Sexta-feira, 25 de Fevereiro de 2011

Geração à rasca - Carlos Mesquita

 

Uma canção de “Os Deolinda” teve a virtude de tocar muitos jovens que nela se viram retratados. Começa assim – “Sou da geração sem remuneração/ nem me incomoda esta condição…/ que parva que eu sou…”. A geração “casinha dos pais” (como diz a letra) caiu em si e adoptou a passagem; “ eu – já – não – posso – mais – Que – esta – situação – dura – há – tempo – de – mais!” Prometem manifestar-se a 12 de Março, tendo hoje (22 Fev.) nas “redes sociais” já 20 mil promessas de comparência.

 

A discussão que tem havido é mais parva que o mundo parvo, uns a dizer que à juventude não lhes falta nada, e outros, que têm direito a tudo, dado e de mão beijada.

 

Desenganemo-nos, nem a vida é um mar de rosas como pensam (ou pensavam) alguns jovens iludidos, nem convém à sociedade ter uma juventude mansa ou amansada por só conhecer a precariedade laboral. Nem os jovens podem afirmar que são a primeira geração que passa por dificuldades, nem a geração instalada os pode acusar de terem crescido na abundância e com vida fácil.

 

Se há parvos, são os pais e avós que convenceram os mais novos de que bastava um canudo para vingar na vida, e são também parvos os que esperam que o emprego digno com salário digno vá ter com eles, ou que seja uma obrigação do Estado conceder-lho. A verdade é que há cursos que têm saída imediata no mercado de trabalho e há canudos que nada garantem por não terem qualidade, ou por os candidatos serem muitos mais que os empregos existentes. No curto prazo, não se irão criar empresas para absorver todos os licenciados, e os empregos do Estado estão superlotados. O mais avisado é aceitar trabalhar fora das áreas que estudaram até aparecer uma oportunidade, se algum dia aparecer. O que tenho observado ao longo dos anos, é muita gente ter sucesso e realizar-se profissionalmente em actividades distantes dos cursos que tiraram. Eu tive várias profissões, a minha filha está satisfeita com a profissão que escolheu, que pouco tem a ver com a sua licenciatura, e o meu filho após vários empregos e profissões, faz carreira numa grande empresa. São opções de vida, aceitar começar por baixo, ou esperar com lamúrias que apareça um emprego compatível com os cursos que se tiraram, e logo conciliável em “dignidade” e em “salário”. No fundo é uma questão de necessidade, pois todos os jovens já sabem que há cursos que o mercado de trabalho considera habilitações e outros que não reconhece. É a triagem normal perante o facilitismo educativo e a privatização do ensino sem normas, que permitiu títulos académicos a cursos que não servem para nada, ou só servem para alimentar uns professores e umas escolas.

 

Outras situações são a remuneração justa de quem trabalha, a precariedade do emprego, os falsos recibos verdes e as empresas de trabalho temporário, mas nessas as “gerações á rasca” são todas, e contra isso não têm sido os jovens, com o seu alheamento político, quem mais tem feito por combater as injustiças. Há quem ande a culpar os governos e nem se digne votar, quando as coisas se resolvem onde está o poder de decisão. É preciso que a juventude faça parte da política e da vida pública activa, que leve os seus problemas para o interior dos partidos, que se faça ouvir para lá das queixas, actuando. Se as medidas da governação actual são prejudiciais, repare-se na alternativa, O PSD propôs hoje contratos a termo não escritos, a generalização da precariedade nos empregos. De mal a pior é a perspectiva para a geração à rasca, se nada fizerem, se tudo consentirem.

 

“Os Deolinda” serviram pelo menos para lançar uma discussão entre os jovens sobre o seu futuro, espera-se que a sua insatisfação tenha para além da solidariedade na Net, uma presença física nas manifestações, seria uma novidade em relação ao passado.

 

“ O futuro não se aceita passivamente”.

 

publicado por Carlos Loures às 11:00
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8 comentários:
De maria monteiro a 25 de Fevereiro de 2011
e para chegar a mais jovens partilhei no Facebook
De Carlos Loures a 25 de Fevereiro de 2011
A letra dessa canção é uma tontice demagógica. Já o disse a um outro amigo do Estrolabio que Portugal tem gerações à rasca desde a a batalha de São Mamede e os problemas dos jovens actuais nem comparáveis são ao de outras gerações. No Japão (não sei se o ensino é bom ou mau) as pessoas licenciam-se e vão para o mercado de trabalho, aceitando o que lhes aparecer - licenciados a varrer ruas ou a servir em cafés, é o que mais há. Valorizaram-se culturalmente ao frequentar os seus cursos. Não vêem o diploma como um bilhete de acesso a um emprego. O Professor Adriano Moreira disse uma coisa muito acertada (terá dito mais, mas não me lembro) -«a licenciatura é uma licença para aprender». Ou seja, é um ponto de partida, não uma meta de chegada. Não há Estado, por mais perfeita que seja a sua organização social, que possa garantir empregos a todos os que obtêm diplomas. Só uma articulação perfeita entre a oferta de cursos e a procura do mercado de emprego, com recurso inevitável ao numerus clausus, poderia permitir que o diploma fosse uma chave para o emprego. Por outro lado (os concursos de televisão, provam-no) reina entre os diplomados um grau de iliteracia e de ignorância que brada aos céus - como querem que um papel lhes dê acesso ao emprego? Porque não protestam antes contra a má qualidade do Ensino e contra a obsessão que os governos têm de trabalhar para as estatísticas. Esta manifestação da geração à rasca (o nome é rasteiro que se farta!) não me comove. Ainda por cima parte do Expresso. Laica e apartidária? Também há quem acredite no Pai Natal...
De Luis Moreira a 25 de Fevereiro de 2011
Completa tontice. Bem sei que os mais fracos se ficam e esses precisam de ajuda, mas é bastante motivador ver que a juventude que se mexe obtem resultados. O meu rapaz (perdão, mas damos os exemplos que conhecemos) como nao lhe saiu em rifa nenhuma escola nos "concuros " isentos do Parque Escola,( alguns arquitectos receberam encomendas de duas dezenas de escolas) obteve um contrato com uma empresa Suiça num projecto a executar na Escócia. Dez vezes maior que uma escola, mas aqui nem acesso tem aos concursos limitados, pelo amiguismo, partidarite, presunção e água benta...
De augusta clara a 25 de Fevereiro de 2011
E essas universidades privadas que por aí proliferaram e que, como investir em laboratórios fica muito caro, encheram o país de cursos de conteúdos duvidosos em termos de qualidade, a maior parte deles que para pouco ou nada servem a quem os tirou e ao próprio país?Serviram apenas para o "show off" de muita gente dizer que tem um curso superior. Muita razão teve o Prof. Adriano Moreira em dizer o que disse. De facto, aprender em profundidade e em especialidade só depois da licenciatura. Outro problema são os mestrados - já o disse aqui e ouvi-o dizer ao Prof. Vasconcelos Costa, do Instituto Gulbenkian de Ciência (Virologia) - que deviam existir para quem, após a licenciatura, pretende mudar de área e, portanto, necessita de frequentar uma outra parte curricular. Quem quer doutorar-se na sua área, deveria iniciar logo um trabalho de investigação empenhado, profundo e exigente. Mas vivemos no mundo da aparência e por cá vamos andando.
De Luis Moreira a 25 de Fevereiro de 2011
Augusta, muitas já se foram e as outras (más...) estão a ir...
De Carlos Mesquita a 25 de Fevereiro de 2011
Devido aos meus cursos só agora larguei o trabalho.
Tens razão Augusta, mas duvido que conheças a maioria dos cursos de certo ensino (superior) privado e cooperativo. Eu só tive noção quando "trabalhei" um grupo que está espalhado pelo país. Como fazia o trabalho promocional, a cada cartaz ou folheto era um sobressalto. É pá, também há licenciatura para isto?... E mestrado para aquilo... e pós graduação para outra coisinha... era (é) um espanto. De uma dúzia de áreas de formação resultam várias dezenas de licenciaturas e mestrados, ramificações e especializações, cursos sem alunos mas com professores. Um filão para toda a gente, até para mim, se tivesse meios para esperar por receber a longuíssimo prazo.
É evidente que os alunos têm de ficar à nora. E não está para fechar, todos os anos ameaça, mas encerra uns cursos abre outros e lá vai encanando a perna à rã.
De augusta clara a 25 de Fevereiro de 2011
Claro que não conheço, mas sei que existem de toda a espécie e variedade. Enfim...
De António Sales a 25 de Fevereiro de 2011
Para mim, que sou duma outra geração à rasca e que levava com a cachaporra, um sujeito licencia-se, esfrega as mãos e ataca a maratona. O que é preciso é começar a depenar frangos na cozinha de um hotel, embora tenha o curso de direito, ou num hipermercado a repor produto. Ir,falar, mexer-se. sem ficar à espera. Ganha pouco, paciência. Amanhã ganhará mais. A vida é o futuro. Mas até existem pais que não deixam os seus meninos pegarem em qualquer coisa. Em Portugal os governos têm obrigação de arranjar empregos para a malta; ajudar empresários quando as coisas vão más; subsidiar a agricultura quando chove, faz vento ou calor; subsidiar tudo e mais alguma coisa até os Ferraris da canalha que recebeu grossa massa para modernizar as fábricas. Enfim, não gostamos nem queremos o comunismo mas se pudermos ter quem olhe por nós sem nos chatearmos ficamos encantados. Vejam só como eu comecei aos 16 anos. Quinto ano na bagagem vamos ao trabalho. Não gosto de vinho, nem do cheiro a vinho e menos do cheiro do mosto. O que é que me apereceu? Trabalhar numa adega cooperativa a marcar a entrega das uvas dos cultivadores. Aceitei, claro, embora continue abstémio.

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