Domingo, 20 de Fevereiro de 2011
TARECO( 2) - por Fernando Correia da Silva

 

2. ALFABETIZAÇÃO 

 

 

 

            Não consigo ser um bom professor de fonética, o meu jeito de falar ora aos repelões, ora arrastado, à moda de Alfama, atrapalha tudo, o Tareco já não sabe de que terra é. Eu a rir com os desatinos do zingarelho falante, mas a Dolores a meter travão às quatro rodas:

 

         - Isto assim não pode ser! Vou convidar o Prof. Pena Cunha para nos dar uma ajuda.

Convida e aí vem o linguista, também gramático afamado. E o dinheiro dos japoneses a correr, sempre a correr...

 

         O Pena Cunha fica dias e dias a conversar com a Dolores e o Samurai. Ele a badalar, o Samurai a dedilhar o teclado e a Dolores a traçar símbolos cabalísticos. Depois resolvem chamar-me. Querem que o Tareco tenha minha voz. Eu vou. Desconfiado, mas vou. Outra vez frente ao gravador eu leio as cábulas:

 

            Á como em gato, como em pá

            Â como em cama, cana, fazer

         É como em pé, como em ferro

         E como em sede, corre, regar

         Ó como em cola, como em pó

         Ô como em força, morro

         I como em vir, como em bico

         I como em pai, feito

         U como em bambu, como em azul, como em sul

         U como em correr, como em morar

         U como em pau, como em água

         B como em branco, como em ambos

 

e por ai fora até

 

            Z como em azar, como em casa.

 

Depois a Dolores convida um outro gajo barbudo e gorducho. Tanto, que os seus alunos até o chamam de Barriga de Bicho. É o Dr. Luís Lebre, está sempre a aparecer na televisão, e o seu apelido anuncia a agilidade que não tem e nunca teve, ao que suspeito.

 

Encosto o ouvido à porta do barracão e apanho as filigranas do Dr. Sabão: fonema, sintagma, código, mensagem, signo, símbolo, rema, glossemática, referente, ícone, índice, semiofania, entropia, metalinguística.

 

A Dolores acaba por lhe dar uma corrida em pelo, a miúda tem alergia ao verbo que puxa ao complexo. Do que ela precisa é de ideias e palavras que de imediato possam agir ou interferir sobre coisas concretas.

 

         - Sua ignorante! (diz, como despedida, o Barriga de Bicho, enquanto empina a pança).

 

         Ainda estive para lhe acertar umas lambadas mas deixo passar em branca núvem, para não turvar os ambientes.

 

            Está a ser muito difícil a alfabetização do Tareco. O Pena Cunha é que tem uma paciência de Job e eu com ele. Sob a sua orientação, fico quatro meses a ler verbetes para o Tareco. E um dia a Dolores diz-me: 

               

- Pai, o Tareco já tem a tua voz. Já a vouenquadrando na estrutura da nossa língua. Já leu todo o Cândido deFigueiredo, o Moraes e outroscalhamaços mas ainda não consegue relacionar o nome com o nomeado. Conhecimentostem ele, e muitos. Mas a falar é como se fosse um garoto de 3 para 4 anos.Chegou a tua vez, Pai. Faz de conta que ele é teu neto. Fala com ele, tempaciência. O Tareco precisa ouvir a tua voz, para corrigir a dele, que também éa tua. Faço-me entender? Tem calma que ele aprende depressa. Está programadopara aprender depressa.

 

Eu em brasas para ver no que ia dar a geringonça. De mansinho, aí vem oTareco.

 

-Bom dia, Vô.

- Vai mas é chamar avô ao camandro!

- Camandro não consta na minha memória. Eu pedoexplicação.

- Eu pedo, sua besta? Eu peço, eu peço... Não podes falarmelhor?

- Eu podo.

-Podas o quê? A rama dos teus cornos? Eu posso, eu sei, sua lata ferrugenta. Nãofazes melhor do que isso?

- Eu tomo atenção, eu fazerei melhor.

-Valha-nos a Senhora da Agrela, não há santa como ela.

-Agrela não consta na memória. Peço explicação.

- Pedes explicação? Mas que tom imperativo... Não sabes pedir porfavor?

- Por favor, eu peço explicação.

- Bravo, Tareco. Não é fazerei, éfarei.

- Entrada satisfatória. Estou a recapitular os verbos irregulares. Não éfazerei, é farei.

- Isso mesmo. E como é que de repente soubeste o que eracerto?

- Eu sube porque registo tudo.

-Mas que grande calisto, é só bacoradas. Raios de te partam, não é sube é soube.Sabes que mais, Tareco? Vai dar uma curva!

 

Pôs-se em movimento. Percorreu um alongado ziguezague pelo quintal eoutra vez se colocou à minha frente.

 

-Eu já dei.

- O quê?

- Uma curva. Vossa Excelência gostou?

 

Falar, o emplastro até já fala, parece um papagaio. E pensar? Será quealguma vez ele vai dar uma para a caixa?

 

 

 

 

 



publicado por Carlos Loures às 19:00
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1 comentário:
De ethel feldman a 20 de Fevereiro de 2011 às 20:46
sem gramática!


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