Domingo, 20 de Fevereiro de 2011

O Mistério da Camioneta Fantasma - XIV

 

 

 

 

 

 

 

(Continuação)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Mistério da Camioneta Fantasmapeça de Hélder Costa - 14


Cena 14

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tertúlia no café “LEÃO”

 

( SLIDE AMADEO .Tertúlia num café. Entre outros, Raul Leal, António Ferro, Fernandinha…. Almada Negreiros desenha Raul Leal)

 

Ballet….Aplausos

 

Raul Leal – Nós somos a voz dos novos poetas que se levanta contra a ignorância dos republicanos, maçónicos e bolcheviques.

 

( No exterior)

 

Alfredo da Silva – Mas para que é que você me trouxe aqui?

 

Carlos Pereira – Senhor Alfredo da Silva! Para conhecer os novos adeptos da nossa causa.

 

Alfredo da Silva – Mas o que é que quer fazer com esta gente?

 

Carlos Pereira – Eu? Nada. Quero o apoio deles e chega-me.

 

Alfredo da Silva – Esta gente não presta para nada. O movimento para ir para a frente, precisa de gente firme e determinada. Não é disto. Ao menos os velhos, sei eu quem são.

 

Carlos Pereira – Senhor Alfredo, não está a ver bem o problema desta gente, os poetas e os artistas têm mais influência do que o senhor julga. Falam de coisas que não devem, dizem-se anarquistas mas gostam da tradição, falam em nome do povo ( risos), se um dia vierem a conhecer o povo vão ter grandes surpresas, são contra a violência...

 

Alfredo da Silva – Pois claro. É o que eu estava a dizer, oh Carlos Pereira. Eu nem o estou a perceber. Você, dono da Companhia das Águas e do Banco Comercial de Lisboa...

 

Carlos Pereira – Eles também gostam do dinheiro, e se querem vender as poesias, os quadros e a música, tem de ser aos que têm dinheiro, e não aos miseráveis que nem têm onde cair mortos.

 

Alfredo da Silva – Eu nem gosto de nada do que eles fazem. E você quer que vá comprar coisas a esses malandros, imorais e inúteis.

 

Carlos Pereira – Pois quero. Para eles ficarem nossos amigos, nos defenderem e abandonarem essas ideias. Vá lá, por uma vez sacrifique o seu bom gosto. Com uma cajadada matamos dois coelhos.

 

Alfredo da Silva - Você acha que essa gente cai nisso?

 

Carlos Pereira (ri) – Por favor! Essa gente só quer andar nos corredores do poder, só quer que a gente lhe estenda a mão... Não conhece aquela “Deixar vir os pequeninos artistas, ao Grupo do Leão, comer sopa de camarão?

(Entram)

 

Poetisa Fernandinha – olha, o Carlinhos! Está bom ? (beijam – se)

 

Carlos Pereira (para Alfredo da Silva) – há aqui boa gente. Um dos que está à frente disto é o Raul Leal, filho do Leal que dirigiu o Banco de Portugal …

 

Alfredo da Silva – isso é gente com muito, muito dinheiro…

 

Carlos Pereira – parece que o rapaz tem gasto tudo…

 

António Ferro (avança) – Não escrevo por vaidade, nem pelo orgulho inútil de criar…

 

Raul Leal (interrompe – o) – António Ferro, nosso mais brilhante publicista!

 

António Ferro – Não escrevo por vaidade, nem pelo orgulho inútil de criar…

 

Senhora( interrompe-o e beija-o) - António, meu querido

 

António Ferro – Não escrevo por vaidade, nem pelo orgulho inútil de criar…

 

Almada Negreiros (entra com cavalete) – olá, António…

 

António Ferro – Não escrevo por vaidade nem pelo orgulho inútil de criar.

(mais interrupções)

 

eu sou …. (todos em coro)…um trapeiro de cores..

 

.lá dizia Marinetti (todos em coro)…”a guerra, a única higiene do mundo”…

(Aplausos, Bravos!)

 

António Ferro – vão-me desculpar, mas tenho de sair… encontro com o Fernando Pessoa…

 

Protestos.: Vai ter com uma corista! É sempre assim!

 

Diva – estou farta! Ele não é ferro, é só sucata!

(Cena de teatro)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Raul Leal - Perante a miséria e o desmembramento da nossa identidade nacional, perante o ignóbil projecto da nossa venda em leilão a castelhanos, gauleses, saxónicos e outros que tais, o nosso movimento, o integralismo lusitano, pugna pelos mais lídimos valores da raça e da portugalidade.

Somos contra a República porque eles são os herdeiros dos jacobinos da sinistra revolução francesa, bandeira da liberdade, igualdade e fraternidade, capa assassina para a decapitação de Luís XVI e milhares de membros das mais nobres classes.

Queremos vingar a morte de Sidónio Pais, seremos uma barreira indestrutível contra o anarquismo e o bolchevismo, lutaremos pelos princípios que, na Idade Média, colocaram Portugal na primeira linha do desenvolvimento da humanidade.

 

Vozes – Viva a Idade Média ! Viva a Idade Média !

Para esta luta, não bastam militares, sacerdotes, políticos, banqueiros, e povo anónimo, são e generoso.

Necessitamos de artistas, poetas, filósofos, professores, necessitamos de gente capaz de cantar o que fomos e queremos ser, de homens e mulheres que acreditem e sintam, com o maior fervor estético, o nosso desígnio nacional.

 

Vozes – Bravo! Bravo!

 

Raul Leal – E agora, oiçamos o nosso grande poeta Fernando Pessoa... alguns excertos “À Memória do Presidente Rei Sidónio Pais...

(Sinal de uma poetisa que Fernando Pessoa deve estar embriagado)

 

Raul Leal – bem, não estando o nosso Fernando, a menina Fernandinha…

 

(Poetisa põe chapéu, óculos e bigode e recita)

 

Se Deus o havia de levar

Para que foi que no-lo trouxe

Cavaleiro leal, do olhar

Altivo e doce?

 

Quem ele foi sabe-o a sorte,

Sabe-o o Mistério e a sua lei

A vida fê-lo herói, e a morte

O sagrou Rei! (Bis – Coro)

 

Mas a ânsia nossa que encarnara,

A alma de nós de que foi braço,

Tornará nova forma clara,

Ao tempo e ao espaço.

 

Tornará feito qualquer outro,

Qualquer cousa de nós com ele;

Porque o nome do herói morto

Inda compele;

 

Rei-nato, a sua realeza,

Por não podê-la herdar dos seus

Avós, com mística inteireza

A herdou de Deus; (Bis – Coro)

 

E, por directa consonância

Com a divina intervenção,

Uma hora ergueu-nos alta a ânsia

De salvação.

 

Precursor do que não sabemos,

Passado de um futuro a abrir

No assombro de portais extremos

Por descobrir,

 

Sê estrada, gládio, fé, fanal,

Pendão de glória em glória erguido!

Tornas possível Portugal

Por teres sido!

 

E no ar de bruma que estremece

O DESEJADO enfim regresse

A Portugal!

 

( aplausos. Desmaia. Histeria . Gritos)

 

Raul Leal – A essência das minhas doutrinas está na combinação íntima do hermetismo e do espírito medieval através das formas mais arrojadas dos tempos modernos.

 

Alfredo da Silva – O que é isto? Você percebe isto? Não tenho confiança nesta gente.

 

Carlos Pereira – Nem tem o senhor, nem tenho eu. Hoje dizem isto, amanhã viram a casaca, se fôr preciso. Alguns, já foram dos outros. É tudo uma questão de dinheiro. E como dinheiro é coisa que não falta ao Alfredo da Silva...

 

Alfredo da Silva – Sim, se a questão é só essa... também se arranja dinheiro para putas finas... ( Dá dinheiro a Carlos Pereiral)

 

Carlos Pereira (entrega dinheiro a Raul Leal) – tome lá, você já gastou muito dinheiro, merece ser ajudado.

 

(O Grupo sai com a poetisa aos ombros)

 

(Continua)

publicado por João Machado às 23:55
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