Sexta-feira, 18 de Fevereiro de 2011

Volatilidade do preço das matérias-primas – por Joahnne Buba, Maxime Liegey - 1

Iª Parte: Para uma regulação dos mercados financeiros

  1. Os mercados de produtos derivados de matérias-primas na origem da volatilidade dos preços dos anos 2000?

Introdução

 

Os mercados de matérias primas não são um mercado de activos como os outros: estes produtos são matérias primas, produtos intermediários, são “inputs” incontornáveis na   produção, na economia real e  a evolução dos seus  preços tem consequências directas e imediatas para os investimentos, sobre a produção ou ainda sobre a  alimentação, como o mostrou bem o disparar dos preços no período de 2007-2008 e mais recentemente ainda com a crise sobre o trigo russo. Estes mercados são por conseguinte objecto de uma atenção muito específica por parte dos  poderes públicos, que os  inscreveram   na ordem de trabalhos do G20  de 2011.

 

Paralelamente, a imagem dos bancos foi fortemente corroída pela crise dita de subprimes, explicando-se assim  que os poderes públicos  vejam  a  sua participação   nos mercados a prazo de matérias primas com ar de bastante desconfiados, tanto quanto o aumento dos preços correspondem  mais ou menos à chegada maciça  destes novos operadores neste  segmento de mercados . De acordo com  a análise económica, os movimentos das cotações  observadas nestes últimos anos devem-se principalmente à tensão que pôde existir entre uma oferta estagnante e uma procura crescente. A literatura sobre o assunto, se explica a actuação dos mecanismos  em funcionamento , não fornece nenhuma prova da responsabilidade dos mercados à prazo  e, mais particularmente , dos operadores financeiros  no aumento dos preços de 2007-2008. A prudência é no entanto de rigor:  a ausência de provas, principalmente devida à ausência de dados, não significa  portanto que  estes  mercados derivados devam ser isentos de todo  e qualquer controlo. Cabe aos poderes públicos e às autoridades de mercado encontrarem uma situação de  justo equilíbrio com um regulamento que permita prevenir  a evolução  descontrolada das cotações  preservando ao mesmo tempo o desenvolvimento   destes mercados, essenciais  quanto às  necessidades de cobertura e quanto à  formação das antecipações  dos preços.

 

Os desafios

 

Desde o ano  2000, todos os mercados de matérias-primas , energéticas, mineiras ou agrícolas, conhecem um aumento regular dos preços. A partir do terceiro trimestre de 2006, os preços culminaram em  níveis raramente atingidos, se é alguma vez o foram. Durante o Verão  de 2008,   o barril de petróleo  esteve assim próximo  dos  150 dólares. Estes movimentos erráticos das cotações  renovaram o interesse  dos decisores públicos pelo  funcionamento dos mercados de  produtos derivados e as suas interrogações sobre a responsabilidade  dos “especuladores “ tradicionalmente  suspeitos , aquando das crises (1)[1], de estarem  n a origem da formação “de bolhas” especulativas que se traduzem   na economia real por uma perda  de  bem-estar social. A análise económica permite-nos fazer  luz sobre os mecanismos que puderam conduzir  a uma subida vertiginosa  dos preços nos mercados financeiros, que seguidamente se teriam ido repercutir  no mercado físico.  Se o seu papel na instabilidade constatada durante os últimos anos não está provada, o enquadramento dos mercados derivados de matérias -primas é hoje um dos pontos em discussão a nível comunitário (directivas e regulamentos em curso  de validação  na Comissão europeia), como a nível internacional

 

A volatilidade de produtos derivados na origem da  volatilidade dos preços dos anos 2000 ?

 

A volatilidade pode ser definida de diversas maneiras. Reteremos nesta nota a definição seguinte, que corresponde à compreensão mais ideia  mais frequente da  palavra: a volatilidade corresponde às variações de preços bruscas e de forte amplitude, excluindo as fracas variações em torno  de um preço médio[2]. A volatilidade assim definida teve consequências importantes na economia real. Recorde-se  “os motins da fome”, que agitaram o Egipto, o Haiti, Marrocos, as Filipinas e numerosos países da África, na sequência do aumento dos preços agrícolas em 2007-2008. Para os países em desenvolvimento, frequentemente dependentes dos produtos agrícolas, esta instabilidade conduziu  a muito fortes variações das receitas e constitui  um travão ao crescimento económico[3].

 

. No caso do petróleo, a noção mais corrente  de “ volatilidade”, se nos interessamos pelo  impacto na economia real, traz-se igualmente pelas  variações bruscas  no aumento da cotação do barril, outrora maneira chamadas  “choques petrolíferos”. Com efeito, os economistas estão de acordo em  reconhecer os efeitos assimétricos das variações do preço do petróleo sobre a economia real : o impacto negativo no PIB de um forte aumento do curso não será compensado por um brusco abrandamento das cotações, como a  que foi observada, por exemplo, durante o segundo semestre de 2008. Embora seja largamente reconhecido que o efeito negativo sobre o PIB resultante de um aumento do preço do petróleo é bem menor desde os anos 2000 que em 1970[4],  não se pode excluir a hipótese segundo a qual “o choque”  de 2007-2008 contribuiu para a redução do ritmo de crescimento nos Estados Unidos[5] .

 

O aumento das cotações  constatado em 2007-2008 inscreve-se num fenómeno mais global de aumento generalizado dos preços das matérias primas, como o mostra  o gráfico seguinte.

 

 

 

 

Paralelamente, os mercados financeiros de matérias primas desenvolveram-se fortemente. Assim, o volume das transacções aumentou consideravelmente desde os anos 2000, em especial nos mercados privado (OTC ou over the counter em inglês, ou fora da bolsa): os agentes presentes diversificaram-se, com a chegada maciça de novos investidores (fundos de investimentos pouco  regulamentados  ou hedge funds, fundos especulativos por excelência,  fundos indexados, etc.).



[1] Stout, L.A. (1999), “Why the law hates speculators: regulation and private ordering in the market for OTC derivatives”, Duke Law Journal.

[2] Assim,  interessamo-nos aqui unicamente pela  noção de  volatilidade dita  “histórica”, isto é, calculada por método econométrico na base de dados históricos  – por oposição  à volatilidade  “implícita”, a qual é  largamente utilizada  nos mercados financeiros e determinada em referência a um modelo financeiro (modelo  de Black-Scholes).  Esta última  reflecte o preço  de risco instantâneo sobre uma opção .

[3] Loayza V.N., Rancière R., Servén L. e Ventura J. (2007), “Macroeconomic volatility and welfare in developing countries: an introduction”, The World Bank Economic Review, vol. 21, n° 3, p. 343–357, Outobro.

[4] Blanchard O. e  Galí. J. (2007), “Why are the 2000s so different from the 1970s? A structural interpretation of changes in the macroeconomic effects of oil prices”, NBER Working Paper, n° 13368, Setembro.

[5] Cf. le blog de James Hamilton : http://www.econbrowser.com/archives/2009/04/consequences_of.html,

http://www.econbrowser.com/archives/2010/12/worrying_about.html

 

 

(Continua)

 

publicado por Carlos Loures às 21:00
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