Sábado, 19 de Fevereiro de 2011

A Menina dos Olhos Loiros - por António Augusto Sales

Era uma vez uma menina que nascera num qualquer ponto da terra. Franzina e pobre possuía uns cabelos e uma boca que riam quando brincavam no Jardim da Infância. Mas o que ela tinha de maravilhoso e surpreendente eram os olhos, uns olhos loiros como espigas de trigo maduras. Nesses olhos guardava-se o céu, o mar e a terra, a música dos pastores, o canto dos poetas, as vozes das cidades. Brilhava neles a claridade do sol que aquece a saudade dos velhos, as sombras silenciosas que ajudam a repousar do tempo, os leves ruídos da natureza que seduzem o respirar da alma. Olhos em permanente sorriso para os barcos acostados à beira dos cais, para o fascínio dos anúncios luminosos, para a ingenuidade pura dos lagos com repuxos e cisnes. Era linda a menina! Atrás do arquito de madeira ou em jogos de pé-coxinho atravessava os campos e os mares, as montanhas e as cidades.

 

O murmúrio débil da infância rasgava os horizontes para além e construía um universo de esperanças famintas de amor, espelhadas no fundo daqueles olhos loiros que sabiam acariciar as flores e os buracos de prata pregados no azul do céu. A menina era o símbolo maior e a esperança mais cara! Falava-se de fome e o povo erguia a menina com mão trémulas. Falava-se de amor e desenhava-se carinho e ternura pela menina no rosto dos homens. Falava-se do futuro e as mãos rasgavam-se em trabalho na ânsia de conquistar um mundo novo para aqueles olhos loiros. Falava-se de guerra e procurava-se desesperadamente a menina para invocação da paz. E por isso todos diziam querê-la e amá-la. E por isso ela lhes sorria com uma pureza constante e total. Mas os homens não compreendiam as abstracções da infância. Interrogavam-se no reflexo dos olhos loiros sem conseguirem traduzir a mensagem de paz, amor e felicidade que neles se encontrava escrita. Enredavam-se na imponência gratuita das suas lutas, na tragédia grotesca dos seus gestos e das suas palavras adultas caminhando angustiados e sós sem arcos de madeira, berlindes ou bolas de trapo. Viam a cor das madrugadas, o verde das florestas, a pequenez do planeta girando na imensidão do universo. Escutavam as vozes do mar, o coaxar das rãs, o choro das crianças perturbando a inocência da vida. Sentiam a leveza do vento, o clamor da alma, o cântico das deusas do pensamento. Tudo isso perdiam na engrenagem dos seus passos ambiciosos, calculistas, violentos e cruéis. Os pastores deixaram de tocar a melodia do riso cristalino e os poetas esqueceram que continuavam existindo nos olhos da menina.

 

Um dia... No mundo onde se fabricam moinhos de papel e balões coloridos a menina dos olhos loiros morreu enrodilhada numa mole de gente que erguia bandeiras de protesto; enregelada numa barraca de lata; tísica de fome num campo de refugiados; apanhada pelos estilhaços de um acto terrorista... Morreu e foi amortalhada no cimo da Torre de Babel logo abaixo do céu. E todos os homens e todas as mulheres a foram ver, e todos os homens e todas as mulheres a foram chorar, e todos os homens e todas as mulheres foram-lhe oferecer as flores que haviam existidos puras no Jardim da Infância. Os galos deixaram de cantar, a terra ficou fria e escura e as flores da mortalha transformaram-se em urtigas. Um vento de desgraça roubou das mãos dos homens a canção do amanhã que sempre estivera escrita nos olhos loiros da menina.

 

Nota – Este conto foi publicado em 1964 no caderno 59 da colecção Imbondeiro. Nesta versão definitiva, feita em 2005, as alterações são de carácter formal e actualização de algumas imagens literárias.

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publicado por Carlos Loures às 22:00

editado por Luis Moreira às 22:03
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