Sexta-feira, 25 de Fevereiro de 2011

Manuel Vázquez Montalbán e a reabilitação do romance policial – por Carlos Loures

 

Já aqui tenho manifestado o meu desacordo quanto a preconceitos que dividem a literatura em maior e menor. Não conheço géneros menores. Existem, sim, escritores menores. E, mesmo assim, é uma audácia da crítica classificá-los. Muitos são os exemplos de escritores que passaram despercebidos a críticos e a públicos coevos e eclodiram gerações mais tarde.

 

Não foi o caso de Manuel Vázquez Montalbán (1939-2003), que foi um escritor de grande sucesso, embora haja quem considere frívola a sua escrita e fúteis os seus temas. Não estou de acordo – Vázquez Montalbán tinha um público e escrevia para esse público. Afinal como Shakespeare fez. Se o não ter sucesso em vida não significa que um escritor não mereça a atenção dos vindouros, o ter êxito em vida também não significa que a obra seja feita de transigências aos contemporâneos e perca o significado no futuro. Há exemplos que levam a água a todos os moinhos.

 

 Manuel Vázquez Montalbán morreu há sete anos em Banguecoque, cidade onde situou uma das aventuras do seu Pepe Carvalho. Os Pássaros de Banguecoque (1988). Catalão e filho de galegos, escreveu em castelhano, tal como muitos outros escritores catalães. Esta a sua maior transigência para com a contemporaneidade – escolher entre um idioma falado por dez milhões de pessoas e outro que conta trezentos milhões de falantes.

 

Segundo o escritor catalão Juan Marsé., autor de O Feitiço de Xangai,  Manolo “movimentava-se com toda a facilidade dentro da salada em que então vivíamos, e não se negava a nenhuma das tentações: o futebol, a cozinha, a política». «Tudo o que fazia fazia-o bem, e rapidamente", acrescenta Joan Manuel Serrat, sobre o qual Vázquez Montalbán escreveu um livro.

 

Como disse, há quem considere frívola  a escrita e fútil a escolha dos temas. Acho que era um homem que não fazia a distinção entre temas sérios e temas frívolos. O futebol, olhado com olhos intemporais é um desporto, um espectáculo ridículo – vinte e dois homens correndo atrás de uma bola… Não é preciso recorrer ao futuro – os norte-americanos, de uma forma geral, consideram o soccer um desporto efeminado e sem sentido. Mas adoram o seu football duro, que à maioria dos europeus se afigura coisa brutal, sem arte, indigna de se chamar futebol. Um americano chamar soccer ao nosso desporto-rei, pode valer-lhe uma carga de trabalhos e algumas equimoses num pub de Londres ou de Liverpool.

 

Vázquez Montalbán adorava o futebol e o seu Barça. E, usando a florbeliana expressão, dizia-o, escrevendo, a toda a gente.  Como dizia há dias Francisco Arroyo na sua crónica do El País, citando uma metáfora futebolística de Antonio Franco: «soube levar à primeira divisão três géneros que competiam na terceira – o romance negro, o jornalismo desportivo e o humor». Conheço mal a sua faceta de jornalista desportivo – apenas os seus romances em que o futebol tinha papel central – La soledad del manager (1977) e El delantero centro fue asesinado al atardecer (1988).

 

A estas três reabilitações, juntaria uma quarta – a da culinária. Lembremos Las recetas de Carvalho, 1989, onde são recolhidas as receitas que Pepe Carvalho vai ditando à sua namorada Charo ou a Biscuter, seu empregado multiusos – de criado a sentencioso Watson -  ao longo das suas aventuras.  O humor é uma constante na sua obra, surgindo mesmo nos momentos mais dramáticos. Lembro apenas o hábito de Pepe Carvalho queimar os livros de que não gosta – maneira subtil de criticar (a codícia dos grandes grupos editoriais já deve ter pensado em listar as obras que arderam na lareira de Pepe. E o romance negro?

 

O romance negro, tal como o definiu Raymond Chandler em The simple art of murder (1945) é o romance dos profissionais do crime. Romance negro porquê? – porque os primeiros romances do género foram publicados na revista Black Mask e em França numa colecção Série noire (ainda um dia hei-de aqui falar do Gato Preto, uma revista, ou melhor, uma “antologia de mistério e fantasia”, que se publicou em Lisboa, entre Janeiro e Junho de 1952, que publicou contos muito curiosos, entre eles a célebre “Invasão dos Marcianos” de H.G. Wells. H. Koch e Orson Welles). Romance negro, também, pelos ambientes em que as histórias decorrem.

 

Descobrir quem é o assassino, coisa que Agatha Christie (para não falar em Conan Doyle) guardavam para as últimas linhas da derradeira página, é coisa que não preocupa os autores deste género – o assassino é no romance negro irrelevante – o que interessa é o microcosmos em que o crime ocorre e as razões por que é cometido. Nos romances de Vázquez Montalbán, tal como em dois dos seus mestres Raymond Chandler e Dashiel Hammett, as personagens, a começar por Pepe Carvalho, não são vencedores, é gente derrotada, decadente, que se habituou a conviver com uma realidade negra.

 

Nos diversos cenários dos 25 romances que têm Pepe Carvalho como figura central, Barcelona ocupa um lugar privilegiado – é a cidade  de Vázquez Montalbán, que ele conhece palmo a palmo, dos ambientes burgueses e dos meios intelectuais, aos meios mais pobres e aos locais mais sórdidos. Pepe Carvalho, um detective que o autor constrói com a sua própria experiência. Criador e criatura confundem-se. Pepe Carvalho foi o herói que Vázquez Montalbán não gostaria de ter sido.

 

Ouçamos uma entrevista que o cantor, compositor e poeta valenciano Raimon  lhe fez em 1991 e que nos mostra uma faceta pouco conhecida (pelo menos em Portugal) da sua produção literária - a da poesia. Embora falando catalão, Raimon e Manuel, percebe-se bem o que dizem. Afinal, o catalão é uma das línguas de trabalho do Estrolabio:


 

 

publicado por Carlos Loures às 12:00
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8 comentários:
De augusta clara a 25 de Fevereiro de 2011
E, sempre que falares do Montalbán , aqui estou eu. Sempre e incondicional amante da sua obra de que ainda me falta ler muita coisa. E, por favor, mais uma vez o digo: leiam o "Milénio", o seu último livro.
De Paulo Rato a 27 de Fevereiro de 2011
Montalbán é um grande escritor. Ponto final.
Quem, depois de Chandler e Hammett, Christie e Highsmith, Simenon e, já agora, Camilleri (e o seu inspector... Montalbano) ainda considera o género policial como "menor", nem merece o trabalho do Carlos Loures...
Quero recordar aqui um romance, dos não policiais, que me fascinou, pelo tema e pela técnica narrativa - "El Pianista", que suponho ter tradução portuguesa. Um livro belíssimo, daqueles que não esquecerei nunca e em que a música e um grande músico catalão (Mompou) têm uma intervenção assinalável.
E quero acrescentar, brevemente, que a poesia não é um género menor na obra literária de Montalbán, nem o autor um poeta menor no panorama literário da Espanha da segunda metade do século XX.
Tenho a 2.ª edição de "Memoria y deseo", Obra poética (1963-1990) - a 1.ª edição ia até 1986 - e foi com base nesta recolha que assinalei, no programa que tive na Antena 2, esta componente da obra de Montalbán, no primeiro aniversário da sua morte, com traduções minhas (portanto não muito fiáveis, mas quero crer que adequadas a dar a conhecer aos amantes de poesia esta faceta do autor).
De Carlos Loures a 27 de Fevereiro de 2011
Paulo, por que não publicas no Estrolabio essas traduções? A poesia de Manuel Vázquez Montalbán , como dizes, merece ser conhecida.
De Paulo Rato a 4 de Março de 2011
Carlos, já enviei as traduções, acompanhadas dos originais, ao Luís. Alguns poemas são um tanto extensos. Terão de ver como os vão incluir
no blogue.
De Carlos Loures a 4 de Março de 2011
Já as vi. Estão óptimas. O João arranjará maneira de as publicar todas.
De João Machado a 28 de Fevereiro de 2011
Cá esperamos por essas traduções, Paulo. E eu reclamo-as para o VerbArte. Também sou um fã do Montalban. Um abraço.
De halotuga a 3 de Março de 2011
Sou um incondicional de Montalbán, li tudo o que se publicou em Portugal e recentemente terminei a leitura de o Milénio, publicado em 2 livros pela ASA. Foi uma viagem pelo mundo e pelo mundo de Montalbán, foi uma experiência única, incomparável, que me deixou uma nostalgia que julgava não ser possível, por parecer que Montalbán se despedia de nós, através deste livro, ou parecer que nos queria transmitir toda a beleza todo o seu encantamento pelo mundo, pelas culturas, pela cozinha. Fiquei triste quando li a sua última receita... Obrigado Carlos por me ter dado a conhecer este maravilhoso autor, já lá vão mais de 20 anos. João Carlos.
De Augusta Clara a 4 de Março de 2011
Até que enfim que ouço alguém falar especificamente no "Milénio", essa maravilha!

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