Terça-feira, 15 de Fevereiro de 2011
METADE SIM, METADE NÃO: CÓPIA DE UMA POESIA DE GULLAR, FALSO INUTIL - por Sílvio Castro

Como acontece particularmente no setor das artes visuais, muitas vezes uma cópia pode traduzir um copista que, não sendo tendencialmente um criador, possui a magia muito particular da boa imitação. Porém este bom copista conhece as regras do jogo, sabe que deve realizar a sua imitação a partir de dados objetivos que evitem qualquer possibilidade de confusão entre a cópia e a obra original. No caso do bom compista de desenhos, pinturas, etc., por exemplo, o uso de um dado que mostre a cópia feita com dimensões diversas daquelas do original e que não procure reproduzir o tempo do mesmo com artificialismos químicos são elementos comprovadores da honestidade do copista. Fora disso, toda cópia é um falso, principalmente se se trata de uma boa cópia.

Pode-se dizer que praticamente regras correspondentes valem no campo literário para os casos de cópias, imitações ou falsos como textos não completamente pessoais ou de dúbia atribuição de autoria.

Naturalmente o falso literário, quase sempre escondendo um ato derivado da cópia, deve ser denunciado através de regras específicas do setor, denúncias essas que serão realizadas principalmente com explícita declaração da natureza do trabalho proposto. Se o falso não é de natureza grosseira, mas apresenta apreciáveis qualidades literárias, muito possivelmente ele se demonstra possuidor das regras e qualidades de um bom uso da paráfrase.

A retórica clássica define a paráfrase como “Reescrita de um texto com a finalidade de fazê-lo mais explícito e claro“; conceitos básicos estes que a modernidade retórica alarga para “uma aplicação mais direta ao sentido do texto que à sua letra”, perseguindo assim novos enfoques expressivos.

Se a obra parafrástica é límpida, ela então se apresenta como um cópia, uma imitação; se, ao contrário, invés da limpidez se mostra, de uma maneira ou de outra, ambígua, então se configura como um falso literário.

Um recente episódio de um poema divulgado via internet como de autoria de Ferreira Gullar exemplifica cabalmente todas as questões acima equacionadas.

Trata-se de um poema que traz como título “Metade”, divulgado via internet pela voz do compositor brasileiro Oswaldo Montenegro, e dito da autoria do poeta de A Luta Corporal, de recente duplamente exaltado com os significativos reconhecimentos por sua obra completa do “Prêmio Machado de Assis – 2010”, da Academia Brasileira de Letras, e do “Prêmio Camões – 2010”, máximo galardão a um escritor de língua portuguesa por parte da Comunidade Internacional dos Países de Expressão Portuguesa.

A recepção do poema “Metade” como peça de boa qualidade lírica, no início da operação de internet foi alta por distintas razões. Entre essas a declaração de autoria de um poeta de clara fama (na repetição de um fenômeno que, bem ou mal, sempre se verifica em casos semelhantes, apresentando-se o nome do possível autor como inicial garantia da bondade da composição); assim como a força divulgativa própria da sempre poderosa via internet, reforçada por uma justa e feliz homenagem ao poeta por ocasião de seu 80° aniversário (10 de setembro de 2010). Mas, verdadeiramente, apesar de tudo isso o operado não passa de um falso, pois o poema-falado “Metade” não é senão uma farsesca paráfrase do poema de Gullar, “Traduzir-se”, publicado na série de poemas Na vertigem do dia (1975-1980), parte final do volume Toda Poesia (1950-1980).

Uma sumária análise crítico-comparativa dos dois textos nos poderá permitir de chegar a desvendar todos esses falsos mistérios. Para isso começamos por apresentar os dois textos.

O poema original

Traduzir-se

Uma parte de mim

é todo o mundo:

outra parte é ninguém:

fundo sem fundo.

Uma parte de mim

é mutidão:

outra parte estranheza

e solidão.

Uma parte de mim

pesa, pondera:

outra parte

delira.

Uma parte de mim

almoça e janta:

outra parte

se espanta.

Uma parte de mim

é permanente:

outra parte

se sabe de repente.

Uma parte de mim

é só vertigem:

outra parte,

linguagem.

Traduzir uma parte

na outra parte

- que é uma questão

de vida ou morte –

será arte?

O falso

 

Que a força do medo que eu tenho

não me impeça de ver o que anseio.

Que a morte de tudo o que acredito

não me tape os ouvidos e a boca.

Porque metade de mim é o que eu grito,

mas a outra metade é silêncio...

Que a música que eu ouço ao longe,

seja linda, ainda que triste...

Que a mulher que eu amo

seja para sempre amada

mesmo que distante.

Porque metade em mim é partida,

mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo

não sejam ouvidas como prece,

e nem repetidas com fervor,

apenas respeitadas,

como a única coisa que resta

a um homem inundado de sentimentos.

Porque metade de mim é o que eu ouço,

mas a outra metade é a que eu calo.

Que essa minha vontade de ir embora

se transforme na calma e na paz

que eu mereço.

E que essa tensão

que me corrói por dentro

seja uma dia recompensada.

Porque metade de mim é o que eu penso,

mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se aparte

e que o convívio comigo mesmo

se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto,

um doce sorriso,

que me lembro ter dado na infância.

Porque metade de mim

é a lembrança do que fui,

a outra metade eu não sei.

Que não seja preciso

mais do que uma simples alegria,

para me fazer aquietar o espírito.

E que o teu silêncio

me fale cada vez mais.

Porque metade de mim

é abrigo, mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta,

mesmo que ela não saiba.

E que ninguém a tente complicar

porque é preciso simplicidade

para fazê-la florescer.

Porque metade de mim é plateia

e a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada

Porque metade de mim é amor

e a outra metade...

também.

O poema original – “Traduzir-se” é um típico poema de Ferreira Gullar; isto por diversas razões: ritmo específico tendente a uma específica comunicação lírica visiva, concreta e ao mesmo tempo multi-espacial; como consequência da multi-espacialidade, intensa variação semântica da mensagem lírica; linguagem lógica e contemporaneamente testemunho de uma metalinguagem; apelo limitado aos valores formais do poema, com preferência para uma enfatização dos mais variados recursos estilísticos: repetição, antíteses, afirmação direta e sintética dos valores líricos, simplicidade da estruturação poemática, etc. Todos esses variados elementos constituem uma específica “fala” de Ferreira Gullar. Composto de sete estrofes de versos curtos, sob uma renovada forma de quartetos, cada estrofe se estrutura a partir de uma espécie de refrão, ao mesmo tempo arcáico e moderno, numa repetição dinâmica que enriquece e renova continuadamente o ritmo da composição. Tal renovação se verifica principalmente porque a segunda linha (usando a terminologia proposta por Cassiano Ricardo em substituição de verso) jamais se repete, mas se integra sempre coerentemente com o primeiro verso ou primeira linha, o refrão propriamente dito. Esta criatividade de recursos expressivos permite sempre uma conclusão: os versos complementares dos quartetos são realizados de maneira tal, que mesmo sendo concreta é liricamente mágica. O valor centralizante do poema, isto é, o ritmo do mesmo, tem como enfoque central e definidor a 4ª. estrofe: “Uma parte de mim almoça e janta: outra parte se espanta.” Assim procede o autor por seis estrosfes do poema; somente a última oferece uma modificação comunicativa, quase surpreendente, o que permite a permanência dos valores presentes nas anteriores mágicas estrofes nesta útima que retorna conscientemente a diretos elementos retóricos: “Traduzir uma parte na outra parte - que é uma questão de vida ou de morte – com será arte?” O poema parafrástico, ou o falso – “Metade” inicialmente surpreende em forma positiva o leitor ou o ouvinte da mensagem do poema-falado, como o mesmo se apresenta na equívoca apresentação da internet. Surpreende porque, como já foi dito acima, aparece sob a tutela do nome de Ferreira Gullar, e por isso mesmo induzindo à valorização dos muitos elementos expressivos que ele possui, e em verdade os possui, mas sempre sob a égide condicionadora da origem de um autor reconhecidamente de alto valor expressivo. Assim sendo, as muitas estrofes do poema se desenrolam num ritmo mais que verdadeiramente percebido, intuído. Isto principalmente porque na composição não é possível a recepção de uma “fala” unitária, pois o que se percebe é uma confusão de possíveis falas. O mesmo acontece com a função do refrão poemático, mesmo se nele o refrão é imediatamente visto como um óbvio próprio de canções populares contemporâneas, recurso destinado somente à memorização da perseguida canção: “Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba. E que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer. Porque a medade de mim é plateia e a outra metade é canção.” Porém, mesmo assim, o encantamento incial de certa forma se mantém, ainda que atenuado-se pelo susseguir-se das muitas, demasiadas estrofes, que sempre e mais se fazem longas e demasiado exuberantes. A partir daí o encantamento inicial começa a arrefecer-se, principalmente em consequência do ritmo poemático, desde logo demonstrado irregular e condicionado por razões diversas daquela da possível razão poemática. Depois, tudo se esclarece. Trata-se de uma paráfrase que começando razoavelmente bem, vai concluir-se numa simplificação exagerada do certo modelo escolhido, para cair precipitadamente nas formas pejorativas do método parafrástico, isto é, prolixo e supérfluo. Em síntese, o autor ou os autores desta empresa cometeram um êrro múltiplo e totalizante: fizeram de uma feliz idéia de uma justa homenagem ao poeta nos seus 80 anos, um produto que podendo ser uma boa cópia se transformou num inútil falso. Falso que não poderá nem mesmo transforma-se em canção, pela falta de um reconhecível ritmo lírico.

 

Metade



publicado por Carlos Loures às 19:00
editado por Luis Moreira às 18:48
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6 comentários:
De Luis Moreira a 15 de Fevereiro de 2011 às 19:10
Bela análise. A maioria, sozinho, não vai lá.Ao falso inútil!


De Paulo Rato a 16 de Fevereiro de 2011 às 07:17
Caro Sílvio,
A "net" está infestada de "falsos" destes que, por vezes, até chegam às páginas de jornais "de referência", como uma coisa bacoca atribuída a Fernando Pessoa, que motivou a reacção indignada de vários leitores, incluindo a minha, junto do respectivo Provedor do Leitor!
Tendo mantido na rádio pública portuguesa (na Antena 2) um programa de "poesia e música" durante 14 anos, não é fácil que estes estropícios me escapem e tenho denunciado muitos deles. Mas são uma praga impossível de exorcizar, porque serão sempre mais os divulgadores do dolo que os que o combatem. E não é só na literatura, em particular na poesia: também as artes plásticas sofrem com o oportunismo e, sobretudo, a ignorância global...
Não sou é capaz de uma análise como a sua, que só não digo que tal ofensa poética não merece porque, na sequência do comentário do Luís, compreendo que auxilie muitos leitores a toparem as falsificações. Muito mais útil, pois, a sua paciente explicação que o tratamento básico e bruto que lhes dou, como fraude, apropriação desprezível de nome sonante para atrair a atenção dos desprevenidos para obrinha pobre, às vezes para tentar fazer passar mensagens parvas, do tipo evangélico-cármico-choradinho: lixo, em suma, que só me merece vassourada agreste.
Já tinha deparado com mais este atentado, algures nesta infinidade virtual, mas creio que nem reagi como de costume, por puro cansaço e impaciência. Ainda bem que o Sílvio lhe pegou, com toda a sua sabedoria e experiência, bem mais esclarecedoras que a minha rudeza. Bem haja!


De ethel feldman a 16 de Fevereiro de 2011 às 13:31
Irrita-me muito mais quando uma obra é referenciada com o autor errado. Ao Pessoa já foram atribuídos poemas de arrepiar. É epidémica esta atitude. Acho que o poeta nunca foi tão citado como agoira. E quem nunca leu poesia até já partilha poemas e frases famosas.
Se aproveitarmos essa fresta e divulgarmos as obras originais, respeitando os autores, foi bem vinda a informação falsa, porque ela partilhou a arte. Que venham depois os sábios arrumar a casa.


De Ulysses Machado a 18 de Fevereiro de 2015 às 23:33
Prezado Senhor,
O livro "Na vertigem do dia" e a antologia "Toda Poesia" são, ambos, de 1980.
"Metades" foi publicada em 1975 no libreto da peça "João sem Nome" e gravada em 1977, como trilha sonora.
A capa do disco de 1977 está aqui:

http://www.4shared.com/download/3w5QF8u3ce/TRILHAS_capa.png?lgfp=3000

Estamos à sua disposição para qualquer esclarecimento que deseje, em ulysses@almadvocacia.com. Atenciosamente,


De Anónimo a 6 de Outubro de 2015 às 17:09
Por mera curiosidade, gostaria de saber se alguma retratação foi feita?

Já que o texto acusa indevidamente o Montenegro de plágio! Se é que alguém cometeu o ato de "paráfrase" foi Gullar (eu discordo, e parece claro que o tema foi plantado meramente para depreciar o poema do Oswaldo). O fato cronológico - conforme afirma o comentário do Ulysses - pode ser verificado e constatado como fato.



Então?

É que a internet também é cheia de bons trolls e acusar - sem uma rasa pesquisa - é sempre tão fácil...


De Adauto Sobrinho a 4 de Maio de 2019 às 01:49
Diante dos dados comprobatórios apresentados pelo Sr. Ulisses, a inicialmebnte bela crítica lliteráriao Sr. Silvio tornou-se um amontoado de conceitos sem o menor sentido. Gostaria de ler um novo comentário do Sr. Silvio, agora a considerar a diferença entre as datas das criaçoes dos versos dos respectivos autores. Penso que o Sr. Montenegro merece uma nova análise, mas concordo que poeticamente nao há como compará-lo ao Sr. Gullar.


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