabilista dos C.T.T., vindo a atingir o topo da carreira, como Técnico de Administração. Para além da Musa Antiga, (1958, seu único livro publicado em vida) , tem uma vasta obra inédita. Alguns dos seu poemas integram a Antologia da Poesia Contemporânea de Trás-os-Montes e Alto Douro (1968) por mim coordenada. Daí ter escolhido estes dois poemas.

 

TESTAMENTO

 

Meu filho!…

- E à sua volta

O olhar anoitecente,

Já sem brilho,

Acende na luz dúbia e tonta

Uma chama de revolta

E a mão tremente

A custo aponta

A velha enxada

A arder

Como um clarão de espada!…

- Meu filho, (são assim os ganhões

Ao morrer!…)

Deixo-te a fome herdada

De nem eu sei já quantas gerações!…

 

p<> 

 

TRÁS-OS-MONTES

 

Ó meu vulcão de rocha, Trás-os-Montes.

Eu trago a alma cheia de paisagem,

Arde-me o olhar em febre na estiagem

Da água que secou nas tuas fontes.

 

Alongam-se em saudade os horizontes,

Desfolham-se em lembranças pela aragem

E eu sou em mim a tua viva imagem

Subindo de joelhos os teus montes,

 

És máscara de bronze e de granito

Talhada a desespero em rocha dura?!...

Eu sou a dor humana do teu grito!...

 

Mas quando reflorescem tuas mágoas

Em comovidas ânsias de verdura,

Sou todo o canto em flor das tuas águas!...

 

publicado por Carlos Loures às 12:00
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