(Conclusão)
Ana Plácido foste realidade ou ficção no romance deste homem? Ambas as coisas. Uma aventura de salão acabou num drama chamado paixão. Após a absolvição podiam-se ter separado. Os golpes teatrais do romantismo da época impediram as soluções realistas. Estavam ligados pelas forças ocultas que muitas vezes empurram os seres para uma vida comum que foge ao seu controle.
Olho a vida com a luz crepuscular da idade. Coisas distantes, emoções apagadas embora recordadas mas apagadas porque já não podem ser sentidas. As emoções são estados de alma instantâneos que nos arrastam deixando cicatrizes. As dos nossos encontros resistem na sensação que acalorava o meu corpo perante o sentimento das palavras segredadas. Evoco a vivacidade da tua inteligência e o sarcástico sentido de humor que envolvia o timbre da tua voz. Perfil frágil de homem magro, muito magro, a mística palidez do rosto marcado pelas bexigas e o bigode enorme a esconder os lábios finos percorridos por uma antipática chama de ironia. Bonito não eras, contudo sedutor, tratando-me com gentileza oposta à boçalidade do meu marido. Cabelos negros, testa alta, sobrancelhas espessas, massa óssea concedendo à face a força de um desígnio misterioso que, por estranho, provinha do olhar penetrado pelo fogo da vida. Tudo real, verdadeiro, autêntico, mesmo a tristeza que os olhos traduziam. Tenho-a presente nesta memória de lágrimas porque escondia uma irresistível atracção.
As recordações atingem-nos fortemente quando a natureza nos esmaga sob o peso do infortúnio. Rápidas, impressivas, chocam-se numa súbita fúria recuperada pela tormenta interior como relâmpagos iluminando cenas logo desaparecidas. Deixam na memória arranhões agressivos porque recordar é procurar em algum de nós o que está perdido. Enroscam-se como plantas daninhas à nossa árvore para desassossego do espírito e subitamente destapam os véus do tempo descobrindo figuras e rostos esquecidos como dos avaliadores quedando-se a observar as lombadas dos teus queridos livros para serem vendidos em leilão por falta de dinheiro. São aqueles, disseste, os mais antigos e valiosos. Estou exactamente a escutar o tom de amargura que a voz forte procurava esconder mas vogava, traiçoeiro, no teu peito. Constrangidos os dois homens tomaram café e acertaram contigo o cálculo monetário daquela parte do teu coração. Tempos depois, numa manhã de inverno minhoto vestido de cortinas de água, dirigi a leva porque te faltou a coragem para assistir a tal humilhação. São estes fios antigos depositados em teia nas profundezas do cérebro que acabam por transformar a memória em bálsamo ou maldição. Os nossos, dos primeiros encontros, representam o júbilo quente da juventude; o período da Relação guarda, à distância, o julgamento de uma comédia ridícula; a morte do meu filho Manuel, a quem deste o afecto de um pai, é a porta do princípio da tragédia.
A Casa da Póvoa vestida de luto.
Conversávamos muito Manuel, divertíamo-nos mesmo. Tua mãe pouco expansiva a exteriorizar sentimentos gostava de nos ver. Morreste sem supor o meu sofrimento nem a dor nascida no fundo do poço do destino a causticar-me os dias por imenso tempo. Recolhido, chorei de amor por ti e ódio a teu pai por te repudiar como bastardo dos meus amores adúlteros. Mentira, Manuel, mil vezes mentira! De nada serviu gritar essa mentira pois o Alves foi um sacana que não te quis perfilhar por ódio a tua mãe. Dezassete anos é muito cedo para morrer e eu queria-te como se fosses filho meu. Ao perder o voo da tua juventude mergulhei a três mil metros de profundidade e só voltei à superfície quando o Jorge nasceu. Uma ilusão o querido Jorge… Adorei-o e protegi-o devido à sua loucura. Amor maldito o nosso Ana, amaldiçoado pelo o Alves, a igreja, a sociedade, a imprensa, a corte. Fomos escorraçados, vergastados de dores, banidos pelo ódio e a inveja. Os ventos da intriga e da maldade arrasaram tudo: alegrias, sonhos, anseios, trabalhos, vibrações de amantes. Não conseguiram, porém, arrasar a imortalidade das nossas almas cuja memória permanecerá para além de nós, muito para além de nós, garanto-te.
De que valerá a imortalidade de destinos infelizes? Ao próprio nada, aos outros a emoção de acompanhar um percurso trágico observado sem dor. O teu incorporou o génio de um escritor infatigável por necessidade de sobrevivência e impulso criativo de uma personalidade tumultuosa. Viveste em função dos teus livros e das palavras, arma de defesa e arremesso que te custou inimizades fiéis, suporte de uma ácida amargura e carácter instável. Mordaz em extremo, tratavas mal nos teus livros e artigos aqueles que detestavas pondo-os a ridículo, submetendo-os ao teu humor sibilino. Não foste amado, conviveste mal com essa consciência cuja agressividade descarregavas nos momentos de cólera. Sempre soube que não eras um homem vulgar nem quando espalhavas a influência nefasta do teu espírito nem quando sofrias o arrependimento dos teus sacrilégios nem quando te humilhavas para obter um emprego nem mesmo quando amavas. Criaste com os teus romances um universo de figuras nascidas sob o signo da fatalidade que trazias contigo. Castigaste-as, perseguiste-as, submeteste-as às maiores dores das trevas da alma porque a dualidade do teu espírito fazia-te sofrer. No íntimo, adoraste representar o teu próprio drama para melhor garantires a imortalidade?
Passaram horas ou minutos? O tempo é enganador em horas de aflição. Há um percurso de nuvens a impedir o horizonte, umas brancas, longas, esfarrapadas envolvendo-lhe o tronco nas suas longas tranças; outras cinzentas como rolos de fumo representando a escuridão do arrependimento; muitas pequenas, amorosas nas suas brincadeiras; algumas enormes de um cinzento pesado, chuvoso de lágrimas prontas a soltarem-se do céu. Nuvens de atormentação infinita que mergulham a alma no mar dos erros irreparáveis. Não há palavras, nem sons, nem perfumes, nem flores que aquietem este colapso da vida cuja nascente deixa deslizar ruídos moribundos de sílabas indistintas de personagens dos seus romances que o vêm inquietar.
Está um calor de indolências subitamente rasgado por um silvo humanamente imperceptível, fino e cortante como a lâmina de uma adaga a congelar o coração. De um irreal território onde tudo parece fluído e crepuscular irradia o exército das figuras que desertaram dos seus livros e desfilam perante o seu criador, de forma desorganizada e confusa, como se o acusassem de lhes ter negado a alegria e a paz substituídas pelo martírio e a dor. Fauna de espectros, homens e mulheres com almas de papel moldadas por palavras, arrastam alvos panos como sudários para embrulhar o corpo que já não sente.
Há uma noite imensa à minha volta... Desapareceram as flores do quintal e o caramanchão está seco. O caminho foi triste, o nosso caminho... Domina-me a mágoa de não ter conseguido prolongar a paixão, em seu lugar acomodei-me ao amor trivial assegurado por hábitos que confundem a natureza das coisas e a natureza das coisas aqui somos nós. Ficou tanto por fazer... Mesmo que vivêssemos mil anos ficava muito por fazer, coisas simples que vão sendo adiadas até se tornarem irrecuperáveis. Gostava de te beijar na boca como antigamente. Gostava de afrontar a sociedade como antigamente. Não há retorno do drama que trago comigo desde o berço. Dizem os ocultistas que terei sido tocado por espíritos malignos influindo o comportamento da minha malsinada existência. Viveste com um louco, Ana, que te seduziu mas não te soube amar porque o amor a si próprio foi mais forte que a paixão. Viveste entre loucos. Pinheiro Alves foi um cornudo enlouquecido pelo despeito do adultério, nosso Jorge um louco moldado pela inconstância do génio, o Nuno foi louco de estroinice e eu louco fui toldado pela imortalidade de um espírito que viveu na dor dos seus fantasmas. Só tu foste lúcida neste hospício de Ceide. Dizer que me arrependo, pedir perdão, são agora inutilidades. Fazê-lo no momento limite da vida representa o cinismo do medo porque é impossível redimir os erros. Quero a tua mão Ana... Onde está a tua mão? Está tudo tão escuro neste corredor imenso habitado pelos fantasmas do meu drama… Quero voltar a dizer que te amo, confessar-te a gratidão deste meu olhar nocturno à procura da morte... O que hoje amo em ti nem é o corpo que trocou a volúpia das formas pelo volume pesado em que os anos o transformaram; nem a volátil tradução dos sentimentos na abstracta construção da moral que serve apenas para nos crucificar à vida. Apesar desses perpétuos charutos que empestam a casa, amo em ti a energia altiva capaz de suportar os meus excessos que sulcaram o destino de amargura. A minha vida é um ermo, mesmo o que escrevi pouco mais é que um ermo. Ontem à noite, em casa do nosso filho Nuno, o instinto disse-me que a visita do médico seria a do meu anjo da guarda anunciando-me a sentença fatal. Abriu-se no peito um eco de morte. Visitaram-me pensamentos longínquos e a desconfortável consciência de que faltavam palavras nas nossas vidas, imensas palavras jamais ditas ou, se o foram, raramente escutadas. Esqueci-me de ti... Esqueci-me de mim... Esqueci-me de todos... A paixão de escrever só revelou os sentimentos dos meus personagens. Uma tristeza permanente este meu destino condenado à pobreza da celebridade literária, à paixão pela fatalidade, aos amores tempestuosos e sofredores, à humilhante condição de fidalgo mendicante. Poucas armas tive para tanta desgraça... Que frio imenso me percorre o corpo... que noite... que silêncio...
O corpo existe mas não o sente. Flutua numa outra dimensão vagamente cinzenta e sem limite. Por instantes regressa entre novelos de fumo espraiando-se pelos abismos da alma. O sol da tarde empalideceu criando sombras místicas de contornos indecifráveis. Através da janela avistam-se trigais e milheirais que o Jorge, nos seus acessos de insânia, afogueava para se divertir com a visão das labaredas. No sobrado humedecem lágrimas dos criados que fazem guarda a seu amo. Já passou pelo medo, pela dor, pela consciência do conhecimento das suas abjecções. Ceide foi a maldição do Alves. A paixão feneceu ali lambendo o tempo até à resignação. Amaram-se mal naquela casa. Quantos anos? É muito tempo para amar e sofrer.
A respiração da mulher esfuma-se nos sons doces sustidos no ocaso que afasta o marido da vida. Há uma aurora azul à sua espera, nuvem de luz que desponta longínqua como início de uma partitura inlocalizável mas crescente de benigna ternura sem que se lhe encontre a origem. Uma figura azul e solitária desponta da orla enigmática do templo sagrado, qual pássaro das portas do Olimpo, e sob o véu do sono da tranquilidade estende a mão num convite sereno e definitivo. Quem és, não te conheço dos meus romances? Chamo-me Mumiah o teu anjo da guarda que tanto maltrataste em tua vida.
Ana Plácido passa a mão pelo rosto branco e frio de Camilo, corre-lhe as pálpebras e diz: transportem-no com cuidado para o quarto, deitem-no sobre a cama mas não o dispam. Acendam as velas do oratório.

. Ligações
. A Mesa pola Normalización Lingüística
. Biblioteca do IES Xoán Montes
. encyclo
. cnrtl dictionnaires modernes
. Le Monde
. sullarte
. Jornal de Letras, Artes e Ideias
. Ricardo Carvalho Calero - Página web comemorações do centenário
. Portal de cultura contemporânea africana
. rae
. treccani
. unesco
. Resistir
. BLOGUES
. Aventar
. DÁ FALA
. hoje há conquilhas, amanhã não sabemos
. ProfBlog
. Sararau