Domingo, 20 de Fevereiro de 2011

JOSÉ RODRIGUES MIGUÉIS: ESCRITOR PORTUGUÊS EM MANHATTAN - por Manuel Simões

 José Rodrigues Miguéis nasceu em Lisboa em 1901 e o centenário do seu nascimento, embora seja efeméride que ocorreu há dez anos, continua a lembrar-nos quão esquecido tem andado este importante escritor, de certo modo herdeiro da ironia e da prosa cáustica do grande Eça de Queiroz, sobretudo quando se propõe reelaborar, em termos de ficção, as cenas da vida portuguesa ou o retrato, de contornos nítidos, do evoluir social do país na primeira metade do século XX.

 

E nem a ausência justifica tão grave vazio em torno do seu nome, até porque o seu exílio “voluntário” para os Estados Unidos em 1935, onde viria a falecer em 1980, obedeceu a razões profundas e a pressões de toda a ordem: basta lembrar que nem sequer o seu próprio nome podia ser mencionado nos jornais para se avaliar da perseguição que lhe moveu a censura no Portugal dos anos trinta.

 

Rodrigues Miguéis cedo se revelou um óptimo cronista, escrevendo para “A República” crónicas da cidade, e pertenceu desde jovem ao movimento de opinião que se formou à volta da revista “Seara Nova” (projectada em 1921 pela esquerda socializante da I República) onde colaborou activamente até como artista plástico. No seu romance “O Milagre Segundo Salomé”, através da evocação histórica, o autor parte justamente das vicissitudes, das esperanças e desenlace que constituiu o período nascido em 1910, interrompido pelo golpe militar de 1926 e pela ditadura sucessiva de Salazar.

 

Acontecimentos que marcaram a sua geração evocam-se agora na narrativa de forma pungente, agravada pelo amargo espinho do exílio, que Miguéis sofreu de forma intolerável, com a nostalgia do país a roer-lhe o coração. Deste modo, o olhar do expatriado fixa-se permanentemente no espaço do desejo, como Eduardo Lourenço já teve ocasião de referir: «É um olhar de ‘português’ que Rodrigues Miguéis passeia pelo vasto mundo, um olhar preocupado até à crucificação pela ideia que os outros podem fazer de nós e até – sobretudo – pelo grau de existência que nos conferem, não a título de meros indivíduos, mas mais fundamente, como portugueses».

 

Daí que toda a sua obra evidencie marcas autobiográficas ou memorialísticas, desde “Saudades para Dona Genciana”, narrativa que reconstrói a atmosfera de Lisboa do princípio do século; “Gente de Terceira Classe”, novela inspirada na primeira viagem para os Estados Unidos; ou “Uma Aventura Inquietante”, tendo como pano de fundo a sua experiência belga, antes da “aventura” americana, experiência que determinaria igualmente o conhecido conto “Léah”, porventura a sua mais bela história de amor.

 

 

 

 

Por isso mesmo os seus textos apresentam inegavelmente personagens em trânsito, cumprindo acções que se inserem numa indefinição labiríntica com a qual se mede o “olhar português” para narrar a sua condição de estrangeiro, situação que cabe por inteiro nestes conhecidos versos de Sophia de Mello Breyner Andresen: «Quando a pátria que temos não a temos/ Perdida por silêncio e por renúncia/ Até a voz do mar se torna exílio/ E a luz que nos rodeia é como grades».

 

Daí que a memória desta instabilidade acentue o tom nostálgico das narrativas do Autor, a melancolia que invade a sua escrita, muitas vezes atenuada pelo recurso à ironia, aspecto em que Miguéis se revela um verdadeiro mestre. Mas o exílio pessoal pode investir o tecido social e assumir uma amplificação. No extraordinário conto “Regresso à Cúpula da Pena”, autêntico modelo de desenraizamento que procura a reintegração, a autobiografia conhece uma dimensão que recupera e reactualiza o mito de Ulisses em termos de conhecimento e de experiência, afrontando o problema do retorno com a consciência de que o ser errante é uma característica do Homem e de que nunca se volta completamente do exílio, nunca acontece um regresso pleno porque nada corresponde à imagem que a memória reteve. Já o escreveu um outro escritor que conheceu o exílio, precisamente Manuel Alegre, num seu conhecido poema intitulado “Regresso a Ítaca”: «Porém na casa algo está diferente/ O teu próprio retrato te parece um outro/ E mais do que nunca sentes-te estrangeiro/ Por isso o teu exílio é sem remédio».

 

A escrita de José Rodrigues Miguéis é percorrida por este incessante desejo de regresso, aspecto que nunca se concretiza e que talvez tenha contribuído para este insustentável esquecimento. Mas é urgente ler o autor de “Léah e outras Histórias”, apreciar a sua prosa enxuta, a palavra calibrada e essencial, irónica e pungente mas sempre com uma grande clareza de estilo, tudo elementos que fazem parte da sua bagagem de escritor e da ideia que o Autor tinha da Literatura.

publicado por Carlos Loures às 22:00
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